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23/05/2006

Ainda juntos, mas em público geralmente separados

The New York Times
Patrick Healy
Bill e Hillary Clinton voaram juntos para Chicago no mês passado para fazerem discursos a poucas horas e quilômetros de distância. E como qualquer casal, eles pensaram em jantar juntos no final do dia. Mas a vida não é tão simples quando se é um Clinton.

O ex-presidente partiu mais cedo para Washington, em parte para evitar distrair a atenção da imprensa do discurso de sua esposa. Eles decidiram depois que o jantar não daria certo, de forma que Bill Clinton fez o que geralmente faz: ele reuniu alguns rostos familiares -no caso, ex-assessores, incluindo Joe Lockhart e Mike McCurry- e foram jantar no Lauriol Plaza, o movimentado restaurante texano-mexicano em Dupont Circle. Apenas depois os Clintons se encontraram em casa.

Bill Clinton raramente está sem companhia em público, mas sua companhia raramente inclui sua esposa. É possível encontrá-lo na noite de Los Angeles acompanhado de seu colega de faculdade, Ronald W. Burkle, ou em festas e eventos para arrecadação de fundos em Manhattan; enquanto isso ela está tomada de trabalho em Washington e Nova York -sua carreira no Senado e suas ambições políticas consomem seu tempo.

Quando o assunto Bill e Hillary Clinton é atualmente abordado por muitos democratas proeminentes, geralmente a primeira coisa tratada é o estado do casamento deles -e como o relacionamento mais dissecado na vida americana poderia afetar a possível candidatura presidencial de Hillary em 2008.

Os democratas dizem que é inevitável que, em uma campanha que poderá devolver o ex-presidente à Casa Branca, alguns eleitores se preocuparão ou se distrairão com o papel político do ex-presidente e o episódio que levou a Câmara a votar pelo seu impeachment em 1998.

"Não há dúvida de que é uma candidatura complicada para muitos eleitores, por causa da história do relacionamento e o que passaram", disse Leon E. Panetta, o chefe de gabinete de Clinton de 1994 a 1997. "Eles passaram por muitas mudanças como casal, apesar de que no final, quando você está lá, com eles juntos, você sabe que existe algo que os une."

A dinâmica de um casamento é difícil de ser avaliada de fora, mesmo a de um casal tão conhecido como os Clintons. Mas entrevistas com cerca de 50 pessoas e uma análise das atividades recentes dos dois mostram que desde que deixaram a Casa Branca, Bill e Hillary Clinton construíram vidas separadas -em parte pelas exigências de seus caminhos políticos distintos e em parte como resultado de cálculos políticos.

O efeito tem sido elevar o perfil da senadora Clinton no radar público e ao mesmo tempo atenuar o de seu marido; ele tem dito aos amigos que sua prioridade Nº 1 é não causar nenhum problema para ela. Eles aparecem em público metódica e cuidadosamente: a meta é posicioná-la para concorrer à presidência não como parceira ou uma substituta, mas por seus próprios méritos.

Foi concedido anonimato para muitos dos entrevistados para que discutissem o relacionamento, pois os Clintons há muito têm buscado uma zona de privacidade. Os Clintons e a maioria de seus assessores se recusaram a cooperar com este artigo e pediram para que outros também não cooperassem. Seus porta-vozes, Jay Carson (o dele) e Philippe Reines (o dela), forneceram uma declaração sobre o relacionamento.

"Ela é uma senadora ativa que, como a maioria dos membros do Congresso, precisa estar em Washington durante grande parte da maioria das semanas. Ele é um ex-presidente que administras uma fundação global multibilionária. Mas a casa deles fica em Nova York e eles fazem tudo o que podem para estar juntos lá, ou na casa deles no Distrito de Colúmbia, com a maior freqüência possível -geralmente não medindo esforços para isto. Quando o trabalho deles exige que estejam distantes, eles conversam o tempo todo."

