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20/05/2006

Vizinhos da Venezuela estão começando a ficar incomodados com Chávez

The New York Times
Juan Forero

em Bogotá, Colômbia
À medida que o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, se insere cada vez mais profundamente nas políticas da região, algo como uma reação está crescendo entre seus vizinhos.

Chávez -altamente antiamericano, esquerdista e nunca carente de palavras- se lançou como porta-voz de uma América Latina unida e livre da influência de Washington. Ele apoiou a recente nacionalização do gás da Bolívia, criou seu próprio bloco comercial socialista e tem se metido nas disputas entre seus vizinhos, mesmo sem que ninguém tenha pedido.

Alguns países estão começando a se ofender. A mera associação com Chávez ajudou a reverter a liderança nas campanhas presidenciais do México e do Peru. Autoridades do México à Nicarágua, Peru e Brasil tem expressado crescente impaciência com o que consideram interferência e exibicionismo de Chávez, freqüentemente às suas custas.

As disputas diplomáticas estão começando a vir à tona. No mês passado, após uma troca de alfinetadas entre Chávez e o presidente do Peru, Alejandro Toledo, o país retirou seu embaixador de Caracas, citando "interferência flagrante" em seus assuntos.

"Ele está começando a exagerar, querendo estar envolvido em tudo", disse Riordan Roett, diretor de estudos latino-americanos na Escola de Estudos Internacionais Avançados da Universidade Johns Hopkins. "Há um egocentrismo ocorrendo aqui."

Alguns dos gestos de Chávez, como sua tendência de atacar o governo Bush, ou os projetos de ajuda que ele banca com dinheiro do petróleo venezuelano, ainda o tornam popular, particularmente entre os pobres. Mas cada vez mais, a própria imagem do líder da Venezuela está representando um estilo de nacionalismo exagerado que muitos temem na região, à medida que crescem as divisões provocadas por um homem que deseja unir sua região.

"Ele sai falando sem pensar e se gabando, e isto tem causado tensões", disse Jorge G. Castañeda, um ex-ministro das Relações Exteriores do México, em uma entrevista por telefone. "A diferença agora é que ele está arrumando briga com seus amigos, não apenas com seus adversários."

Chávez, por exemplo, adotou a posição intransigente de que os governos devem optar por sua visão de unidade continental ou pelo livre comércio com Washington, que Chávez culpa pelo empobrecimento da região. "É um ou outro", ele disse. "Ou somos uma comunidade unida ou não somos."

No final de abril, ele irritou a Colômbia, Equador e Peru ao declarar que a Venezuela sairia do bloco comercial destes países, a Comunidade Andina de Nações, porque os outros três membros estavam buscando acordos de livre comércio com os Estados Unidos. Ele então formou um bloco comercial com Cuba e com o novo governo socialista da Bolívia.

Apesar da medida estar repleta de simbolismo político, os analistas disseram que ela oferece poucas perspectivas de comércio e ameaça a integração altamente necessária entre os países andinos, que ainda dependem dos mercados dos Estados Unidos.

"A idéia de Chávez de soberania parece bastante seletiva", disse Michael Shifter, um alto analista de política do grupo Diálogo Interamericano, em Washington. "Chávez está dizendo: 'Ou você está conosco ou contra nós'. Para a maioria dos latino-americanos, esta mensagem presunçosa não é muito aceita, venha de Washington ou de Caracas."

A briga com o governo do Peru surgiu no mês passado, depois que Toledo disse que não fazia sentido Chávez criticar seus parceiros andinos por negociarem com Washington, já que a Venezuela vende grande parte de seu petróleo para os Estados Unidos.

Mas ele reservou suas palavras mais fortes para a interferência geral de Chávez nos assuntos peruanos. "Chávez, aprenda a governar democraticamente", disse Toledo. "Aprenda a trabalhar conosco. Nossos braços estão abertos para integrar a América Latina, mas não para você nos desestabilizar com seu talão de cheques."

Quando Alan García, um candidato na eleição presidencial de 4 de junho, também repreendeu Chávez, o presidente venezuelano respondeu com, entre outras coisas, um apoio ao oponente dele.

"Eu espero que Ollanta Humala se torne o presidente do Peru", declarou Chávez, apoiando o oponente nacionalista de Garcia, que se espelha no líder venezuelano. "Vamos, camarada! Vida longa a Ollanta Humala! Vida longa ao Peru!"

Chávez chamou García, um ex-presidente cujo mandato foi marcado por escândalos de corrupção, de "desavergonhado, um ladrão" e alertou que se ele for eleito "por alguma obra do diabo", a Venezuela retiraria seu embaixador do país.

