UOL Notícias Internacional
 

21/05/2006

Erros de julgamento atrapalharam planos americanos para a polícia iraquiana

The New York Times
Michael Moss e David Rohde
Enquanto o caos tomava conta do Iraque após a invasão americana em 2003, o Departamento de Defesa dava início ao seu esforço de reconstrução da polícia iraquiana com uma mera dúzia de consultores. Sobrecarregados desde o início, um foi enviado para treinar uma unidade de 4 mil homens para proteção das usinas de força e outras unidades de serviços públicos. Um segundo para instruir 500 comandantes em Bagdá. Outro para organizar a patrulha de fronteira de todo o país.

Três anos depois, a polícia é uma força desgastada e disfuncional que tem ajudado a conduzir o Iraque para a beira de uma guerra civil. A polícia é acusada de operar esquadrões da morte para grupos políticos ou simplesmente por lucro. Os cidadãos, desconfiados da força, estão formando seus próprios esquadrões de segurança de bairro. A morte de policiais está desenfreada, com pelo menos 547 mortos neste ano, aproximadamente o mesmo número de soldados iraquianos e americanos somados, segundo os registros.

A polícia, inicialmente prevista pelo governo Bush como uma pedra angular em uma nova democracia, se tornou parte da constelação sombria de comandos obscuros, milícias políticas cruéis e outros grupos armados do Iraque. O novo primeiro-ministro do Iraque e altos funcionários americanos agora dizem que o futuro do país -e a capacidade dos Estados Unidos de retirarem suas tropas- depende basicamente da polícia poder ser reformada e os grupos desgarrados serem contidos.

As realidades no Iraque não combinaram com o planejamento em Washington. Um exame do esforço americano para treinar uma força policial no Iraque, obtida por meio de entrevistas com várias dezenas de autoridades americanas e iraquianas, relatórios internos da polícia e visitas às bases e campos de treinamento da polícia iraquiana, revelam uma série de erros de julgamento da Casa Branca e das autoridades do Pentágono, que subestimaram o papel que os Estados Unidos teriam na reconstrução da polícia e na manutenção da ordem.

Três semanas antes da invasão, Jay Garner, um general aposentado do Exército, informou as autoridades do Conselho de Segurança Nacional sobre os planos para administrar o Iraque após a derrubada de Saddam Hussein. Garner apresentou um plano ambicioso e detalhado de autoria de Richard Mayer, um especialista em treinamento de polícia do Departamento de Justiça, e sua equipe para enviar 5 mil consultores americanos e estrangeiros ao Iraque.

Em uma entrevista, Garner disse que ele e outros de sua equipe também alertaram as autoridades do governo de que a polícia iraquiana, após décadas de abandono e corrupção, entraria em colapso após a invasão.

A proposta de Garner foi recebida com ceticismo pelos membros do Conselho de Segurança Nacional, que argumentaram que um esforço de treinamento tão grande não era necessário. Um forte oponente foi Frank Miller, um membro do Conselho de Segurança Nacional que coordenou o esforço americano para governar o Iraque de 2003 a 2005. Miller e outros atuais e ex-membros do governo disseram em entrevistas que se apoiaram na avaliação da CIA, que dizia que a polícia iraquiana era bem treinada e capaz de manter a ordem.

Mas Paul Gimigliano, um porta-voz da CIA, disse que a avaliação da agência alertou o contrário. "Nós não tínhamos informação confiável sobre indivíduos ou unidades policiais", ele disse. A "avaliação por escrito da CIA não julgou que a polícia iraquiana poderia manter a ordem após a guerra. Na verdade, a avaliação falava na criação de uma nova força."

Em 10 de março de 2003, Bush propôs as diretrizes sobre como os Estados Unidos governariam o Iraque pós-guerra, disse Miller. Um delas era de que apenas um número limitado de consultores americanos seria enviado. Eles não teriam o poder de manter a lei. Isto caberia à polícia iraquiana.

Após a queda de Bagdá, quando a maioria dos policiais iraquianos abandonou seus postos, uma segunda proposta de uma equipe do Departamento de Justiça pedindo por 6.600 treinadores para a polícia foi reduzida para 1.500 e nunca foi executada. Durante os primeiros oito meses da ocupação -enquanto a criminalidade aumentava e a insurreição passava a tomar conta- os Estados Unidos distribuíram 50 consultores de polícia pelo Iraque.

Apesar das objeções do secretário de Estado, Colin L. Powell, o plano foi no final reduzido para 500 treinadores.

