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21/05/2006

'Carros' da Pixar se inspira na Rota 66

The New York Times
Por Phil Patton
Os carros de "Carros", o desenho da Pixar que estreará nos Estados Unidos em 9 de junho, foram projetados na Rota 66.

Mas não totalmente -eles também foram projetados na sede da Pixar, em
Emeryville, Califórnia, onde 800 animadores e outros sonhadores trabalham em 3 mil computadores dentro de uma antiga fábrica de processamento de frutas. Mas segundo Michael Wallis, um historiador das estradas, eles se inspiraram em expedições de pesquisa a pistas de corrida, estúdios de design de carros e feiras de automóveis.

A inspiração também veio das ruínas de uma fábrica da Packard, em East Grand Boulevard, em Detroit, e do Instituto de Artes de Detroit, com seus murais de fábricas de carros de autoria de Diego Rivera -e do que está abandonado na lendária Rota 66, uma artéria que atravessa o coração do Sonho Americano.

Um guia turístico e autor de "Route 66: The Mother Road", entre outros
livros, Wallis guiou a equipe da Pixar ao longo da Rota 66.

O personagem mais adorável de "Carros" é Mater, um guincho enferrujado com a voz de Larry the Cable Guy. Wallis se lembra do momento e local onde ele foi criado. "Havia um velho guincho em um terreno vazio na Rota 66 em Galena, Kansas", ele disse. "Joe Ranft, o chefe de história do estúdio e um membro chave da equipe Pixar, parou e o notou, e assim nasceu Mater."

Atuando como consultor para a equipe Pixar -Ranft; John Lasseter, o diretor; e outros importantes animadores- Wallis atuou como Beatriz para o Dante deles.

Assim como os projetistas de automóveis produziram carros que se parecem com "cartoons" -pense no gangsteresco Chrysler PT Cruiser, o "Novo Fusca" da Volkswagen, que parece brinquedo de fricção, ou o Chrysler 300 com bíceps saliente- os desenhistas de "cartoons" se voltaram para a criação de carros.

Não é tão fácil quanto parece, disse Lasseter. Em janeiro de 2005, ele foi a uma feira de automóveis em Detroit e falou sobre seu projeto no Fórum de Design. A decisão crucial, ele disse, foi abandonar a idéia habitual do "rosto" do carro, com os faróis servindo como olhos e a grade como boca. Ele moveu os olhos para o pára-brisa para impedir que os carros parecessem vazios e sem motorista.

A equipe se esforçou demais "para impedir que os carros parecessem de
borracha", disse Lasseter. Muito empenho e poder de processamento de
computador foi empregado na criação de reflexos em movimento realísticos nas superfícies de metal dos carros, da ferrugem dos caminhões velhos ao pigmento "metal flake" dos carros de linha, usando uma técnica de computador chamada "ray tracing".

O lançamento de "Carros" foi adiado em sete meses durante as negociações que levaram à recente compra da Pixar pela Disney por US$ 7,4 bilhões em ações. A pré-estréia formal será na sexta-feira, em quatro telas gigantes montadas na Curva 2 da Lowe's Motor Speedway, perto de Charlotte, Carolina do Norte.

Tal local foi uma cortesia de Humpy Wheeler, presidente e administrador
geral do autódromo e dirigente da Nascar, que forneceu ao filme a voz de Tex, um Cadillac Coupe de Ville 1959 com buzinas longas acima da grade. Richard Petty, o piloto lendário, também tem um papel.

Os carros têm tipos. George Carlin interpreta Fillmore, uma Kombi cuja placa sugere um cavanhaque beatnik. Sargento é um Jipe, Flo uma garçonete (inspirada, disse Wallis, em uma garçonete real, Dawn Welch, no Rock Cafe, em Stroud, Oklahoma). Um carro da exposição Motorama de 1957, Flo se gaba (por lábios cromados) de vender "a melhor gasolina de 50 Estados".

Ramone, um Chevy Impala 59, tem a voz do comediante Cheech Marin. O
arqui-rival de Relâmpago McQueen, Chick Hicks, é um concorrente durão,
intimidador, ao estilo do falecido Dale Earnhardt.

Quanto mais você souber sobre carros e filmes sobre carros, mais rica será a experiência de assisti-lo. Paul Newman empresta a voz a Doc Hudson, o sábio corredor aposentado que se transformou em mecânico. Ajuda se você souber que Hudson Hornet, para o qual a equipe da Pixar arrumou riscos na pintura para garantir realismo, já foi um corredor da Nascar e que Newman atuou em um, filme chamado "Hud" (O Indomado). Sim, o carro tem olhos azuis.

O xerife de Radiator Springs é um Mercury 1949, e sua voz é a de Wallis. O autor está encantado com seu papel. "Este carro sempre foi um dos meus favoritos e combina com a minha personalidade", ele disse. "Meu bigode que está embranquecendo rapidamente parece cada vez mais com a grade do Mercury."

Lasseter recontou como a idéia do filme nasceu no verão de 2000, quando, exausto após quase uma década de trabalho em filmes como "Toy Story" e "Monstros S.A.", ele decidiu viajar pelo país de carro com sua esposa e cinco filhos.

