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27/05/2006

Arcelor comprará siderúrgica russa para impedir expansão da Mittal

The New York Times
Heather Timmons e James Kanter

em Luxemburgo
A Arcelor anunciou na sexta-feira (26/05) ter concordado em adquirir uma companhia siderúrgica da Rússia em um negócio que impedirá uma agressiva manobra da Mittal Steel Corporation no sentido de absorver a empresa russa, e resultará na criação do maior aglomerado de produção de aço do mundo.

Caso o negócio seja bem-sucedido, ele derrubará a Mittal do topo do setor siderúrgico, criando uma companhia enorme, com vendas de 46 bilhões de euros (US$ 59 bilhões) e uma produção anual de 70 milhões de toneladas.

"Uma fusão com a companhia russa Severstal foi uma escolha bem melhor para os nossos acionistas, já que tal combinação implicará na criação de valor e qualidade, e não de volume", explica Guy Dolle, diretor-executivo da Arcelor.

A Severstal é controlada por Aleksei Mordashov, um bilionário russo.

O diretor da Arcelor, Joseph Kinsch, afirmou que um negócio com a Severstal seria melhor do que um com a Mittal, empresa cujas raízes estão na Índia, porque Mordashov "é um europeu de verdade". A sede da Arcelor fica em Luxemburgo.

A Arcelor - que citou a articulação da Mittal como sendo um "catalisador" para que a empresa de Luxemburgo se empenhasse em adquirir a companhia russa - anunciou que provavelmente haverá uma votação de acionistas em junho e que, caso o negócio seja aprovado, a fusão será concluída até o final de julho.

Para a Arcelor, a participação de Mordashov, que se transformaria no maior acionista da empresa, pareceu representar uma alternativa a uma aquisição da companhia russa pela Mittal, cuja sede fica na Holanda, e que é controlada em grande parte por Lakshmi Mittal, um barão do aço da Índia, e a sua família.

Citando preocupações quanto à forma como a Mittal é administrada, a Arcelor procurou resistir à operação articulada pela empresa do magnata indiano, angariando o apoio dos governos de Luxemburgo e da França em uma batalha marcada por uma retórica estridente e por tentativas de articular defesas truculentas contra as manobras da concorrente.

A Mittal elevou o valor da sua proposta em dinheiro e ações na semana passada em 34%, para 25,8 bilhões de euros (US$ 32,9 bilhões), e se comprometeu a eliminar os direitos votantes preferenciais da família na nova companhia.

Mas as autoridades da Arcelor disseram na sexta-feira que a companhia tem muito mais em comum com a Severstal.

"Estamos bem mais próximas uma da outra porque somos manufatores de aço e devido às nossas origens", argumentou Kinsch. "Mordashov, assim como nós, cresceu neste ramo, muito próximo dos alto-fornos".

Kinsch acrescentou que Mordashov fala alemão e possui assentos em comissões européias. "Ele é um europeu autêntico".

A Mittal Steel criticou a manobra da Arcelor.

"Os acionistas da Arcelor estão sendo forçados a abrir mão do controle da sua companhia, e, ao mesmo tempo, lhes é negada uma recompensa", criticou a companhia. "Ao que parece, o comitê da empresa está manipulando os seus acionistas em proveito próprio".

Segundo os termos do acordo, Mordashov abriria mão do seu controle acionário de 89,6% sobre a Severstal, assim como da sua parcela de ações em uma siderúrgica italiana, a Lucchini, em favor da Arcelor, em troca de uma fatia acionária de 32% na nova companhia criada por aglutinação.

"Também contribuirei com 1,25 bilhões de euros para formar uma companhia que será de longe a líder mundial do mercado de aço", disse Mordashov em uma entrevista por telefone.

Com base nos preços quando do fechamento do mercado na última quinta-feira, um terço da Arcelor valeria 7,3 bilhões de euros. As ações da Arcelor caíram 3% na sexta-feira.

Um grupo de acionistas da Arcelor na França disse ter ficado "apavorado" com o negócio envolvendo a Severstal.

"A argumentação constante da Arcelor contra a Mittal foi no sentido de afirmar que o valor da proposta de aquisição não era transparente. Só que estamos agora na mesma posição", queixou-se ao "Dow Jones Newswires" Colette Neuville, presidente da Associação de Defesa dos Acionistas Minoritários.

Alguns analistas também questionaram o valor do negócio.

"Estou cético quanto a tudo isso", afirmou Alexander Branis, que gerencia US$ 2,5 bilhões em fundos russos para o Prosperity Capital, em Londres, segundo a "Bloomsberg News". "A Arcelor estava preparada para fazer tudo o que estivesse ao seu alcance para demolir a Mittal, e não creio que há muita lógica neste processo no que diz respeito à Severstal".

Embora ainda haja uma possibilidade de que a Mittal adquira a Arcelor, o novo plano de fusão reduz essa possibilidade, especialmente ao se levar em conta a recente história conturbada do Grupo Mittal com a Rússia, que, segundo os analistas, pode ter motivado as companhias russas a procurarem fechar um acordo com a Arcelor.

A Mittal venceu um leilão para a venda da usina siderúrgica Khryvorizhstal na Ucrânia, no segundo semestre do ano passado. A usina foi adquirida de um grupo parcialmente controlado pelo genro do ex-presidente do país, Leonid Kuchma, um aliado da Rússia. Poucos meses depois, a Rússia aumentou o preço do gás natural, prejudicando a lucratividade do investimento da Mittal.

Pouco depois disso, a Mittal solicitou uma reunião com o presidente da Rússia, Vladimir Putin, mas não foi atendida, segundo Sergei Markov, diretor do Instituto de Estudos Políticos, uma organização de pesquisas que possui vínculos com o Kremlin.

"A Mittal procurou conversar com Putin, mas Putin não quis conversa", desse Markov. "Agora existe uma certa rivalidade entre as autoridades russas e o grupo Mittal".

Além da questão política, as siderúrgicas russas possuem interesses empresariais legítimos em frustrar uma fusão entre a Arcelor e a Mittal: destruir um formidável rival em potencial que está em fase de gestação, afirma Richard Stevenson, um corretor do Grupo CentreInvest.

"O tamanho da Mittal e a amplitude das suas operações se constituem em uma ameaça a uma indústria russa não consolidada", explica Stevenson. "Eu creio que o fator primário de motivação implícito nesta medida é ganhar algum tempo para que a indústria siderúrgica russa se consolide".

"Não acredito que seja uma reação emocional e petulante", acrescentou ele. "O grupo siderúrgico Mittal é uma organização extremamente bem-sucedida nos mercados emergentes. O seu sucesso no Cazaquistão e na Ucrânia podem ter despertado certas pessoas na Rússia para que façam o mesmo aqui e em outros países".

O jornal econômico russo "Vedomosti" anunciou na sexta-feira que Mordashov se certificou de que o Kremlin aprovava a operação. Segundo o jornal, ele se reuniu na semana passada com Putin, que indicou que a estratégia da Severstal para expandir as suas operações mundiais coincide com as iniciativas da Gazprom, a empresa estatal que detém o monopólio da exploração e distribuição de gás na Rússia.

Em troca do investimento, Mordashov deverá ser um presidente não executivo, com o direito de escolher seis dos 18 membros da diretoria da Arcelor, e de acrescentar executivos da Severstal à equipe gerencial.

Mordashov concordou também em não ampliar a sua participação acionária na Arcelor durante quatro anos, e em não se desfazer das suas ações da companhia por um período de cinco anos. Danilo Fonseca

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