UOL Notícias Internacional
 

27/05/2006

EUA poderão negociar questão nuclear diretamente com o Irã

The New York Times
Steven R. Weisman*

em Washington
O governo Bush está começando a discutir a possibilidade de descartar um prolongado tabu na área de política externa e abrir conversações diretas com o Irã, com o propósito de contribuir para a contenção de uma crise causada pela suspeita da existência de um programa nuclear iraniano, afirmaram na sexta-feira autoridades européias e norte-americanas que mantém contato próximo com a Casa Branca.

As autoridades européias que têm mantido contato com o governo nas últimas semanas disseram que a discussão estava se aquecendo, enquanto a secretária de Estado, Condoleezza Rice, trabalhava com os principais ministros das Relações Exteriores europeus no sentido de persuadir o Irã a suspender o seu programa de enriquecimento de urânio.

Os líderes europeus não ocultaram o seu desejo de que os Estados Unidos participem das negociações com o Irã, no mínimo para demonstrar que Washington fez o possível para evitar uma confrontação que poderia sofrer uma escalada, transformando-se em uma batalha pela aplicação de sanções ou até mesmo por ações militares.

Mas desde a revolução iraniana de 1979 e a crise de 1979 a 1981, motivada pela tomada de reféns norte-americanos, os Estados Unidos evitam conversações diretas com o Irã. Houve contatos esporádicos entre norte-americanos e iranianos durante a guerra com o Afeganistão, nos estágios iniciais da guerra do Iraque e nos dias que se seguiram ao terremoto em Bam, no Irã, no final de 2003.

As autoridades européias afirmam que Rice começou a discutir o assunto com assessores graduados do Departamento de Estado. Segundo eles, a secretária acredita que o problema acabará tendo que ser enfrentado por autoridades do setor de segurança nacional, caso as conversações com o Irã permaneçam estancadas em um impasse, ou mesmo se houver algum progresso.

Mas outros que conhecem bem a secretária dizem que ela está resistindo, por acreditar que a demonstração de disposição para conversar revelaria fraqueza e prejudicaria as delicadas negociações com a Europa. Rice também temeria que o governo pudesse acabar fazendo muitas concessões ao Irã, caso houvesse negociações.

Autoridades do governo norte-americano dizem que, no passado, o presidente Bush, o vice-presidente Dick Cheney e o secretário de Defesa, Donald H. Rumsfeld se opuseram a conversações diretas, mesmo por meio de canais informais. Como resultado, várias autoridades européias afirmam duvidar que seja provável uma decisão afirmativa no curto prazo.

A perspectiva de conversações diretas entre os Estados Unidos e o Irã é tão politicamente sensível dentro do governo Bush que as autoridades que descreveram o debate emergente só concordaram em falar sobre tal assunto após a reportagem garantir-lhes o anonimato. Entre essas autoridades estão representantes de vários países europeus, assim como norte-americanos que disseram ter discutido a questão recentemente com pessoas que fazem parte do círculo interno do governo Bush. Algumas dessas autoridades deixaram claro que defendem as negociações diretas entre os Estados Unidos e o Irã.

Autoridades do Departamento de Estado se recusaram a falar sobre o assunto, mesmo quando lhes foi garantido o anonimato. Mas, no decorrer da última semana, porta-vozes do governo tiveram cuidado em não descartar a possibilidade de negociações futuras com o Irã.

A discussão sobre possíveis contatos dos Estados Unidos com o Irã não foi alimentada apenas pelos europeus, mas também por um coro crescente de outras partes que possuem vínculos com a Casa Branca e que se pronunciaram em favor de tais negociações.

O ex-secretário de Estado, Henry A. Kissinger, em uma recente coluna no jornal "The Washington Post", aventou a possibilidade de que a mal-redigida carta do presidente Mahmoud Ahmadinejad ao presidente Bush - desprezada por Rice como um texto ofensivo - pudesse ser encarada como uma oportunidade para contatos abertos entre os dois países.

Tanto Richard Haass, presidente do Conselho de Relações Exteriores e ex-assessor do secretário de Estado, Colin L. Powell, quanto Richard L.
Armitage, que foi vice-secretário de Estado durante a gestão Powell, defenderam as negociações com o Irã.

"A diplomacia é muito mais do que apenas conversar com os seus amigos", disse Armitage em uma entrevista por telefone. "É preciso que falemos com indivíduos que não são nossos amigos e até com gente de quem não gostamos. Certas pessoas no governo acham que a diplomacia é um sinal de fraqueza. Na verdade, ela pode demonstrar que somos fortes".

Armitage articulou as últimas discussões de autoridades graduadas com o Irã, após o terremoto de Bam. Em novembro de 2004, Powell sentou-se ao lado do ministro iraniano das Relações Exteriores em um jantar durante uma conferência iraquiana no Egito, mas disse que só conversou com o ministro sobre trivialidades.

