UOL Notícias Internacional
 

19/05/2006

Com a morte à espreita no Iraque, começa o êxodo da classe média

The New York Times
Sabrina Tavernise*

em Bagdá, Iraque
A morte corre como água pela vida da família Bahjat. Um barbeiro. Três comerciantes. Quatro vizinhos. Dois homens que dirigiam uma casa de câmbio.

Mas quando seis homens armados invadiram a escola primária de seus filhos neste mês, mataram a tiros um guarda e deixaram panfletos ordenando o fechamento da escola, Assad Bahjat sabia que era hora de partir.

"A principal meta agora é apenas sair do Iraque", disse Bahjat, em uma sala cheia de malas e móveis de dormitório no leste de Bagdá.

No mais recente indício das dificuldades esmagadoras que pesam nas vidas dos iraquianos, um porção cada vez maior da classe média iraquiana parece estar fazendo todo o possível para deixar o país. Nos últimos 10 meses, o Estado emitiu novos passaportes para 1,85 milhão de iraquianos, 7% da população e talvez um quarto da classe média do país.

O sistema escolar oferece outra pista: desde 2004, o Ministério da Educação emitiu 39.554 cartas autorizando os pais a levarem o histórico escolar de seus filhos para o exterior. O número de tais cartas emitidas dobrou em 2005 em relação a 2004, segundo o diretor do departamento responsável do ministério. Autoridades iraquianas e organizações internacionais estimam o número de iraquianos na Jordânia como próximo de 1 milhão, e as cidades sírias também apresentam um número crescente de iraquianos.

Desde um atentado a bomba a um templo em Samarra, em fevereiro, ter
provocado uma onda de violência sectária, crimes e assassinatos têm se
espalhado ainda mais pela sociedade iraquiana, paralisando bairros e
destruindo famílias. Agora, às vésperas de um novo governo permanente, os iraquianos estão expressando o maior pessimismo em relação ao seu futuro em três anos.

"Somos como ovelhas em um matadouro", disse um empresário, que está
preparando sua mudança para a Jordânia. "Nós estamos apenas aguardando a nossa vez."

O atentado a bomba em Samarra produziu um novo tipo de violência sectária. Gangues de xiitas em Bagdá arrastaram os árabes sunitas de suas casas e mesquitas e os mataram, em uma onda que provocou ataques em retaliação e provocaram o deslocamento de 14.500 famílias em três meses, segundo o Ministério da Migração.

Mais assustador, dizem muitos iraquianos de classe média, é quão pouco o governo fez para impedir a violência. Tal fracasso indica um futuro
preocupante, os deixando com a sensação de que o governo é incapaz de
protegê-los e, pior, que talvez tenha colaborado nas mortes.

"Agora eu estou isolado", disse Monkath Abdul Razzaq, um árabe sunita de classe média, que decidiu partir após o atentado. "Eu não tenho governo. Eu não tenho proteção do governo. Qualquer um pode vir à minha casa, me pegar, me matar e me jogar no lixo."

Traços do êxodo estão espalhados pelo dia a dia. Abdul Razzaq, que se mudará com sua família no próximo mês para a Síria, onde já alugou um apartamento, disse que uma briga estourou enquanto aguardava por cinco horas em uma repartição lotada para preencher os pedidos de passaporte para seus dois filhos pequenos. Em Salheyah, um distrito comercial movimentado no centro de Bagdá, empresas de ônibus com rotas com destino à Síria e Jordânia disseram que aumentaram as vendas de passagens.

Karim Al Ani, o proprietário de uma das firmas, a Tiger Company, disse que um dia movimentado no ano passado costumava representar três ônibus, mas que nos últimos meses eles se aproximam de 10. "Antes eram mais turistas", ele disse. "Agora estamos levando de tudo, até mobília."

Apesar de grande parte da cidade ainda estar movimentada durante o dia,
áreas mais atingidas pela guerra, como Dora, no sul, e Ameriya, Ghazaliya e Khadra, no oeste, ficam assustadoramente vazias ao meio-dia. No quarteirão de Bahjat em Dora, apenas cinco das 40 casas continuam ocupadas. As casas vazias na área são pichadas com "Brigada Omar', um grupo sunita que mata xiitas.

"Sombras", disse Eileen Bahjat, a esposa de Assad, ao lado de seus dois
filhos e descrevendo o que restou no bairro. "Sombras e assassinato."