Um homem grande que costuma se vestir com camiseta havaiana larga -uma
aparência que sugere férias de fantasia perpétuas- Lasseter é filho de um gerente de peças da Chevrolet de Whittier, Califórnia. Há muito tempo ele queria fazer um filme sobre a cultura dos carros.

Quando ele voltou ao estúdio após as férias, ele mergulhou no novo projeto. Uma das primeira coisas que fez foi contatar Wallis, que liderou os animadores da Pixar em duas viagens pela Rota 66 para pesquisa para o filme. Superada pela Interestadual 40 e outras estradas modernas, a Rota 66 -os trechos que restam dela- renasceu como estrada turística. Motéis e restaurantes reais serviram como modelos para os de Radiator Springs, como o Cozy Cone Motel e o V-8 Cafe.

"Eles viram os motéis e postos de gasolina em forma de tenda", disse Wallis no tom cru que usa em suas excursões. "Eles sentiram o vento que sopra o trigo no inverno. Eles absorveram tudo."

O tema é um provado e verdadeiro que saiu da própria experiência de
Lasseter: desacelerar e compreender que a jornada é a recompensa -uma frase freqüentemente usada tanto por Lasseter quanto por Steven P. Jobs, o co-fundador da Pixar.

O filme segue seu herói, Relâmpago McQueen, um corredor ao estilo Corvette com a voz de Owen Wilson, enquanto percorre o circuito de corridas de cidade em cidade, combinando a narrativa de filme de estrada com momentos de ação. Mas o carro de corrida se desvia do curso em Radiator Springs.

"Ele é rápido e arrogante", disse Wallis. "Em nossa cidade esquecida nós o ensinamos a desacelerar. Por sua vez, ele nos inspira a reconstruir nossa cidade."

Wallis, juntamente com sua esposa, Suzanne Fitzgerald Wallis, também
escreveu um livro sobre a produção do filme. Os desenhos a lápis colorido e pastel em "The Art of Cars" (Chronicle, US$ 40) mostram que as idéias da Pixar nascem à mão, não apenas no computador. Os esboços de Nat McLaughlin para as flores no filme -elas se abrem na forma de faróis traseiros- são obras de arte.

Lasseter e seu grupo visitaram estúdios de design das três grandes
montadoras em Detroit, mas se deram particularmente bem com J Mays, o
vice-presidente de grupo para design da Ford Motor Company. "Nós estamos na mesma vibração", disse Mays.

Ele disse que admirou os carros em "Os Incríveis", outro desenho da Pixar, porque demonstravam um conhecimento da história e design de automóveis. "É possível ver que fizeram bastante pesquisa", disse Mays, que recebe agradecimentos nos créditos de "Carros".

Mays e Lasseter fizeram amizade e trocaram visitas aos estúdios. Lasseter aprendeu como carros de verdade são projetados. Mays ficou impressionado com a atenção obsessiva da Pixar aos detalhes. "Eles querem fazer as coisas certas mesmo que ninguém possa notar", ele disse. "Se estiver errado, eles saberão."

Os carros em "Carros" são muito mais sofisticados do que aqueles em "Os
Incríveis". Os computadores usados no novo filme são quatro vezes mais
rápidos do que aqueles, e 1.000 vezes mais rápidos do que os usados em "Toy Story". O que dá caráter aos carros é a forma como se movem em suas rodas, como criaturas com seus pés.

É claro, projetar carros para animação por computador não é igual a
projetá-los para o mundo real, mas há semelhanças. Para orquestrar o
movimento, a Pixar usou uma plataforma compartilhada, um sistema não
diferente de uma montadora real. Os carros do filme possuem um software
comum "chassi", um "equipamento universal" de 100 controles de animação
conhecidos como "avars". As suspensões são individuais: os carros dos anos 50 são mais macios e com maior balanço.

A Pixar teve que desenhar toda a paisagem. Em um mundo de carros, explicou Lasseter, "um restaurante é um posto de gasolina e o médico é o mecânico". A cidade de Radiator Springs inclui uma loja de pneus (calçados) dirigida por Luigi, um Fiat com peruca cuja voz é de Tony Shalhoub, da série de TV "Monk".

A paisagem do Oeste de tantas propagandas de carro está presente no Ornament Valley (vale ornamento) do filme, onde montanhas se parecem com traseiras "rabo de peixe" de carros. A vista foi inspirada em uma visita a Don Sommer, de Clawson, Michigan, que coleciona ornamentos de capô antigos e cuja empresa, a American Arrow, que faz reproduções. O Cordilheira Cadillac de montanhas foi inspirada em uma visita à instalação de arte Cadillac Ranch, perto de Amarillo, Texas.

Para a Rota 66, Wallis colocou os animadores em Cadillacs brancos alugados. "Nós dirigimos três grandes carros novos de Detroit", ele disse. Os animadores decoraram os carros anexando os itens encontrados na estrada: espigas de trigo, cardos, girassóis, peles de cobra e um tatu atropelado na estrada. "Nós chamamos estas coisas de ornamentos de capô Okie", disse Wallis.

No fim da viagem, ele disse: "Nós enterramos tudo no alto deserto",
acrescentando: "Nós fizemos uma cerimônia. Eu falei algumas palavras e um dos animadores, Bud Luckey, tocou um pouco de gaita. Eu nunca vou esquecer." George El Khouri Andolfato

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