UOL Notícias Internacional
 

26/05/2006

Com aprovação de projeto de lei de imigração no Senado, agora virá a parte difícil

The New York Times
Jim Rutenberg

em Washington
As negociações entre a Casa Branca e o Congresso, que se seguirão à aprovação no Senado, na quinta-feira (25/05), de um projeto de lei de imigração, poderão decidir não só como a nação confrontará o problema da imigração ilegal, mas também que espécie de conservadorismo o Partido Republicano carregará consigo até as eleições parlamentares deste ano e o período pós-eleitoral.

Seria o "conservadorismo compassivo" que Bush considera crucial para o futuro do partido, assinalando o apoio a um trecho do projeto de lei do Senado que daria à maioria dos imigrantes ilegais uma chance de se tornar legal? Ou aquele tipo de conservadorismo mais doutrinário defendido por grande parte dos membros do partido de Bush na Câmara; um conservadorismo que repele tudo o que soe a anistia aos imigrantes ilegais, e que procura criminalizá-los ainda mais?

A aprovação por 62 votos a 36 no Senado se constituiu em uma vitória para uma frágil coalizão bipartidária que agora será desafiada nas negociações com a Câmara. Enquanto o projeto de lei do Senado propõe uma segurança de fronteira mais rígida, a criação de um programa de trabalhadores convidados e um plano para dar a milhões de imigrantes ilegais uma chance de se tornarem cidadãos, caso atendam a determinados requisitos, o projeto da Câmara se focaliza em um controle mais estrito da fronteira.

Assim como ocorre com uma série de questões, especialmente no que diz respeito aos gastos federais no governo Bush, a questão da imigração revelou que os republicanos lutam para definir as suas bandeiras.

Como a influência de Bush entre os republicanos decresceu com os seus números nas pesquisas de opinião, o resultado da batalha intrapartidária depende em grande parte da liderança da Câmara, especialmente do presidente da Casa, Dennis Hastert, de Illinois, e do novo líder da maioria, John A. Boehner, de Ohio. Eles mantiveram as suas opções em aberto, mas nenhum dos dois manifestou qualquer entusiasmo por se inclinarem substancialmente em direção à posição do Senado.

As perspectivas de um acordo não são ajudadas pelo fato de a relação entre o governo e os líderes republicanos no Congresso estarem especialmente frias no momento, devido à possibilidade de que o Departamento de Justiça tenha extrapolado as suas atribuições constitucionais no último final de semana, ao invadir o gabinete de um membro do Congresso.

Bush deixou claro que deseja aprovar uma lei de imigração neste ano, e a sua habilidade para aglutinar o seu partido dividido quanto a essa questão pode ser o teste mais duro para determinar se ele ainda conta com força remanescente para impor qualquer agenda no restante do seu segundo mandato.

Hastert indicou que tem os seus limites quanto a atender aos desejos do presidente. Ele manifestou alguma receptividade às propostas de Bush no sentido de criar um programa de trabalhadores convidados, mas enfatizou que deseja que a repressão contra os imigrantes ilegais e seus patrões, além da segurança das fronteiras, sejam as prioridades do Congresso.

O fato de Bush ter investido tanto capital político em uma questão divisiva no seio do seu próprio partido - e durante um ano eleitoral no qual as perspectivas para os republicanos parecem ser particularmente sombrias - surpreendeu muitos conservadores.

"Está claro que Bush não está sintonizado com aquilo que, na minha opinião, se constitui atualmente na maioria dentro do Partido Republicano", declarou Bruce Bartlett, um crítico conservador do presidente que trabalhou para o governo do pai de Bush e de Ronald Reagan. "Ele está sendo atacado em vários programas de entrevistas com políticos, e eu fico me perguntando qual foi a sua motivação para agir de tal forma".

Bartlett disse acreditar que a questão seja tão cara a Bush que o presidente está disposto a arriscar uma ruptura com o seu partido para ver o seu plano, ou alguma versão próxima dele, se transformar em legislação.

