UOL Notícias Internacional
 

24/05/2006

Homens armados: uma galáxia de rivais disputando o poder

The New York Times
Dexter Filkins*

em Bagdá, Iraque
Mesmo em um país cercado de assassinato e morte, a 16ª Brigada representou uma nova fronteira.

A brigada, uma força de 1.000 homens formada pelo Ministério da Defesa do Iraque no início de 2005, foi encarregada de proteger um trecho de oleoduto que percorria Dawra, um bairro no sul de Bagdá. Altamente armados e com pouca supervisão, alguns membros da brigada de maioria sunita se transformaram em um esquadrão da morte, cooperando com rebeldes e executando colaboradores do governo, disseram autoridades iraquianas.

João Silva/The New York Times 
Componentes do Exército Mahdi, uma milícia xiitia, usam trator para remover carro destruído

"Eles estavam matando pessoas inocentes, qualquer um que fosse ligado ao governo", disse Hassan Thuwaini, o diretor da força de proteção do
Ministério do Petróleo iraquiano.

Quarenta e dois membros da brigada foram presos em janeiros, segundo
autoridades do Ministério do Interior e do departamento de polícia em Dawra.

De lá para cá, disseram autoridades iraquianas, membros individuais
confessaram ter executado dezenas de assassinatos, incluindo a morte de seu próprio comandante, o coronel Mohsin Najdi, quando ele ameaçou entregá-los.

Alguns dos homens designados para proteger o oleoduto, disseram as
autoridades, parecem ter mantido elos com grandes grupos rebeldes
iraquianos. Por meses, autoridades americanas e iraquianas têm tentado
rastrear os esquadrões da morte que atacam os sunitas, que operam dentro do Ministério do Interior, que é liderado pelos xiitas.

Mas a 16ª Brigada era diferente das outras. A 16ª Brigada era uma unidade sunita acusada de matar xiitas. E não fazia, como as outras, parte da polícia iraquiana ou mesmo do Ministério do Interior. Ela era dirigida por outro ministério iraquiano.

Este é o país que os novos líderes iraquianos que tomarão posse no sábado estão herdando. O esforço apoiado pelos americanos de armar dezenas de milhares de soldados e policiais iraquianos, somado ao fracasso em coibir um número quase igual de milicianos armados, criou uma galáxia de grupos armados, cada um com sua própria lealdade e agenda, algo que está acelerando o mergulho do país no caos.

Às vezes, as linhas que dividem uma força do governo de outra -e a polícia das milícias- são tão borradas que é impossível determinar quem são os matadores. "Não, ninguém sabe quem é quem agora", disse Adil Abdul Mahdi, um dos vice-presidentes do Iraque.

Os grupos armados que operam por todo o Iraque incluem não apenas os 145 mil policiais e soldados aprovados oficialmente, que passaram a ser investigados por amplas violações de direitos humanos. Eles também incluem milhares de guardas e milicianos armados: alguns xiitas, alguns sunitas; alguns, como o Serviço de Proteção de Instalações, que conta com 145 mil membros, operam com apoio oficial; e alguns, como a Brigada Badr liderada pelos xiitas, realizam operações com aprovação tácita do governo, às vezes até mesmo usando uniformes do governo.

Alguns destes grupos armados, como o exército iraquiano e a polícia
iraquiana, freqüentemente realizam missões legítimas de combate ao crime e à insurreição. Outros, como os membros de outra milícia xiita, o Exército Mahdi, se especializaram em tortura, assassinato, seqüestro e no acerto de contas para partidos políticos.

Domar os exércitos oficiais e não oficiais do Iraque é a tarefa mais urgente diante dos novos líderes do país. Em discursos e conversas privadas, o primeiro-ministro Nuri Kamal Al Maliki disse que pretende reprimir os esquadrões da morte que estão operando dentro do governo iraquiano, assim como desarmar as milícias que dão força nas ruas aos partidos políticos iraquianos.

Isto prenuncia uma enorme batalha política, uma que irá além dos policiais e soldados paramilitares do Ministério do Interior.

Uma luta maior e possivelmente mais decisiva será a do desarmamento de uma série de outros grupos armados, incluindo as milícias xiitas, a maioria delas subordinada a partidos políticos xiitas que dominam o novo governo.

O resultado da luta terá enormes implicações no futuro do Iraque, com as autoridades iraquianas e americanas tentando coibir os abusos que ameaçam arrastar o país para perto de uma guerra sectária sem impedir a capacidade do governo de combater a insurreição liderada pelos sunitas.

