UOL Notícias Internacional
 

23/05/2006

Uma cidade povoada pela imaginação de um filho ilustre

The New York Times
Larry Rother
O táxi seguia pela avenida Garay e parou a dois quarteirões da praça da Constituición. A esquina me parecia familiar embora eu soubesse que nunca estivera por lá. Quando eu vi a placa da rua Tacuari foi que me ocorreu - em seu conto "O Aleph", Jorge Luis Borges havia escolhido um telhado entre um dos prédios anônimos dessa rua obscura como locação de seu místico "ponto no espaço que contém todos os outros pontos" no universo.

Kevin Moloney/The New York Times 
Um jovem toca o acordeão para os transeuntes perto da praça Dorrego, em Buenos Aires

Para qualquer admirador de Borges, divagar sobre Buenos Aires significa entrar em choque com os produtos da fértil imaginação do autor. A terra natal o assombrava, e ele tinha uma paixão especial por andar sem rumo pelas ruas da cidade. E também se queixava de que a cidade "não tinha fantasmas" e decidiu que deveria povoar a metrópole, que tão velozmente atraía imigrantes, com seus próprios fantasmas. "Nos meus sonhos, eu nunca saio de Buenos Aires", escreveu um dia, e seus sonhos muitas vezes eram angustiados, como expressou num dos vários poemas intitulados "Buenos Aires":

"E a cidade, agora, é como um mapa

Das minhas vergonhas e fracassos;

Dessa porta, eu vi crepúsculos

E esperei em vão aqui junto a essa pilastra de mármore."

O 20º aniversário da morte de acontece em junho de 2006, e entre essa data e o aniversário dele, em agosto, a cidade terá uma programação com leituras, mesas redondas, exposições e outras homenagens.

Na maioria das vezes, procurar vestígios mais nítidos de Borges na paisagem de Buenos Aires, para usar uma imagem borgesiana, é que nem tentar ler um pergaminho palimpsesto (onde uma nova escrita apaga a anterior) - é preciso ir além da camada superficial para perceber a presença que existe em seu fundamento.

Pegue por exemplo a rua na região de Palermo onde Borges cresceu, conhecida na época como calle Serrano mas que agora foi rebatizada em homenagem ao autor. Hoje em dia o bairro talvez seja o mais chic em Buenos Aires, cheio de bares da moda, restaurantes e butiques freqüentadas por jovens escritores, artistas em geral e cineastas, que provavelmente citam escritores como Paul Auster ou Martin Amis como influências, mais até do que citariam o próprio Borges.

Mas, na juventude de Borges, Palermo ficava "nos pobres arredores nortenhos da cidade", como ele dizia, numa região semirural freqüentada por rústicos gaúchos e por marginais que bebiam todas e brigavam muito nas pulperias, ou tabernas, que infestavam o bairro. As fabulosas bravatas e as súbitas erupções de violência que sempre lhes arrebatava impressionavam o rapaz amante dos livros conhecido como Georgie, e rendeu um fascínio por facas que mais tarde perpassaria contos e poemas como "O Punhal":

"É mais que uma estrutura feita de metais; os homens o pensaram

e o formaram para um fim muito preciso; é, de algum modo, eterno, o punhal

que ontem à noite matou um homem em Tacuarembó e os punhais que

mataram César são de um certo jeito eterno o mesmo punhal.

Quer matar, quer derramar brusco sangue."

A residência da família Borges em Palermo ainda está de pé, na Serrano 2135, mas não é aberta ao público e, com exceção de uma pequena placa, não há muito por lá que assinale a passagem de Borges.

Mas um pouco acima no quarteirão, na esquina da calle Guatemala com Serrano, está o ponto onde, no poema "Buenos Aires", Borges imagina que se deu "a mítica fundação de Buenos Aires", cidade "que eu considero tão eterna como a água e o ar".

Á primeira vista, a esquina não parece muito promissora: uma lanchonete de hamburgers, uma loja de decoração e um bar chamado Mundo Bizarro, cujo lema é "nós confiamos no álcool", representam a típica atmosfera atual de Palermo. Mas o quarto estabelecimento na esquina é uma taberna chamada "Almacen el Preferido", num prédio original de 1885 e que Borges descreve como um reduto dos bravos:

"Uma loja cor-de-rosa, como o verso de um baralho/incandescia enquanto lá no fundo falavam de trapaças ..."

Mais até do que uma cidade de tabernas, Buenos Aires é uma cidade de cafés, e Borges e seus amigos freqüentavam vários deles. A maioria dos bares já desapareceu, como o La Perla no bairro judeu conhecido como Once, ou então foram transformados em pizzarias ou algo assim, quando não ocorre o que aconteceu com o Gran Cafe Tortoni, perto da esquina da Suipacha com a Avenida de Mayo - alguns viraram armadilhas para turistas onde há uma estátua de cera de Borges sentada à mesa com Carlos Gardel, o maior cantor da história do tango.

