UOL Notícias Internacional
 

19/05/2006

Sigilo do Irã aumenta buraco na inteligência nuclear do Ocidente

The New York Times
William J. Broad e Elaine Sciolino*
Ao sul de Teerã, o deserto dá espaço a arame farpado, artilharia antiaérea e um labirinto de prédios, dois deles câmaras cavernosas subterrâneas com cerca da metade do tamanho do Pentágono.

Inspetores internacionais antes podiam perambular livremente pelos cerca de 20 prédios principais daqui, no complexo de enriquecimento de urânio de Natanz. Atuando mais como detetives de polícia do que como cientistas, eles combinavam investigação meticulosa como um conhecimento de física e engenharia em um esforço para assegurar o verdadeiro intento do local, guerra ou paz.

Mas em fevereiro, após três anos de abertura incomum, o Irã reduziu drasticamente o acesso a Natanz e dezenas de outras instalações, pessoal e programas nucleares.

Os inspetores da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) não podem mais esfregar mechas em máquinas, recolher amostras de solo, estudar faturas, monitorar videoteipes, espiar atrás de portas fechadas, entrevistar funcionários e colher pistas aparentemente inócuas. Agora eles podem apenas rastrear um número limitado de operações envolvendo material radioativo, e mesmo assim como restrições incômodas.

Como resultado, o mundo está perdendo grande parte de sua capacidade de responder as perguntas mais urgentes sobre as ambições nucleares do Irã: quão rapidamente Teerã poderá produzir uma bomba atômica e se o país possui um programa secreto com esta intenção.

Diplomatas e especialistas nucleares dizem que a visão reduzida aumenta os riscos de erro de cálculo, e possivelmente de um confronto armado, à medida que o impasse atômico com o Ocidente chega a um novo estágio volátil.

A agência de energia atômica, cuja credibilidade como cão de guarda nuclear está em jogo, está particularmente preocupada. O acesso pleno "aumenta nossa habilidade de encontrar possíveis atividades nucleares não detectadas", disse o diretor da agência, o dr. Mohamed ElBaradei. Sua ausência, ele enfatizou, limita severamente "nossa capacidade de fornecer garantias críveis".

As novas restrições foram citadas no mais recente relatório da AIEA sobre o Irã, no final do mês passado. Mas o alcance e repercussões das restrições despontaram em entrevistas recentes de diplomatas, analistas nucleares e funcionários do governo.

Funcionários de inteligência americanos disseram que as restrições são particularmente significativas porque suas próprias avaliações dependem muito dos levantamentos da AIEA. Os motivos incluem escassez de inteligência humana proveniente do Irã e as suspeitas em torno da inteligência americana após os fracassos no Iraque.

"Para elaborar um caso público, nós precisamos de inspetores internacionais", disse um alto funcionário do governo em uma entrevista. "O presidente sabe que não podemos fazer um discurso expondo nossas suspeitas, não neste ambiente."

O funcionário pediu anonimato por não estar autorizado a discutir o assunto publicamente.

O Irã insiste que até o colapso das negociações com o Ocidente em torno de inspeções mais abrangentes, ele oferecia "acesso pleno e irrestrito" como forma de provar que sua atividade nuclear era totalmente pacífica, visando energia nuclear e isótopos medicinais para combate a doenças.

Mas os Estados Unidos, Israel e muitos governos europeus vêem a situação de forma mais complexa. Eles dizem que Teerã se abriu apenas após ter sido pega escondendo quase duas décadas de avanços nucleares e que, quando cooperou, uma série de pistas sugeriu que ainda mais continua escondido.

Agora que o Irã reduziu o acesso internacional ao mínimo exigido segundo os acordos de controle de armas, os analistas dispõem de menos ferramentas para penetrar nestes mistérios, muitos dos quais envolvendo quão perto o Irã está de dominar a transformação do urânio e do plutônio em combustível atômico.

Os inspetores confirmaram recentemente as alegações do Irã de que enriqueceu pequenas quantidades de urânio a níveis baixos e eles podem continuar monitorando tais passos. Mas em Natanz e em outras partes, os inspetores perderam sua janela para o futuro -por exemplo, nas fábricas onde, alega o Irã, o país construirá dezenas de milhares de centrífugas, máquinas que giram incrivelmente rápido para concentrar o urânio em combustível. O urânio de baixo enriquecimento pode alimentar reatores; o urânio altamente enriquecido pode ser usado em bombas.

Eles também não podem investigar as alegações do Irã de que está avançando em sua pesquisa de uma centrífuga mais avançada, que poderia acelerar seus esforços para produzir combustível atômico.

Os iranianos também pararam de cooperar com as investigações da possível existência de um trabalho clandestino em urânio e plutônio, um combustível alternativo para bomba. Na semana passada, diplomatas revelaram uma investigação de traços de urânio altamente enriquecido ligados a uma base militar demolida em Lavizan, nos arredores de Teerã.

