UOL Notícias Internacional
 

25/05/2006

Pessoas no México vêem muro na fronteira como oportunidade

The New York Times
Ginger Thompson
em Seattle
Ultraje nacionalista e acusações de hipocrisia diante da perspectiva tomaram conta das ondas de rádio e das primeiras páginas no México, como esperado, alimentados por campanhas presidenciais nas quais não faltam apelos ao orgulho nacional. Mas, surpreendentemente, outra visão está ganhando força: que boas cercas podem promover uma boa vizinhança.

Shannon Stapleton/The New York Times - 23.mai.2006 
Mapa dos Estados Unidos grafitado no muro que separa Agua Priesta, no México, do Arizona

O debate acalorado em torno de um muro na fronteira tem perseguido o
presidente do México, Vicente Fox, em cada parada durante sua visita aos Estados Unidos, que teve início na terça-feira. Apesar de não endossar publicamente a idéia, ele deixou claro que seu governo está preparado para conviver com uma maior segurança na fronteira desde que venha acompanhada de medidas que abram os canais legais para a migração de trabalhadores mexicanos.

Fora de seu governo, vários especialistas em imigração começaram a expor a idéia de que um muro real, não os porosos que existem atualmente, poderia representar mais uma oportunidade do que um ataque.

Um muro poderia dissuadir emigrantes sem documentos a embarcarem em jornadas perigosas que cruzam o deserto de Sonora e forçar as sociedades de ambos os lados a confrontarem sua dependência de uma indústria caracterizada pela exploração, eles disseram.

O antigo jogo de atribuição de culpa -no qual o México culpa a migração
ilegal à demanda voraz americana por mão-de-obra e acusa os legisladores de xenofobia- deu espaço a uma discussão mais voltada à auto-análise, pelo menos nos cantos onde as políticas são feitas e influenciadas, sobre quão pouco o México tem feito para manter sua população em casa.

"Por muito tempo o México tem se gabado da partida dos emigrantes, os
chamando de heróis nacionais, em vez de descrevê-los como atores em uma
tragédia nacional", disse Jorge Santibáñez, presidente do El Colegio de la Frontera Norte. "E tem se gabado do aumento de dinheiro remetido como um indicador de sucesso, quando na verdade é um indicador de fracasso."

De fato, Fox -que há cinco anos desafiou os Estados Unidos a seguirem o
exemplo da Europa e abrirem suas fronteiras, mas que mal protestou quando o presidente Bush anunciou planos para distribuição de tropas- personifica as posturas em mutação, freqüentemente contraditórias, do México em relação à migração ilegal.

Gabriel Guerra, um analista político, disse que a eleição presidencial em julho e as negociações em torno da reforma da imigração em Washington colocaram Fox em um terreno político instável.

Amenizar a oposição deste país a um muro poderia ser a melhor forma de Fox persuadir os conservadores no Congresso a adotarem reformas para legalização dos cerca de 12 milhões de imigrantes ilegais que vivem nos Estados Unidos e a expansão de programas de trabalhadores convidados.

Por outro lado, ceder ao que os críticos descreveram como uma "militarização da fronteira", sem o obtenção de programas de legalização, poderia deixar Fox vulnerável a críticas de que se submeteu à vontade dos Estados Unidos. Isto poderia prejudicar as aspirações de Felipe Calderón, o candidato apoiado por Fox para sucedê-lo na eleição de 2 de julho.

"Esta é uma viagem muito arriscada", disse Guerra. "Se ele for muito forte, ele poderá incomodar os conservadores lá. Se não for forte o bastante, poderá ser esmagado pelos seus oponentes aqui."

"Seja qual for o discurso, será difícil acertá-lo", disse Guerra. "Eu acho que estaríamos melhor servidos por uma diplomacia discreta."

O vice-ministro das Relações Exteriores, Gerónimo Gutiérrez, reconheceu o desafio que o presidente enfrenta. "Nós estamos no meio de um ping-pong de reações que refletem preocupações válidas de ambos os lados da fronteira, assim como um momento incomumente complexo no relacionamento bilateral", ele disse.

Fox entrou no meio do jogo na terça-feira, começando sua passagem por Utah, Washington e Califórnia, Estados que se tornaram parceiros comerciais importantes do México e que experimentaram tanto as dores quanto os benefícios da imigração ilegal.

Em Utah, onde as autoridades estimam que a população de imigrantes ilegais triplicou desde 1990, para 90 mil, pequenos grupos de manifestantes seguiram a visita de Fox a Salt Lake City. "Cuide de seu próprio povo, para que não tenham que vir para cá", alguns gritavam.

Temendo inflamar as paixões dos conservadores americanos no momento em que o Senado americano está encerrando o debate em torno da reforma da imigração, Fox não respondeu diretamente aos ataques. Mas ele se manifestou.