Mas o Richmond, na calle Florida número 468, ainda preserva algo da atmosfera dos anos vinte, dos tempos em que Borges editava uma revista literária de vanguarda, Martin Fierro, logo ali na esquina, onde passava um bom tempo todos os dias com os colegas escritores. Como o nome sugere, a sensação ali é a de um clube inglês, com lambris de madeira e quadros com cenas de caça à raposa e paisagens do campo e propriedades rurais nas paredes. Isso chamaria a atenção de Borges, que se orgulhava da ancestralidade inglesa por parte do lado materno da família.

No círculo de amizades de Borges estava um escritor mais jovem, Adolfo Bioy Casares, com quem ele escreveu uma série de histórias de detetive ambientada em Buenos Aires, e a mulher de Bioy, a poeta Silvina Ocampo. Mas talvez o amigo mais fascinante e que mais lhe influenciou tenha sido o pintor e poeta Alejandro Schulz Solari, a quem Borges uma vez apelidou de "nosso William Blake." O pintor, que adotou o nome artístico de Xul Solar, era uns doze anos mais velho que Borges e compartilhava sua paixão pela invenção de linguagens e universos imaginários, explorando o esoterismo desse mundo recriado.

Nos anos cinqüenta, Borges saía freqüentemente da atmosfera asfixiante do apartamento que compartilhava com a mãe e ia para casa de "Xul Solar" na calle Laprida 1212, onde os dois amigos tantas vezes passavam o dia divagando sobre a kabbalah ou sobre sagas nórdicas.

A casa de Xul Solar hoje em dia é um museu devotado ao trabalho do pintor, contendo mais de 100 obras suas, incluindo os objetos exuberantes que ele chamava de "heranças de um outro cosmos". Observando as pinturas ficam mais evidentes as afinidades intelectuais entre os dois artistas: as aquarelas de Xul Solar plenas de utopias, com cidades flutuando no céu e também com criaturas meio homem meio máquina, universos alternativos e outros temas que costumamos associar a Borges.

Visitando esses e outros recantos onde Borges viveu ou trabalhou, podemos avaliar como era poderosa a imaginação do autor. Em 1937, por exemplo, a carreira literária que era promissora parecia meio emperrada. Ele precisou trabalhar catalogando livros na Biblioteca Municipal Miguel Cane, onde permaneceu até 1945. Não havia muito o que fazer por lá, e aí ele passava boa parte do tempo num pequeno aposento sem janelas no fundo do segundo andar, onde escreveu muitas de suas obras que viriam a ser editadas como "Ficciones", incluindo o conto "A Biblioteca de Babel".

"O homem, bibliotecário imperfeito, pode ser o produto do acaso ou de um demiurgo malévolo; o universo, com seu elegante repertório de estantes, de volumes enigmáticos, da inexauríveis degraus a serem escalados pelo viajante e latrinas para o bibliotecário sentado, tudo isso só pode ser o trabalho de um deus", escreveu Borges.

Mais tarde o autor escreveu que "os incontáveis livros e estantes que aparecem no conto são literalmente os que estavam sob meu cotovelos". Assim como o quarto onde o conto foi escrito, que pode ser visitado, a biblioteca em si é pequena, com coleções de livros um tanto limitadas, e não parece assim tão merecedora da imortalidade que Borges lhe proporcionou. Fica na Carlos Calvo 4321, no bairro proletário de Boedo; Borges costumava pegar o bonde número 7 para pegar no batente, lendo Dante em pé no bonde, que já não mais existe, se bem que há uma linha de ônibus com o mesmo número percorrendo a mesma rota. Para um homem cuja vida pessoal por tantas vezes foi infeliz, as bibliotecas proporcionavam uma espécie de consolo: "Eu sempre imaginei que o Paraíso fosse uma espécie de biblioteca", escreveu certa vez numa poesia. Após a deposição do ditador Juan Perón em 1955, Borges foi nomeado diretor da Biblioteca Nacional. Era o tipo do lugar adequado ao seu universo babélico - um prédio de quatro andares com estrutura octogonal, onde as pilastras têm registros de nomes de grandes escritores e pensadores, como Shakespeare, Goethe e Platão.

A biblioteca está lá, na calle Mexico 564 no bairro de San Telmo, só que agora é o Conservatório Nacional de Música, aberto a visitas.

Logo ao lado fica a sede da Sociedade Argentina de Escritores, onde Borges de vez em quando fazia leituras em público. Atualmente a sociedade divide a sua sede com um restaurante, o Legendaria Buenos Aires, cujo refeitório é enfeitado com retratos de famosos cantores de ópera. Mas há também algo que nos faz lembrar de Borges na parede do restaurante - uma placa de metal apresenta a lista do comitê de diretores da sociedade no período 1942-44, incluindo um certo Jorge Luis Borges.