Para os inspetores, assim como para as agências de inteligência americanas que dependem deles, a nova realidade é "miopia em comparação ao que eles tinham antes", disse David A. Kay, um ex-inspetor que em 2003-2004 liderou a caçada por armas não convencionais no Iraque. O risco de tal vácuo de informação, ele acrescentou, é as autoridades dependerem de "desertores, elementos anti-regime e o que os serviços de inteligência estrangeiros lhe dizem que sabem -uma espécie de repetição do Iraque".

Funcionários de inteligência americanos disseram que a experiência do Iraque os forçou a considerarem os possíveis resultados no Irã, incluindo o melhor cenário, em vez de presumir pelo pior. Por este motivo, eles disseram, as autoridades de inteligência não se desviaram da estimativa oficial de que o Irã precisará de cinco a 10 anos para produzir uma arma, apesar de alguns altos funcionários de inteligência preverem um prazo mais curto.

Agora, ajustar tal previsão está mais difícil do que nunca. Como colocou um alto funcionário europeu com conhecimento das inspeções: "Você precisa perambular ao redor".

A história: promessas de abertura, freqüentemente não cumpridas

As obrigações legais do Irã tiveram início em 1968, quando Teerã assinou o Tratado de Não-Proliferação Nuclear, que exige que os países desistam de armas nucleares em troca de ajuda no desenvolvimento de energia atômica pacífica. Seis anos depois, o Irã assinou o acordo de salvaguardas do tratado, que exige relatórios detalhados dos passos que podem levar a armas e permite que os inspetores procurem tentativas de trapaça.

A era de abertura expandida começou no início de 2003, após um grupo de
oposição iraniano ter relatado a existência de uma vasta instalação nuclear em Natanz. O Irã não teve escolha a não ser cooperar com os inspetores se quisesse provar que seu programa nuclear era pacífico. Os preparativos para a invasão no Iraque aumentaram a pressão.

O Irã convidou ElBaradei e uma equipe de inspetores para visitar Natanz. Gholamreza Aghazadeh, o chefe da Agência de Energia Atômica do Irã, guiou orgulhosamente a visita, mostrando as centrífugas e alegando que os cientistas iranianos aprenderam como construí-las em apenas cinco anos com informação obtida na Internet.

Os inspetores consideraram aquilo mentira e concluíram que Teerã tinha
violado o acordo de salvaguardas do tratado.

O Irã, determinado a tranqüilizar o Ocidente, concordou em suspender grande parte de seu programa nuclear enquanto negociava seu destino com a Europa. Além das salvaguardas básicas, ele concordou em atender o "protocolo adicional" do tratado e adotar as chamadas medidas de transparência.

Juntas, estas medidas permitiam que os inspetores viajassem bastante, até mesmo a bases militares, e a expandir suas investigações muito além dos materiais radioativos, até coisas aparentemente inócuas como amostras de ar e antigos arquivos, capazes de produzir descobertas ao acaso.

Assim começou um jogo de gato e rato nuclear no qual os inspetores elogiavam os iranianos pelas informações divulgadas, ao mesmo tempo em que os criticavam pelo que pareciam estar ocultando. Pouco a pouco, a agência montou um padrão de logro que teve início em 1985, provando que o Irã realizou atividade secreta com urânio e plutônio que poderia levar a um bomba.

Em quase três anos de inspeções, os relatórios da AIEA documentaram dezenas de surpresas, incluindo estas:

- O Irã tem usado lasers para purificar urânio desde 1991, e em 2000
estabeleceu uma instalação piloto para enriquecimento a laser.

- Foi descoberta pesquisa significativa de polônio-210, um elemento raro que pode ajudar a disparar uma bomba atômica.

- Surgiram muitas ligações com o mercado negro de A.Q. Khan, o pioneiro
atômico paquistanês, que forneceu ao Irã seus projetos de centrífugas. Os inspetores encontraram um documento de Khan oferecendo ajuda para moldar urânio metálico em "formas hemisféricas", necessárias nos núcleos de bombas.

Mesmo em seu melhor comportamento, os iranianos podiam retardar e não
cooperar. Eles ainda se recusam a entregar um importante documento de Khan que os inspetores procuram há mais de dois anos.

Às vezes as desculpas chegam perto de ser cômicas. As chaves para uma sala de centrífuga na Companhia Elétrica Kalaye foram perdidas. A base militar Lavizan-Shian de pesquisa de física, nos arredores de Teerã, que foi recentemente ligada à descoberta de urânio altamente enriquecido, foi demolida porque a prefeitura disse que precisava do terreno para um parque.

De certa forma, a sinceridade do Irã surtiu efeito contrário. O país sempre apresentou explicações detalhadas para suas omissões, discrepâncias e programas secretos. Mas cada nova descoberta levantava novas dúvidas e pedidos de mais informação.

"É verdade que os iranianos foram além do que seriam obrigados a fazer", disse Pierre Goldschmidt, um ex-diretor de salvaguardas da agência internacional que atualmente é um membro visitante do Fundo Carnegie para a Paz Internacional. "Mas isto não significa que fizeram o suficiente."