Os Estados Unidos têm permanecido à margem das negociações com o Irã, que tiveram início no final de 2004 e adquiriram um novo ímpeto em meados do ano passado quando, com o apoio de Washington, os europeus se ofereceram para ajudar o Irã a se integrar política e economicamente com o Ocidente caso Teerã abandonasse as suas ambições nucleares.

Da mesa de negociações dos europeus constavam também garantias de segurança não especificadas sugerindo que o Irã não teria que se preocupar com esforços externos para derrubar o governo do país.

Atualmente os europeus estão trabalhando conjuntamente com Estados Unidos, Rússia e China em um pacote reformulado de incentivos no campo econômico, político e da energia nuclear a ser implementado caso o Irã encerre as suas atividades de enriquecimento de urânio. Também está sendo buscado - pelo menos pelos europeus e pelos Estados Unidos - um acordo para submeter o Irã ao Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU), caso o país continue a desprezar as demandas relativas à questão nuclear.

Autoridades européias afirmam que as discussões sobre possíveis contatos entre Estados Unidos e Irã não fazem parte dessas conversações. Em vez disso, os europeus estão pedindo a Washington que reconsidere a sua posição como forma de melhorar o clima das negociações com o Irã.

Entre os diplomatas europeus que pediram a Rice que avaliasse a possibilidade de manter contatos diretos com o Irã está o ministro das Relações Exteriores da Alemanha, Frank Walter Stenmeier, assim como o ministro das Relações Exteriores da União Européia (UE), Javier Solana. A chanceler alemã, Angela Merkel, abordou a questão com o presidente Bush ao visitar Washington no início deste ano.

"O que é interessante com relação a Rice é o fato de ela ouvir quando apresentamos a nossa proposta", disse uma autoridade européia. "Ela não é feita de pedra ou gelo. Posso assegurar que presenciamos uma evolução na sua forma de pensar".

Mas um diplomata europeu observou: "A concretização dessas negociações é uma aspiração européia, mas o simples fato de desejar tais negociações não fará com que elas se materializem. No momento, o provável é que não aconteça nada".

Um outro diplomata europeu afirmou: "Todos têm aconselhado aos norte-americanos que negociem".

Segundo vários diplomatas, um dos motivos pelos quais os norte-americanos não apreciam a idéia de conversar com o Irã é o fato de não estarem certos de que os líderes iranianos responderiam positivamente a tal iniciativa. Segundo os diplomatas, uma recusa por parte do Irã, ainda que por canais não oficiais, é algo que deve ser evitado a todo custo.

O governo norte-americano, por exemplo, se sentiu embaraçado pelas possibilidades intermitentes de conversações mais estreitas com o Irã sobre o Iraque, que foram autorizadas pela secretária Rice no final do ano passado. O embaixador dos Estados Unidos no Iraque, Zalmay Khalilzad, foi informado de que poderia dar início ao diálogo, mas o Irã continuou se recusando a conversar.

Atualmente Khalilzad diz que procurará novamente negociar, tão logo um governo esteja plenamente formado no Iraque, com todos os ministérios preenchidos. Outros dizem que o governo não está plenamente convicto de que o fato de Khalilzad manter contato com qualquer pessoa no Irã seja uma boa idéia.

Segundo eles, teme-se que o fato de se conversar com o Irã apenas sobre o Iraque venha a enfurecer os dissidentes iraquianos sunitas, reforçando a insurgência liderada por estes e aumentando o status dos iraquianos xiitas, cujos vínculos fortes com o Irã provocam nervosismo em Washington.

Por outro lado, Khalilzad estaria ansioso por contar com o Irã para ajudar a negociar com as milícias xiitas apoiadas por Teerã, que são acusadas de promover assassinatos e seqüestros de sunitas no Iraque.

Não parece haver consenso sobre como os Estados Unidos poderiam viabilizar tal contato com o Irã. Alguns europeus são favoráveis à participação dos Estados Unidos nas negociações entre a Europa e o Irã, pelo menos no decorrer do processo. Outros aventam a possibilidade de que haja contatos informais por meio de organizações não governamentais ou institutos políticos.

As conversações a respeito de incentivos e de possíveis sanções contra o Irã deverão ser o foco de negociações entre os Estados Unidos e as nações européias nos próximos dias e semanas. Várias autoridades dizem que houve progresso, mas que ainda não existe uma concordância final com relação a uma vasta gama de questões.

Os Estados Unidos estão resistindo ao desejo dos europeus de aumentar os incentivos econômicos ao Irã, já que isso envolveria um fim das sanções norte-americanas às empresas européias que ajudassem Teerã. Ao mesmo tempo, a Rússia e a China resistem à idéia de buscar uma nova resolução junto ao Conselho de Segurança da ONU que poderia ser vista como uma abertura do caminho rumo a sanções ou a uma possível ação militar contra o Irã.

*David E. Sanger contribuiu para este artigo Danilo Fonseca

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