Desde o início de 2005, os Clintons estiveram juntos em média cerca de 14 dias por mês, segundo assessores que analisaram as agendas do casal. Às vezes é um dia inteiro de descanso em casa em Chappaqua; às vezes é um encontro no fim de noite. Quando estiveram mais ocupados, eles se viram apenas um único dia em fevereiro de 2005, no Dia dos Namorados -um mês em que viajaram bastante. Em agosto, eles se viram por algum momento em 24 dos 31 dias. Dos últimos 73 fins de semana, eles passaram 51 juntos. Os assessores se recusaram a fornecer a programação privada dos Clintons.

Os assessores disseram que o casal deseja o máximo de tempo privado junto possível; no quatro trimestre do ano passado, por exemplo, Bill Clinton partiu de Manhattan para casa, para desfrutar duas horas com sua esposa antes de embarcar em um vôo em Newark. Clinton disse ao seus assessores que prefere não estar em Washington quando sua esposa não está lá, eles disseram.

Amigos -dispostos a aparar qualquer rebarba no relacionamento deles- contam histórias de casal antigo, sobre eles cuidando do jardim, jogando palavras cruzadas e jantando no Le Cirque, Rasika e Bayou, no Harlem, com velhos amigos como o ex-líder do partido, Terry McAuliffe, Vernon Jordan e outros. Na última Véspera de Natal, eles circularam juntos pelo quase deserto Chappaqua Village Market, sendo notados apenas por alguns poucos compradores.

Mas raramente os Clintons aparecem em público quando estão juntos. Tal distância física é motivada em grande parte por suas carreiras, mas também é em parte por escolha.

Bill Clinton tem se envolvido em uma legião de causas que o têm levado para fora do país, como a Aids na África e a pobreza no terceiro mundo. Ele às vezes participa das sessões de estratégia dela, mas a sensibilidade em relação ao seu papel político é tão grande que os conselheiros dela discordam de sua influência e freqüência de participação -apesar de todos concordarem que em casa a influência dele é sentida.

Mas ao optarem por manter suas vidas públicas separadas, disseram as pessoas que cercam os Clintons, há um cálculo político em funcionamento, além da evolução natural em um casamento que já enfrentou muito estresse e traições.

Hillary Clinton pode ser a única democrata nos Estados Unidos que não pode olhar para Bill Clinton como um ativo político. Ele é um figura complicada para sua esposa, que passou de uma primeira-dama controversa a uma senadora popular apoiada em suas próprias pernas.

"O apelo nacional dela e sua força não se baseiam no relacionamento dela com Bill Clinton, mas em sua estatura extraordinária e sucesso como senadora", disse Robert Zimmerman, um doador democrata e simpatizante do casal.

Os democratas que estão se preparando para 2008 descrevem o desafio político desta forma: Hillary poderá prosperar como candidata presidencial, mas o retorno dos "Clintons" poderá reviver lembranças, incluindo o apelo muito desprezado "dois pelo preço de um" da campanha presidencial de Bill Clinton em 1992, o papel dela no debate do atendimento universal de saúde e a novela da infidelidade.

Devido ao comportamento do presidente Clinton na Casa Branca, as fofocas de tablóide grudam nele como ferro em ímã.

Vários democratas proeminentes de Nova York, em entrevistas, disseram que ficaram preocupados no ano passado com a foto de tablóide mostrando Bill Clinton deixando o restaurante BLT Steak, no centro de Manhattan, tarde da noite, após um jantar que incluía Belinda Stronach, uma política canadense. Os dois participaram de um jantar que incluía uma dúzia de pessoas, mas foi suficiente para alimentar a cobertura das páginas de fofoca.

Assim como é difícil prever como os eleitores se sentiriam em relação à
senadora como candidata presidencial, disseram os assessores de Hillary, é difícil prever como julgariam a bagagem dos Clintons no contexto de uma terceira candidatura à Casa Branca.

"Há muitas pessoas que trabalharão por ela caso concorra à presidência e que se preocupam com o relacionamento", disse Lanny J. Davis, um velho amigo dos Clintons e um advogado que ajudou o presidente a superar seus escândalos na Casa Branca.

"A idéia geral é de que o relacionamento poderá prejudicá-la -todas aquelas antigas lembranças e escândalos seriam evocados. Eu aposto que isto não acontecerá, apesar disto poder ser uma ilusão minha."