Um resultado foi descrito por Jon Villanova, um policial da Carolina do Norte que disse que foi promovido para dirigir outros treinadores no sul do Iraque após quatro meses de sua estadia de um ano. Segundo o plano traçado pela equipe do Departamento de Justiça, ele comandaria um batalhão de pelo menos 500 treinadores. O que ele recebeu foi um esquadrão de 40 homens para treinar 20 mil policiais iraquianos espalhados por quatro províncias. Ele disse que nem podia sonhar em dar a eles o tipo de monitoramento um a um que os cadetes de polícia americanos recebem.

Garner não teve chance de lutar novamente por sua proposta de treinamento da polícia. Três semanas após sua chegada a Bagdá, ele foi substituído por L. Paul Bremer, um diplomata de carreira aposentado. Bremer disse que não tinha participado do planejamento pré-guerra e que nunca foi informado sobre o plano de Garner. "Eu tive apenas duas semanas para me preparar para o trabalho", disse Bremer. "Eu não me lembro de ter sido informado especificamente sobre a polícia."

Dois dias depois da nomeação de Bremer, Bernard B. Kerik, o ex-comissário de polícia de Nova York e que nunca tinha treinado policiais fora dos Estados Unidos, foi enviado pelo Pentágono para dirigir a missão.

Kerik disse que as autoridades do Pentágono lhe deram uma aviso de 10 dias e pouca orientação. "Olhando para trás, eu não sei qual era o plano deles", disse Kerik. Sem nenhuma experiência em Iraque e com pouco tempo para se aprontar, ele disse que se preparou para o trabalho assistindo documentários de TV sobre Saddam Hussein. Kerik também disse que nunca foi informado do plano de Garner.

Por todo o Iraque, os americanos perceberam que, ao tentarem reconstruir a força iraquiana, eles estavam enfrentando o legado de Saddam. Não apenas a força era inepta e corrupta, mas após a invasão os grupos tribais, sectários e criminais conflitantes estavam competindo para controlar a polícia. Em grande parte do ano passado, os treinadores americanos foram capazes de monitorar regularmente menos da metade das 1.000 bases de polícia no Iraque, onde mesmo os policiais livres de influência corruptora careciam de treinamento policial básico, como a forma como disparar uma arma e investigar um crime.

Apesar de que mesmo uma força policial viável não seria capaz de impedir sozinha a insurreição e a falta de lei que acabou tomando conta do Iraque, as autoridades envolvidas reconheceram que um esforço inicial descartado de reconstruir a força foi uma oportunidade perdida.

As tentativas que ocorreram de treinar a polícia foram atrapalhadas por más condições, disseram autoridades civis e militares.

O treinamento em campo da polícia iraquiana, um elemento fundamental do esforço, ficou a cargo da DynCorp International, uma empresa com sede em Irving, Texas, que recebeu contratos no valor de US$ 750 milhões. Seus consultores, muitos deles policiais aposentados de cidades pequenas, disseram que chegaram no Iraque e rapidamente se viram pegos em meio a agências de governo sem funcionários suficientes, executivos de empresas preocupados com lucros e milhares de policiais iraquianos clamando por ajuda.

Quando ficou claro que o esforço civil da DynCorp estava fracassando, os oficiais militares americanos assumiram o treinamento da polícia em 2004, contando em peso com os comandos altamente armados que foram estabelecidos pelos iraquianos. Em questão de um ano, os árabes sunitas disseram que algumas unidades sofreram infiltração de milícias xiitas e estavam seqüestrando, torturando e executando vários sunitas.

Em entrevistas, funcionários da Casa Branca e do Pentágono defenderam suas decisões, dizendo que seria impossível encontrar milhares de treinadores qualificados dispostos a ir ao Iraque e que o uso de um grande número de estrangeiros teria enfurecido os iraquianos e promovido a passividade.

Funcionários do governo disseram que a insurreição, mais do que qualquer outro fator, retardou o progresso.

Neste ano, três anos após as autoridades do governo terem rejeitado o esforço maior de treinamento em campo liderado pelos Estados Unidos, os comandantes militares americanos estão adotando aquela abordagem. Declarando 2006 o ano da polícia, o Pentágono está enviando um total de 3 mil soldados americanos e funcionários da DynCorp para treinar e monitorar os recrutas e policiais por todo o Iraque.

Os comandantes americanos agora vêem a força, que crescerá para 190 mil, como base da nova estratégia para proteger a população, projetos de reconstrução e ajudar a facilitar a retirada das tropas americanas. Três anos depois da invasão americana, a força policial está desgastada e disfuncional, ajudando a conduzir o Iraque para uma guerra civil George El Khouri Andolfato

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