Os assessores e aliados de Bush afirmam que o que está em jogo são as convicções pessoais do presidente. Mas eles também argumentaram em entrevistas que aqueles republicanos que têm feito pressões somente no sentido de criminalizar ainda mais os trabalhadores ilegais estão sendo míopes. Eles afirmam que a abordagem de Bush ampliará o partido de forma geral e, neste caso, fará com que os republicanos se tornem uma opção mais atraente para o número crescente de eleitores hispânicos.

"O Partido Republicano não pode ser um partido dominante sem que atinja as comunidades das minorias, especialmente os latinos", afirmou Matthew Dowd, estrategista da campanha de Bush em 2004, e que também trabalhou para os democratas.

Mas Dowd e outros reconhecem que o presidente e os congressistas republicanos terão que proceder com cautela ao tentarem promover uma reformar na imigração que legalize uma força de trabalho estrangeira, algo que é muito desejado pelos líderes empresariais no partido, ainda que tal medida faça cumprir estritamente a lei e feche a fronteira.

Alguns republicanos sugerem que a solução é abandonar a medida relativa à cidadania contida no projeto de lei do Senado, retendo porém o programa de trabalhadores convidados, o que era o foco da proposta original de Bush. Mas não se sabe se o Senado aceitaria tal meio-termo.

"Se tivermos a mistura correta de segurança de fronteira e um programa de trabalhadores convidados ou temporários, seremos capazes de contar com os conservadores mais tradicionais e, ao mesmo tempo, continuar obtendo votos dos hispânicos, conforme aconteceu nas duas eleições anteriores", disse Ed Gillespie, um lobista republicano que é um aliado próximo da Casa Branca.

Os assessores de Bush comparam tal estratégia àquela dos negociadores da questão de armamentos durante a Guerra Fria: primeiramente juntando os dois campos no que diz respeito àquelas questões quanto às quais existe acordo e, a seguir, passando as questões que os dividem.

Mas, até agora, todas as indicações são de que tão logo os negociadores passem da questão referente às segurança da fronteira, quanto à qual ambos os lados concordam, para aquela relativa aos trabalhadores convidados e à concessão de cidadania, à qual os deputados conservadores se opõem, não haverá acordo.

E não está claro até que ponto o presidente - que neste momento enfrenta o pior índice de popularidade do seu mandato - será capaz de se sobrepor aos parlamentares de linha dura que enfrentarão uma campanha dura no próximo outono.

Embora os aliados de Bush argumentem que aqueles que se opõem de forma mais ferrenha a tudo além da segurança de fronteira sejam a minoria do partido - e, na verdade, do país - o fato é que eles contam nas eleições. E essa gente está furiosa.

"Bush está enfrentando uma rebelião escancarada", advertiu Richard A. Viguerie, um consultor conservador que faz parte das falanges dos rebeldes. "E ele está determinado a empurrar pela goela abaixo dos conservadores algo que fará com que estes o abandonem em massa em 2006".

Com tantos deputados na Câmara concordando com a avaliação de Viguerie, é difícil acreditar que o presidente obtenha uma lei ampla de imigração antes do outono. Tal possibilidade gerou uma rodada frenética de discussões entre os republicanos no sentido de determinar se seria melhor adiar as negociações entre a Câmara e o Senado para depois das eleições.

Não existe um consenso nítido a respeito de como se proceder, mas poucos argumentam que um adiamento seria um bom negócio para Bush, que necessita demais de uma vitória imediata.

"Se ele adiar este processo, isto não resultará necessariamente na salvação da sua presidência", alerta William A. Galston, ex-assessor do presidente Clinton, e que atualmente é um pesquisador da Brookings Institution, uma organização de pesquisas de tendência liberal. "Mas se ele não fizer tal coisa, creio que perderá tudo, exceto o seu cargo". Danilo Fonseca

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