Donna Brazile, uma estrategista política democrata, disse que é impossível remover o ex-presidente de qualquer candidatura de sua esposa, especialmente dada a visibilidade pública de Bill Clinton.

"Ao mesmo tempo, os eleitores não estão interessados nos Clintons como
casal, mas no que a sra. Clinton está fazendo ou dizendo", disse ela.

Ainda assim, faz apenas poucos anos que o relacionamento dos Clintons foi assunto de livros best seller e debates picantes em programas de televisão. O casamento também esteve sob o microscópio quando os Clintons buscaram conselho matrimonial, como Hillary Clinton revelou em seu livro de memórias.

Alguns dos amigos deles disseram que quando deixaram a Casa Branca, eles também tentaram deixar para trás a rixa causada pelo escândalo do caso de Bill Clinton com Monica Lewinsky, uma estagiária da Casa Branca. Mas outros amigos disseram que viram tensão e decepção no casamento.

Por algum tempo a senadora recém-eleita considerou Washington seu lar,
empregando tempo e energia no trabalho e desfrutando da nova mansão Clinton em Embassy Row, enquanto o marido dela permanecia em Nova York para escrever seu livro de memórias e trabalhar em novos projetos.

"Com o tempo ela também passou a considerar Chappaqua seu lar e ela gosta de passar tempo lá com o presidente quando consegue encontrar uma folga em sua agenda", disse um antigo amigo do casal, ao qual foi concedido anonimato porque os Clintons não querem que esta pessoa fale. "Isto diz muito sobre o estado do casamento deles."

"Ela precisa estar em sua própria órbita separada, de forma que se algo
explodir no mundo dele, ela ao menos terá algum espaço e distância para
administrar o fato", disse este amigo.

Alguns amigos dizem que não percebem nenhuma tensão agora, apesar de não saberem ao certo quando e como ela passou.

"Quem sabe como qualquer casal supera problemas em seus casamentos, mas eles conseguiram", disse Chris Korge, um arrecadador de fundos democrata que é próximo de ambos os Clintons. "É como quando recentemente ele comprou para ela um novo anel de diamante, dava para ver a expressão no rosto dela. Quando alguém lhe mostra algo assim, o brilho 'olhe o que Bill me comprou', significa algo -algo muito além do que o que ele comprou para ela, do que apenas o objeto".

Mesmo agora, o casal está passando por um constante aprendizado sobre a
inter-relação da política com seu casamento. Quando os Clintons apareceram no funeral de Coretta Scott King em fevereiro, vários democratas notaram que o tom emotivo e os comentários do ex-presidente foram impecáveis -e que a senadora soou formal em comparação.

Em parte como conseqüência, Bill Clinton é freqüentemente enviado a seus próprios eventos políticos, em vez de apresentá-la, ficar ao lado dela ou acompanhar os discursos importantes dela como um marido admirador. Alan Patricof, um arrecadador de fundos de Nova York que é aliado dos Clintons, disse que foi as aparições solo de Bill Clinton em prol de sua esposa que fizeram ambos brilharem, como um evento recente do qual Patricof participou.

"Tudo girava em torno de Hillary, o motivo dela ser uma senadora eficiente, o quão arduamente ela estava trabalhando", ele disse.

Se aproximando dos 60 anos e com uma grande cirurgia cardíaca realizada há menos de dois anos, Bill Clinton tem sido mais reflexivo em público sobre seu casamento do que sua esposa, que tem 58 anos.

Quando apareceram juntos em um evento para arrecadação de fundos em
Manhattan, em dezembro, o ex-presidente disse que às vezes se chuta por
tê-la encorajado a concorrer a um cargo eletivo; que há momentos em que ele gostaria que ela não estivesse no Senado, para que pudessem viajar mais, aprender mais, ele disse.

Quando Hillary Clinton se juntou a ele no palco, ela lhe deu um beijo na testa e então se afastou. Ela parecia um pouco embargada. Momentos depois, ao lembrar de seus 30 anos de casamento, ela procurou pela sala escura na tentativa de encontrá-lo. "Eu sou muito grata a você, Bill, onde quer que esteja." George El Khouri Andolfato

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