Mas foi o Peru que agiu primeiro. A Venezuela em seguida fez o mesmo, com o governo Chávez chamando Toledo de "office boy" do presidente Bush. García se beneficiou enormemente, obtendo uma grande vantagem nas pesquisas de intenção de votos.

As pesquisas mostram que os peruanos tiveram pouca paciência com a interferência de Chávez. Apenas 17% dos peruanos disseram ver positivamente o líder venezuelano, revelou a empresa de pesquisa Apoyo, com sede em Lima.

Na Nicarágua, Chávez deu seu apoio a Daniel Ortega, um ex-líder da revolução esquerdista Sandinista, que está concorrendo para presidente nas eleições de novembro.

"Eu não deveria dizer que espero que você vença porque me acusarão de meter o nariz em assuntos internos da Nicarágua", Chávez disse a Ortega, que foi convidado para participar de seu programa de rádio no final de abril. "Mas eu espero que você vença."

Chávez prometeu fornecer combustível barato para um grupo de cidades governadas pelos sandinistas. O gesto foi interpretado pelos oponentes como uma tentativa clara de influenciar os votos e o criticaram como uma forma indireta de canalizar dinheiro para a campanha de Ortega.

O governo da Nicarágua pediu a Chávez para que não se metesse. "Nós esperamos que este apoio partidário termine, para que os nicaraguenses possam escolher livremente quem eles querem que seja o próximo líder da Nicarágua", disse Norman Caldera, o ministro das Relações Exteriores, para a televisão nicaraguense neste mês.

O embaixador americano na Nicarágua, Paul A. Trivelli, falando para a imprensa nicaraguense, acusou Chávez de "intervenção direta", mas analistas disseram que ainda é cedo demais para saber que efeito Chávez terá na eleição.

No México, o candidato esquerdista na eleição presidencial de julho, Andrés Manuel López Obrador, tem se esforçado para se distanciar de Chávez, mas sem sucesso.

Quando ele cometeu um deslize recentemente, chamando o presidente Fox de "chachalaca" (ave conhecida pelo grito estridente) e lhe mandando calar a boca, seu oponente conservador, Felipe Calderón, veiculou uma série de propagandas alternando sua gafe com imagens de Chávez, cuja tendência de lançar insultos é característica. (Ele chamou Bush de "bêbado" e Fox de "cachorrinho do império".)

Nas últimas semanas, a vantagem de López Obrador nas pesquisas evaporou e atualmente ele está atrás de seu oponente.

Mas as disputas não se limitam à política, mas também tocam importantes
interesses nacionais.

Chávez, por exemplo, encorajou e apoiou rapidamente a nacionalização pela Bolívia de seu setor de energia neste mês, uma ação que enfureceu a Argentina e o Brasil, que dependem do gás natural boliviano.

Apesar da Venezuela não ser parte envolvida na disputa, Chávez participou do encontro de líderes do Brasil, Argentina e Bolívia que visava acalmar a crise, dominando a coletiva de imprensa posterior, ofuscando até mesmo seu protegido boliviano, o presidente Evo Morales.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, responsável pela maior economia da América do Sul e nominalmente um aliado de esquerda de Chávez, foi
particularmente humilhado. Celso Amorim, o ministro das Relações Exteriores, foi chamado perante os senadores e questionado sobre a fraca resposta do Brasil.

Ele disse que Lula repreendeu o líder venezuelano em um telefonema privado, lhe dizendo que a ação boliviana poderia ameaçar o sonho de Chávez de um gasoduto de 8 mil quilômetros para levar o gás da Venezuela para a Argentina.

Lula também censurou Chávez, ele disse, por ter se envolvido em uma disputa que o Brasil está tendo com o Uruguai e o Paraguai em seu bloco comercial, o Mercosul, dizendo que o papel de Chávez tem "estimulado atividades incompatíveis com o espírito de integração".

As feridas ainda não cicatrizaram. Jorge Viana, o governador do Estado
brasileiro do Acre e um aliado crucial de Lula, disse para o rádio
brasileiro na semana passada que a interferência de Chávez foi "lamentável".

Ele criticou as "decisões precipitadas (de Chávez) de interferir nos
assuntos internos da Bolívia, Peru e, por extensão, aos do Brasil". Chávez, ele disse, "precisa se acalmar".

*James C. McKinley, na Cidade do México, e Paulo Prada, no Rio de Janeiro, contribuíram com reportagem para este artigo. George El Khouri Andolfato

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