O colapso: um líder linha-dura fecha as portas

Mesmo tal cooperação qualificada diminuiu no ano passado, após o colapso das negociações com a Europa e a eleição de um novo presidente linha-dura pelo Irã, Mahmoud Ahmadinejad.

Teerã retomou o enriquecimento de urânio em Natanz em janeiro e, no mês
seguinte, após o conselho de 35 países da AIEA ter decidido encaminhar o caso do Irã ao Conselho de Segurança da ONU para possível punição, Teerã cumpriu a ameaça de encerrar todas as inspeções, exceto as básicas.

Agora, a agência estima que pode visitar apenas 20% dos prédios em Isfahan, a parte mais antiga e maior do programa nuclear do Irã, onde, entre outras coisas, urânio bruto é preparado para enriquecimento.

Em Natanz, os inspetores antes tinham direito, após um aviso prévio de duas horas, de visitar qualquer prédio, e o fizeram dezenas de vezes, disseram diplomatas. Agora, eles podem apenas ir a poucas áreas onde os iranianos estão enriquecendo urânio ou lidando com materiais radioativos, ou se preparando para fazê-lo.

Assim, os inspetores não podem mais entrar em instalações onde o Irã produz centrífugas e suas numerosas partes. O Irã disse que estas fábricas e depósitos, algumas em Natanz, produzirão 54 mil centrífugas para as cavernosas câmaras de enriquecimento subterrâneas.

Esta perda de acesso é importante porque as estimativas sobre quão
rapidamente o Irã poderá chegar a uma bomba são baseadas principalmente na avaliação da taxa potencial de produção de centrífugas. O Instituto para Ciência e Segurança Internacional, em Washington, estimou que, baseado na produção anterior, o Irã poderia produzir até 100 centrífugas por mês. Mas agora ninguém fora do Irã sabe se o ritmo acelerou ou desacelerou.

Os inspetores também gostariam de saber se o Irã está projetando centrífugas mais sofisticadas. A agência internacional já pediu repetidas vezes por informação sobre um tipo avançado, a P-2, que poderia acelerar a produção de combustível atômico.

O Irã insistiu por muito tempo que tinha abandonado o trabalho no projeto há três anos. Então, no mês passado, Ahmadinejad fez o anúncio surpreendente de que Teerã estava "atualmente realizando pesquisa" na P-2, se gabando de que ela quadruplicaria a capacidade de enriquecimento do Irã. De lá para cá a agência, que suspeita que o Irã possui um centro de pesquisa escondido para a P-2, tem escrito aos iranianos exigindo explicação. Eles não responderam.

Também há perguntas sobre o plutônio. O relatório da agência sobre o Irã, do mês passado, fala de discrepâncias sutis nas experiências do país com plutônio feitas no reator de pesquisa em Teerã.

O Irã diz que a agência está exagerando a importância de um único caso de contaminação. Mas os inspetores dizem que sem liberdade para explorar minuciosamente o programa iraniano, eles não podem buscar outra possível explicação, como funcionamento clandestino do reator ou contrabando de plutônio do exterior.

O panorama: incentivos e palavras iradas

Nas últimas semanas, o Ocidente tem tentado elaborar um pacote de incentivos para persuadir os iranianos a limitar seu programa nuclear e autorizar inspeções plenas.

Teerã ofereceu uma contraproposta: o país ficaria feliz em reabrir a janela, mas apenas se o Conselho de Segurança abandonar o caso do Irã e devolvê-lo à agência de energia atômica. Isto removeria a ameaça de sanções e de uma possível guerra.

Washington rejeita isto como uma tentativa de ganhar tempo. Mas o Irã diz que deseja genuinamente provar que seus fins são pacíficos, prometendo ser mais acessível.

"Nós temos todo interesse em cooperar", disse Javad Zarif, o embaixador do Irã na ONU. "Mas se o outro lado quiser adotar uma abordagem de confronto, é difícil justificar uma cooperação."

Nos últimos dias, o Irã ameaçou abandonar totalmente o tratado de
não-proliferação.

Zarif repetiu as posições ocidentais sobre as possíveis repercussões da
redução de acesso, as apresentando, quase com escárnio, como um problema potencial que Washington e seus aliados tem o poder de consertar.

"Quanto menos inspeções houver, maior o potencial para erros de
interpretação", ele disse. "O outro lado não tem mais acesso a informação confiável e passa a depender de informação suspeita. É este o caminho que está escolhendo?"

A estratégia iraniana, ao que parece, é manter seu programa nuclear e forçar o Ocidente a encontrar uma forma de verificar que é pacífico.

"O que o mundo deveria estar procurando", disse Aghazadeh, o diretor da
agência iraniana, "é uma forma de remover as ambigüidades".

*David E. Sanger contribuiu com reportagem para este artigo. George El Khouri Andolfato

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