Em seus comentários públicos em Utah, ele reconheceu que o México deve fazer mais para criar empregos "para que a migração se transforme em uma decisão, não uma necessidade", e reconheceu que era direito dos Estados Unidos adotar medidas para fortalecer suas fronteiras.

Mas, ele disse, será necessário mais do que força policial para realmente resolver os problemas da imigração ilegal. "Uma reforma abrangente", disse Fox", "ajudará ambos os países a concentrarem forças e recursos na solução de nossas preocupações de segurança e prosperidade".

Analistas disseram que é improvável que Fox fale publicamente a favor de um muro. Mas nas recentes comunicações com Washington, seu governo, assim como líderes de todos os partidos mexicanos, insinuaram a construção de seu próprio muro.

Em março passado, em um documento publicado em três dos maiores jornais dos Estados Unidos, incluindo o "New York Times", o governo mexicano, juntamente com líderes do establishment político e da comunidade empresarial, explicaram sua posição diante da reforma da imigração.

Naquele documento, o governo Fox disse que se os Estados Unidos se
comprometerem a estabelecer canais legais para o fluxo de trabalhadores
imigrantes, o México adotaria novas medidas para impedir sua população de partir ilegalmente.

"Se um país anfitrião oferecer um número suficiente de vistos apropriados para cobrir o maior número possível de trabalhadores e suas famílias", dizia o documento, "o México seria responsável por garantir que cada pessoa que decida partir o faça seguindo os canais legais".

Em uma coluna para o jornal mexicano "Reforma", Jorge G. Castañeda, o
ex-ministro das Relações Exteriores, sugeriu uma "série de incentivos", em vez de estratégias de reforço policial para impedir os mexicanos de
migrarem. Eles incluiriam benefícios de bem-estar social para as mães cujos maridos permanecessem no México, bolsas de estudo para alunos colegiais com ambos os pais em casa e a perda dos títulos de terras para pessoas que se ausentassem de suas propriedades por um período prolongado.

"Nada disto é inevitável ou desejável", escreveu Castañeda. "Nem está
escrito que isto necessariamente produzirá um quid pro quo com os Estados Unidos.

"Mas as elites daqui deveriam refletir sobre este assunto", ele prosseguiu. "Queremos algo em troca de nada?"

Ainda há, é claro, muitas pessoas no México que são ferrenhamente contrárias a idéia de muros. A senadora Sylvia Hernández, chefe do Comissão de Relações Exteriores do Senado para a América do Norte, resumiu tais sentimentos dizendo: "Muros não dialogam. Eles isolam". Rafael Fernández de Castro, editor da revista "Foreign Affairs en Espanol", disse: "Nós estamos recebendo a vara, mas não a cenoura".

Os candidatos presidenciais também seguiram de perto o velho roteiro.

"Quanto mais paredes construírem", disse Calderón, do Partido Ação Nacional conservador, "mais muros pularemos". Andrés Manuel López Obrador, do Partido da Revolução Democrática de esquerda, chamou Fox de "marionete" dos Estados Unidos por sua resposta tépida ao envio planejado de tropas para a fronteira.

Ainda assim, sinais de uma lenta mas constante mudança de postura estão
surgindo nos locais mais improváveis.

"É fantástico", disse Primitivo Rodríguez, um ativista de imigração no
México, quando perguntado sobre os planos de construção de muros. "É a
melhor coisa que poderia acontecer aos migrantes e para o México."

Rodríguez, que atuou como conselheiro do governo mexicano e um organizador nos Estados Unidos do Comitê de Serviço dos Amigos Americanos, disse que a fronteira porosa há anos tem sido uma importante válvula de segurança para a estabilidade da economia mexicana, permitindo às autoridades eleitas a não criação de empregos e mesmo a não adoção de medidas legais para impedir a migração de cerca de 500 mil mexicanos ou mais por ano.

Os relatórios do governo indicam que a economia mexicana criou cerca de um décimo dos 1 milhão de empregos que necessita para acomodar a crescente força de trabalho do país. Enquanto isso, as remessas de dinheiro dos imigrantes -estimadas no ano passado em cerca de US$ 20 bilhões- se tornaram maiores do que os orçamentos de alguns Estados e municípios.

Se os mexicanos forem realmente confinados dentro de seu país, disse
Rodríguez, o México poderia ser forçado a colocar sua própria casa em ordem.

E se os trabalhadores ilegais ficassem confinados dentro dos Estados Unidos, disse Rodríguez, os Estados Unidos seriam forçados a lhes dar maiores direitos legais e a pagar o valor real de seu trabalho.

"Até agora", disse Rodríguez, "a política dos Estados Unidos tem sido não fechar a fronteira à imigração ilegal, mas desviá-la. E o desvio tem causado um número sem precedente de mortes, abusos e crime organizado". Construir ou não construir muros na fronteira? O debate nos Estados Unidos tem levado alguns mexicanos a pensarem que não é uma má idéia George El Khouri Andolfato

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