Em Dora, uma das piores áreas em toda Bagdá, a vida pública parou. Quatro professores foram mortos nos últimos 10 dias apenas na área de Bahjat, e a escola primária Ahmed Al Waily, onde estudaram seus filhos, com 12 e 8 anos, poderá não ser capaz de realizar os exames finais por causa dos assassinatos. Três professores da escola de segundo grau Al Batoul foram mortos no final de abril.

O lixo é coletado apenas esporadicamente. Em 3 de abril, os rebeldes mataram a tiros sete lixeiros perto de seu caminhão e os corpos ficaram estendidos na rua por oito horas até que as autoridades os recolhessem, segundo Naeem Al Kaabi, o vice-prefeito para assuntos municipais em Bagdá. Ao todo, 312 lixeiros foram mortos em Bagdá nos últimos seis meses.

"Sunitas, xiitas, cristãos", disse Bahjat, que neste mês se mudou com sua família para Nova Bagdá, um subúrbio a oeste, para morar com um parente antes de partir para a Síria. "Eles apenas querem esvaziar este local de todas as pessoas."

"Vamos ter que começar do zero", ele disse. "Talvez abaixo de zero. Mas não há outra escolha. Mesmo com mais tempo, a segurança não melhorará."

É mais do que apenas assassinato que tem minado a esperança no futuro. Os iraquianos aguardaram por cinco meses por um governo permanente, após votarem na eleição nacional em dezembro, e apesar dos líderes políticos estarem próximos de anunciá-lo, alguns iraquianos disseram que a quantidade de acordos que foram necessários para formá-lo os deixa céticos de ele será capaz de solucionar os problemas maiores.

Abd Al Kareem Al Mahamedawy, um xeque tribal de Amara, no sul do Iraque, que lutou por anos contra Saddam Hussein, comparou o processo a "dar à luz uma criança deformada".

Como se para realçar o argumento, uma tragédia ocorreu do lado de fora do portão de Mahamedawy, onde uma família se reunia, cheia de nervosismo para receber e assimilar a notícia do assassinato por estrangulamento do filho de 13 anos por seqüestradores. Uma mulher levou suas mãos à cabeça no movimento característico de pesar.

Mesmo com a determinação de partir, muitos iraquianos de partida disseram considerar a mudança apenas temporária e esperam voltar, se os grupos conflitantes se unirem e conterem a onda de assassinatos.

Carros e móveis são vendidos, mas aqueles que podem arcar, como a família de Abdul Razzaq, mantêm suas propriedades. Em Khadra, no oeste de Bagdá, Nesma Abdul Razzaq, a esposa de Abdul Razzaq, passou os últimos meses embalando suas fotos, vasos e móveis em pano e as colocando em caixas. Ela falou com tristeza das salas vazias e da dor de ter que construir uma nova vida em um local estranho.

"Eu tenho uma raiva dentro de mim", disse ela por telefone, já que sua
região, desde o semestre passado, se tornou insegura para a visita de
repórteres ocidentais. "Eu me sinto desesperada."

"Eu não quero partir do Iraque. Mas preciso pelo bem das crianças. Elas já viram o bastante."

Em um quarteirão tranqüilo em Mansour, um bairro rico no centro de Bagdá de casas amplas, com portões e grades e cercas vivas aparadas, a família Kubba passa grande parte de seu tempo dentro de casa. Eles mantêm seu estilo de vida: três dos filhos continuam estudando violino, flauta e balé em uma escola de artes fora do bairro, apesar da crescente violência.

No semestre passado, um cheiro ruim guiou os vizinhos até os corpos em
decomposição de sete membros de uma família em uma casa próxima da dos
Kubbas. Eles foram assaltados. Fehed Kubba, 15 anos, foi comprar pão no ano passado e viu uma multidão próxima da padaria, que ele presumiu que estava assistindo a um jogo de gamão. Quando ele conseguiu atravessar a multidão para ver, encontrou um homem que tinha acabado de ser morto a tiros.

Mas é a crescente natureza sectária da violência, profundamente dolorosa para iraquianos que se orgulham de sua herança de casamento entre grupos, que levou muitos a considerarem deixar o país.

"Os últimos meses nos convenceram", disse Falah Kubba, o marido, cuja esposa é sunita. "Agora eles estão matando por identidade. As mortes associadas aos americanos eram um tanto diferentes, mas as identidades, você não pode andar nas ruas."

"No começo dizíamos: 'Vamos esperar, talvez melhore amanha'", disse o
empresário. "Agora eu sei que é hora de partir."

*Mona Mahmoud, Qais Mizher e Sahar Nageeb contribuíram com reportagem para este artigo. George El Khouri Andolfato

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