Alguns dos novos líderes do Iraque, incluindo seu vice-presidente sunita, Tariq Al Hashemi, estão pedindo por uma purgação total do Ministério do Interior, dizendo que há "milhares" de oficiais corruptos e brutais que precisam ser demitidos caso o governo deseje ter esperança de conquistar a confiança dos sunitas do Iraque.

"Você me pergunta quem está fazendo estas coisas", disse Al Hashemi. "A
polícia, as milícias, os partidos políticos -nós não sabemos. Mas algumas destas pessoas são criminosas. Nas áreas sunitas, não há confiança nenhuma nelas."

É impossível saber quantos homens desgarrados existem entre os 145 mil
policiais, comandos e outros oficiais que operam sob ordem do ministério, a maioria deles treinado sob supervisão americana.

Os líderes sunitas e xiitas discordam da natureza e amplitude do problema, o que dificulta sua solução. Eles dizem que planejam resistir a qualquer transformação geral no Ministério do Interior.

Para os principais líderes xiitas do Iraque, as queixas em relação ao
Ministério do Interior distraem dos problemas maiores de esquadrões da morte sunitas, que consistem de pessoas às quais eles se referem como "taqfiris", uma palavra árabe que descreve alguém que caça apóstatas e violadores da fé. Ela passou a representar rebeldes que matam xiitas.

De certa forma, o Ministério do Interior dominado pelos xiitas está apenas fazendo aos rebeldes sunitas o que os rebeldes sunitas estão fazendo com os xiitas desde abril de 2003.

Bayan Jabr, que até sábado servia como ministro do Interior, escuta as
queixas sobre suas forças e as despreza com um aceno de mão. "São apenas rumores", disse Jabr com um sorriso. Ele é um alto membro do Conselho Supremo para a Revolução Islâmica no Iraque, que supervisiona sua própria milícia, a Brigada Badr.

Após assumir o comando do Ministério do Interior no primeiro semestre do ano passado, ele afastou mais de 170 funcionários que foram contratados pelo governo iraquiano anterior, de mentalidade mais secular. E ele trouxe os primeiros de milhares de milicianos Badr para as fileiras da polícia.

Os sunitas acusam Jabr de permitir que a polícia de maioria xiita aja
livremente nos bairros sunitas. As autoridades americanas achavam que se tratava de uma visão exagerada de Jabr; elas o descreviam como um homem bem-intencionado que perdeu o controle de seu ministério. Elas indicaram, por exemplo, que centenas, possivelmente milhares, de milicianos do Exército Mahdi, rival da Brigada Badr de Jabr e leais ao clérigo renegado Muqtada Al Sadr, também ingressaram nas forças policiais por todo o país.

Mesmo assim, Jabr se tornou tamanho pára-raios para os sunitas que as
autoridades americanas passaram a insistir para que ele renunciasse. No
sábado, Jabr foi nomeado ministro das Finanças do novo governo; seu antigo cargo ainda está vago.

Enquanto os sunitas apontam para o Ministério do Interior, os líderes xiitas reclamam do Serviço de Proteção de Instalações, uma força de 145 mil homens espalhada por 27 ministérios iraquianos, cada um com sua própria agenda.

Uma das maiores forças está designada ao Ministério do Petróleo, que mantém 20 mil soldados para proteger as refinarias e outras partes da
infra-estrutura de petróleo do país.

O Serviço de Proteção de Instalações foi criado em 2003, com apenas 4 mil homens, para proteger partes cruciais da infra-estrutura iraquiana, como usinas de força e refinarias de petróleo. À medida que os rebeldes
aumentavam seus ataques, e os comandantes americanos precisaram liberar seus soldados para combate, o serviço foi rapidamente expandido. De agosto de 2004 a janeiro de 2005, o número de homens do serviço passou de 4 mil para 60 mil.

No mês passado, um inspetor geral designado para checar os programas
americanos no Iraque divulgou uma auditoria do Serviço de Proteção de
Instalações, que custou US$ 147 milhões. O relatório disse que os auditores nunca conseguiram determinar fatos básicos como quantos iraquianos foram treinados, quantas armas foram compradas e onde grande parte do equipamento foi parar.

Dos 21 mil guardas que teriam sido treinados para proteger equipamento de petróleo, por exemplo, provavelmente apenas cerca de 11 mil receberam treinamento, disse o relatório. E dos 9.792 rifles automáticos comprados para estes guardas, os auditores só conseguiram rastrear 3.015.

