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25/05/2006

Depois de décadas em que as famílias se dispersavam, sinais da volta ao lar

The New York Times
Mireya Navarro
Tess Crescini continua tentando dividir a casa apenas com seu noivo e seu cão, mas até agora não conseguiu. Atualmente, Crescini, 51, e seu noivo estão compartilhando sua casa de quatro quartos em San Jose, Califórnia com dois de seus três filhos adultos, uma nora e uma neta de 3 anos e um irmão que vem e vai. Os preços exorbitantes dos imóveis, demissões e filhos que sentem falta da união da família fizeram de Crescini chefe de uma casa de várias gerações.

Theo Rigby/The New York Times - 21.mai.2006 
Tess Crescini (no centro) divide a mesa com seu noivo, dois filhos adultos e sua neta

Em uma sociedade em que o tipo de moradia mais comum é de pessoas morando sozinhas e onde a família espalhada é quase uma instituição cultural, muitos avós, filhos e netos estão se reunindo para viver debaixo do mesmo teto. O último censo mostrou que essas "casas de várias gerações" -que incluem três ou mais gerações- estão crescendo mais do que qualquer outro tipo de moradia. Profissionais da indústria dizem que a tendência se acelerou nos últimos cinco anos.

Arquitetos, incorporadores e outros da indústria de construção estão respondendo com projetos e comunidades planejadas que oferecem amenidades apropriadas para diferentes gerações. Nas feiras dos construtores deste ano, modelos de casas com nomes como "Casa Realidade" pela primeira vez foram especificamente criados para a vida em família ampla. Eles têm, por exemplo, suítes com entradas e varandas privadas, corredores mais largos para acomodar cadeiras de rodas e interruptores baixos para serem alcançados por crianças e pessoas em cadeiras de rodas. Há também cozinhas maiores para refeições em família e quartos comunais para a vida social, assim como maior espaço para armazenar pertences, que agora vão dos brinquedos à louça da vovó.

"Você vê muito mais pessoas dedicando uma porção de suas casas aos seus entes queridos", disse Carlos Elenes, arquiteto da Ebta Architects em Irvine, Califórnia, que se especializa em casas caras e trabalhou em projetos para filhos que cuidam dos pais e avós que dividem suas casas com filhos e netos.

No entanto, quando as gerações escolhem viver juntas, a norma não é casas modernas de vários milhões de dólares. Funcionários do censo dizem que é mais comum encontrar famílias morando juntas em Estados como Califórnia, onde o custo alto da moradia força as famílias a se juntarem, e em Estados com maior número de mães solteiras, que vão morar com os pais.

Uma diversidade de fatores culturais e econômicos atrai e mantém os parentes juntos. Lares de várias gerações, especialmente aqueles em que os avós cuidam dos netos, há muito são comuns em países asiáticos e hispânicos e também são populares entre populações de imigrantes nos EUA. Outro fator que promove a tendência é a geração do baby boom, que quer estar envolvida na vida dos filhos e acha que uma aposentadoria em isolamento na Flórida é, bem, para os pássaros.

"Há um aspecto financeiro, mas também as pessoas estão entendendo a importância de manter a conexão com suas raízes", disse Donna M. Butts, diretora executiva de "Generations United", organização de Washington D.C., que promove a interação entre gerações. "As famílias estiveram espalhadas por tantos anos; há uma reversão desta tendência."

O número de lares de várias gerações ainda é relativamente pequeno -4,2 milhões, ou 4%- mas as moradias com três ou mais gerações cresceu 38% entre 1990 e 2000, mais do que o dobro do que os outros tipos, segundo o censo.

Desse percentual, 62% são administrados pela primeira geração, ou seja, os avós.

Quando provavelmente estaria procurando espaços menores, Ann Bristow, 66 comprou um apartamento de dois quartos no centro de Seattle, em 2004, para poder dividir com sua filha de 36 anos e sua neta de 20 meses.

Bristow, divorciada, disse que estava se aposentando como bibliotecária da universidade em Indiana, quando sua filha mais jovem tornou-se mãe solteira.As duas se mudaram para Seattle, onde a outra filha de Bristow mora com a família. Juntas em um apartamento, a avó disse: "Foi um movimento muito natural para mim."

Bristow cuida do neném parte da semana, enquanto a filha trabalha como professora. "Adoro bebês", disse ela. "Gosto de tomar conta da minha neta.Não é um sacrifício."

O acerto também foi movido por questões financeiras -ela está ajudando a filha, que voltou a estudar, está fazendo um segundo mestrado e está economizando para comprar seu próprio apartamento. Mas muitos de seus contemporâneos parecem não entender, disse Bristow. Eles vêem a aposentadoria como uma época para se mimarem, não para assumirem novas responsabilidades.

"Jogar golfe não era meu sonho", disse ela. "Eu me via muito envolvida com minha família".