Além dos objetos pontiagudos, talvez o motivo favorito presente na obra de Borges seja o elemento felino, evocado em trabalhos como "O Outro Tigre", onde o autor medita a partir da diferença entre o animal de verdade e todos aqueles que povoam sua imaginação. Desde a infância os irracionais sempre lhe fascinaram - o escritor costumava visitar o zoológico de Buenos Aires, que fica na avenida Las Heras perto de Palermo, só para observar os grandes felinos. Algumas vezes, já ali pelos sessenta anos, ele ia ao zoológico acompanhado por uma mulher que tentava impressionar, e diante das jaulas recitava poesia:

"Ia e voltava, delicada e fatal, possuída de energia infinita,

Do outro lado das grades sólidas e todos nós observávamos ..."

Todos os felinos estão lá pelo zoológico, inclusive um solitário tigre branco de Bengala, que parece passar a maior parte do tempo dormindo sob uma árvore.

Quando já era adulto, Borges residiu em vários apartamentos no bairro da Recoleta, como na calle Presidente Quintana esquina com avenida Pueyrrydon, endereço também devidamente registrado com placa de metal. Mas onde ele viveu mais tempo, quase 40 anos descontando entradas e saídas, foi no apartamento 6B na calle Maipu 994, perto da plaza San Martín, lugar que ele considerava como seu lar verdadeiro.
Quando eu era um jovem correspondente da revista Newsweek, no começo dos anos oitenta, por duas vezes entrevistei Borges em Buenos Aires. Eu me lembro que o apartamento era pequeno e um tanto austero, sem aparelhos de televisão, sem rádio e, o mais surpreendente para um homem que na época já era cego, também não havia gravadores de som.

Borges insistiu que as entrevistas deveriam ser feitas em inglês, idioma que ele falava com o que considerava ser um sotaque da região de Northumberland, herdado de uma avó inglesa que lhe ensinara o idioma, demonstrando uma simpatia por termos antiquados como "thrice" (referente a três vezes).

Muito embora esse tradicional apartamento não esteja agora aberto ao público, o que está funcionando é La Ciudad, a livraria que fica na galeria de lojas logo em frente, onde Borges passava muitas de suas tardes. Muitas primeiras edições de obras de Borges estão ali na vitrine, assim como fotografias do escritor sentado numa cadeira que ainda ocupa lugar de honra ali na loja, como se estivesse esperando pela volta do escritor. Aproveite se a octogenária proprietária do estabelecimento, Elizabeth Alonso, estiver num bom momento - quem sabe aí você poderá convencê-la a lembrar um pouco do amigo que também era o cliente mais famoso.

Mas talvez o local onde poderemos ter o registro mais intenso de que Borges não era apenas uma personalidade literária mas também um cidadão bonairense de carne e osso esteja na calle Paraguay 521. Lá funciona um estúdio fotográfico freqüentado por argentinos em busca de passaportes e carteiras de identidades. Quando chegar por lá, observe cuidadosamente a exposição de uns quarenta retratos logo ali na vitrine - o quarto à direita na coluna de cima é Borges, sempre observando de maneira excêntrica um mundo que a ele parecia tão estranho que era preciso inventar um outro, por conta própria.

Saiba mais: roteiros guiados

A administração municipal de Buenos Aires oferece tours gratuitos com um roteiro de caminhadas entre os locais associados a Borges. A maior parte desses tours guiados é feita em espanhol, mas há alguns disponíveis em inglês.


Para se informar ligue para 54-11-4114-5791 (54 é o código telefônico internacional para a Argentina, e o 11 é o código para Buenos Aires), ou então entre no site municipal www.bue.gov.ar/reccoridos/index, onde pode se baixar um roteiro do percurso com áudio em espanhol.

Como alternativa, por cerca de U$ 90 (cerca de R$ 200) é possível fazer de automóvel um roteiro literário baseado em Borges, conduzido em inglês por um professor de literatura da Universidade de Buenos Aires, que pode ser reservado pela agência de viagens Eternautas; tel: 4384-7874.

Há também a Fundação Internacional Jorge Luis Borges, administrada pela viúva do escritor, Maria Kodama, que fica na calle Anchorena 1660, mas eu nunca tive muita sorte com eles. A fundação, aberta todos os dias de 9:30hs às 14hs, tem várias primeiras edições de trabalhos de Borges em várias línguas, mas que só podem ser consultadas com uma reserva prévia.. Ligue para 4822-8340 se quiser reservar ou então para saber dos próximos eventos que marcarão a ocasião dos 20 anos da morte de Borges. Marcelo Godoy

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