As autoridades americanas não exerceram supervisão ao Serviço de Proteção de Instalações, nem qualquer autoridade central do governo iraquiano.

Assim como Thuwaini se desespera em relação aos homens sob seu comando, ele reservou suas críticas mais fortes às unidades de proteção de oleodutos dirigidas pelo Ministério da Defesa. Uma destas unidades era a 16ª Brigada, que ele e outras autoridades iraquianas disseram que estava atuando como esquadrão da morte em Dawra.

Thuwaini disse que havia pelo menos outras três brigadas semelhantes atuando no Iraque e que também estavam fora de controle: as 9ª, 10ª e 11ª Brigadas das forças de proteção de oleodutos do Ministério da Defesa. Estes três grupos, disse Thuwaini, parecem estar cooperando com os rebeldes, permitindo regularmente que oleodutos sejam destruídos.

Coibir a violência no Iraque, disseram autoridades americanas, significa pôr fim às milícias privadas que perambulam pelas ruas da maioria das cidades. Isto inclui a Brigada Badr e o Exército Mahdi, ambos aliados do governo liderado pelos xiitas.

Autoridades americanas e iraquianas disseram acreditar que a Brigada Badr é responsável pela morte de centenas, talvez milhares, de baathistas após a queda de Saddam. O Exército Mahdi, uma milícia informal que surgiu após a invasão americana para apoiar Al Sadr, já participou de dois levantes armados contra as forças americanas e os governos iraquianos que elas apoiavam.

Logo após a invasão ao Iraque, as autoridades americanas proibiram as
milícias, mas, apesar das muitas promessas de fazê-lo, nunca conseguiram desarmá-las.

Os políticos xiitas dizem que precisam das milícias para se protegerem dos rebeldes. Quando a coalizão liderada pelos xiitas assumiu o poder no primeiro semestre do ano passado, Hakim, cujo partido controla a Brigada Badr, anunciou publicamente que ela permaneceria.

Atualmente, o Exército Mahdi é a mais temível das milícias xiitas: após o atentado a bomba à mesquita Askariya, em Samarra em fevereiro, os homens vestidos de preto da milícia tomaram as ruas dos bairros mistos de Bagdá e mataram centenas de sunitas. Durante grande parte dos dias caóticos, as forças armadas americanas e a polícia iraquiana não fizeram nada para impedi-los.

Al Maliki, o novo primeiro-ministro iraquiano, deu os primeiros pequenos passos para controlar as milícias. Neste mês, o governo decidiu combinar as diferentes divisões das forças de segurança de Bagdá, para colocá-las sob um controle mais rígido e coibir a violência sectária.

A chave para o plano de Al Maliki é um uniforme único e um cartão de
identificação único que, dizem os líderes iraquianos, lhes permitirá
identificar milicianos privados e oficiais desgarrados dentro das forças de segurança.

Debandar as milícias significa enfrentar os partidos que as controlam, e os partidos controlam o governo. O Conselho Supremo, que controla a Brigada Badr, tem 30 cadeiras no novo Parlamento; Sadr, que controla o Exército Mahdi, tem 31 cadeiras.

Ambos os partidos parecem relutantes em debandar suas forças, mesmo que
apenas pela incapacidade do governo de garantir a segurança deles.

Alguns comandantes americanos dizem que um confronto com Al Sadr e sua
milícia é provavelmente inevitável. Muito poucos líderes iraquianos
concordam publicamente.

O dilema para os americanos e iraquianos parece bem claro. Sem enfrentar Al Sadr, parece haver pouca perspectiva de limpar as forças policiais ou o Exército Mahdi. Mas, após terem enfrentado dois levantes armados de Al Sadr no passado, os americanos não parecem dispostos a enfrentar as conseqüências políticas que outro levante traria.

As autoridades americanas, ao menos privativamente, esperam que os
iraquianos tomem a iniciativa. Mas não estão prendendo seu fôlego.

"Eles precisam começar a promover exemplos", disse um funcionário americano em Bagdá, sobre o governo iraquiano. "Está bem claro para mim que eles não estão promovendo exemplos."

"Nenhum", disse o funcionário. "Zero."

*Ali Adeeb, Khalid Al Ansary, John F. Burns e Qais Mizher, em Bagdá, e David Rohde, em Nova York, contribuíram com reportagem para este artigo. George El Khouri Andolfato

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    0,45
    3,141
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h21

    -0,39
    64.684,18
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host