A união da família algumas vezes traz pressão sobre as finanças e o tempo, e leva à necessidade de navegar relacionamentos antigos de um novo jeito.Significa estabelecer regras básicas de limpeza e cozinha, adaptar aos gostos dos outros e desenvolver uma consciência de não usurpar o papel do outro. No caso de Bristow, mãe e filha parecem ter entrado em seus papéis tranquilamente, e Bristow disse que sua principal preocupação é que a neta saiba quem é a mãe.

"Isso é muito importante, que os elos emocionais e a autoridade estejam claros", disse ela.

Mas as tensões e recompensas variam caso a caso.

Crescini, agente imobiliária de San Jose, disse que abdicou de dois quartos, inclusive um que pretendia usar como sala de ginástica, para seus filhos.Ela também sente falta do "tempo sozinha", para escrever poesia, e de privacidade para ela e seu noivo, com quem planeja se casar no mês que vem."Tente ter uma noite selvagem em uma casa cheia de pessoas", disse ela.

No lado positivo, a família come unida e vê filmes junta, a nora a está ajudando a coordenar o casamento e os filhos e irmão estão construindo um deque e churrasqueira no quintal para o verão.

"Vou de manhã ao 'Curves' e conto às senhoras sobre meu dia-a-dia. Elas
dizem: 'Você deve agradecer aos céus, alguns filhos não fazem uma visita nem no dia de Ação de Graças'", disse ela.

Mas "idealmente", disse ela, "gostaria que meus filhos fossem independentes".

Seu filho mais velho, Michael Hovland, 29, tem um desejo ligeiramente diferente. "Idealmente", disse ele, "gostaria de comprar uma casa bem ao lado da dela."

Ele disse que adora que sua filha esteja crescendo com o resto da família e que se beneficia da sabedoria de "uma pessoa mais velha que, já passou por essas coisas" nas questões de rotina.

"Família é tudo", disse ele. "Se eu tivesse milhões e milhões de dólares, eu compraria terra e levaria todo mundo para morar lá."

Assim, Hovland estaria revertendo para um estilo de vida que era norma no século 19, antes do declínio da agricultura e do êxodo dos filhos adultos da casa dos pais em busca de emprego, disse Steven Ruggles, historiador que estuda as mudanças na família americana e dirige o Centro de População de Minnesota, um centro de pesquisa da Universidade de Minnesota. Ruggles observou que muitos cientistas sociais também argumentam que a segurança social levou à erosão dos lares de várias gerações pois permitiu aos idosos sustentarem uma vida independente. Ele disse que a percentagem de pessoas com mais de 65 vivendo com os filhos caiu constantemente entre 1850 e 1990, quando começou a crescer ligeiramente, em grande parte por razões econômicas.

Em algumas casas que abrigam várias gerações, os papéis de pais e filhos foram revertidos.

Jaulie Kroaloff, 49, mãe divorciada, recentemente se mudou com sua família -uma filha de 8, um filho de 7 e a mãe de 84- para uma casa de cinco quartos em "Four Corners", um novo empreendimento no condado de Dutchess, em Nova York, com amenidades planejadas adequadas a mais de uma geração, como uma loja, piscina, academia de ginástica e aponto de encontro.

Sua mãe ajuda a cuidar dos netos e abriu um novo mundo para eles, disse Kroloff, que faz consultoria de administração para programas públicos.
Graças a ela, disse, eles viram filmes antigos como "Este Mundo é um Hospício" e aprenderam a fazer pipoca no fogão em vez de no microondas.

Mas Kroloff também teve que pedir à mãe que evitasse comer biscoitos e frituras na frente das crianças, abaixasse a televisão durante a noite e desse a ela espaço para passear com os filhos e receber amigos.

"Não é bom ouvir aquelas histórias sobre como você tinha problemas intestinais quando bebê", disse a filha.

Desde o final de 2005, quando sua mãe foi diagnosticada com Alzheimer, uma enfermeira cuida da avó e dos netos.

Apesar dos lares de várias gerações serem mais comuns entre famílias de baixa renda, arquitetos e construtores hoje também estão desenvolvendo projetos de vários milhões de dólares para os ricos nesse mercado, e alguns proprietários estão acrescentando mais metros quadrados às suas casas para acomodar os parentes.

No mercado abaixo de US$ 1 milhão, alguns corretores estão vendo pessoas juntarem seus salários, como irmãos, primos e outros parentes, para terem renda para comprar uma casa maior.

"Quando você mostra essas casas, você recebe uma caravana" de até 10 pessoas, disse Yvonne Rosas-Pettya, vendedora da Century 21 em Arcadia, no condado de Los Angeles com uma grande população asiática onde casas para várias gerações são vendidas por US$ 700.000 (em torno de R$ 1,5 milhão) ou mais.

Muitas das combinações, por natureza, são temporárias. As crianças crescem, os avós morrem.

Em Seattle, Bristow disse que ela e a filha esperam se separar, provavelmente quando a neta começar a escola.

Mas novamente, podem terminar juntas.

"Se eu estiver mal de saúde, sem poder cuidar de mim mesma", disse a avó, "talvez ela me convide para morar com ela". Deborah Weinberg

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