UOL Notícias Internacional
 

28/05/2006

Presidente do Irã ofusca clérigos enquanto consolida o poder

The New York Times
Michael Slackman*
Em Teerã, Irã
O presidente Mahmoud Ahmadinejad está tentando consolidar o poder da presidência de uma forma nunca vista antes nos 27 anos de história da Republica Islâmica, aparentemente com aprovação tácita do líder supremo do Irã, segundo funcionários do governo e analistas políticos daqui.

Tal unidade rara da liderança eleita e religiosa nas esferas mais altas de poder oferece aos Estados Unidos uma oportunidade de conversar com um governo, mesmo que combativo, que freqüentemente falava com múltiplas vozes com objetivos contrários.

Mas se os Estados Unidos, que cortaram relações com o Irã após a revolução de 1979, vierem a abrir tal diálogo, isto poderia aumentar o prestígio do presidente iraniano, que tem estimulado um confronto com o Ocidente.

Analistas políticos e pessoas ligadas ao governo daqui dizem que Ahmadinejad e seus aliados estão tentando reforçar um sistema de governo religioso conservador que perdeu sua credibilidade junto à população. A estratégia deles busca tentar obter concessões do Ocidente ao programa nuclear do Irã e abrir conversações diretas, de alto nível, com os Estados Unidos, reduzindo ao mesmo tempo as restrições sociais, reprimindo a dissensão política e construindo uma nova classe política fora do clero.

Ahmadinejad está expandindo os limites estabelecidos por outros presidentes. Pela primeira vez desde a revolução, um presidente ofusca o clérigo chefe do país, o líder supremo, o aiatolá Ali Khamenei, tanto em assuntos domésticos quanto internacionais.

Ele retirou o ex-presidente, Mohammad Khatami, de seu gabinete, assumiu o controle de uma organização chave de pesquisa de outro ex-presidente, Ali Akbar Hashemi Rafsanjani, desafiou clérigos importantes no tratamento dado às mulheres e forçou a saída de acadêmicos importantes do sistema universitário.

"O Parlamento e o governo devem combater funcionários ricos", disse Ahmadinejad em um discurso perante o Parlamento, no sábado, que novamente parecia dirigido aos pilares de sustentação do status quo. "Os ricos não devem ter influência sobre autoridades importantes por causa de sua riqueza. Eles não devem impor suas exigências em detrimento das necessidades dos pobres."

Neste sistema teocrático, onde líderes religiosos nomeados detêm o poder máximo, a Presidência é uma posição relativamente fraca. Nas múltiplas camadas de poder que obscurecem o governo do Irã, ninguém sabe ao certo onde as decisões finais estão sendo tomadas. Mas muitos dos que estão observando quase não acreditam na velocidade e agressividade com que o presidente está buscando acumular poder, presumindo que esteja agindo com pleno apoio do aiatolá Khamenei.

"Normalmente o líder supremo estaria na dianteira de todas as questões internas e externas", disse Hamidreza Taraghi, o diretor político do fortemente conservador Partido da Coalizão Islâmica. "Aqui nós temos o presidente à frente de todas estas questões e contando com o apoio do líder supremo."

Ahmadinejad está empregando uma estratégia arriscada, que poderia lhe render uma chance de influência a longo prazo na direção do país -ou a ruína. Ele parece motivado, ao menos em parte, pelo reconhecimento de que depender de clérigos para servir como face pública do governo tem minado a credibilidade de ambos, disseram analistas daqui.

A mudança na paisagem política doméstica do Irã tem implicações potencialmente extensas para os Estados Unidos. Apesar de o Irã ter adotado uma abordagem de confronto em relação ao Ocidente, ele também sinalizou -mesmo que desajeitadamente- um desejo de reparar as relações.

Apesar do conteúdo da carta de Ahmadinejad ao presidente Bush ter sido amplamente ridicularizado aqui e em Washington por seu foco religioso e tom de sermão, ela funcionou bem junto aos líderes religiosos mais conservadores do Irã. Analistas daqui disseram que ela representou tanto a independência de Ahmadinejad quanto sua posição de mensageiro do sistema, e que o próprio ato de buscar contato foi significativo.

"Se os Estados Unidos mantivessem relações com o Irã sob o governo reformista, elas não seriam relações completas", disse Alireza Akhari, um general aposentado da Guarda Revolucionária e ex-vice-ministro da Defesa, se referindo ao governo de Khatami. "Mas se pode haver uma détente agora, isto significa que todo o país está por trás das relações com o Ocidente."

Ahmadinejad está tentando superar os desafios enfrentados pelo Irã, desafios que poderiam minar sua presidência e o controle conservador. A economia está em frangalhos, o desemprego está crescendo e o novo presidente fracassou até o momento em cumprir sua promessa de alívio econômico para os pobres. Tensões étnicas estão crescendo por todo o país, com protestos e ataques terroristas no norte e no sul, e os estudantes têm promovido protestos nas universidades.

Os críticos de Ahmadinejad -e há muitos- dizem que a população se voltará contra ele caso não consiga melhorar suas vidas, e logo. No final, poderá ser impossível superar estes problemas ao mesmo tempo em que se forma uma nova elite política, disseram muitas pessoas daqui.

"A questão real aqui é que agora temos um governo sem experiência em dirigir um país e em lidar com a política externa", disse Hasser Hadian, um professor de ciência política da Universidade de Teerã e amigo de infância do presidente.

Ahmadinejad, que foi eleito em junho do ano passado, adotou uma estratégia ideologicamente flexível. Ele tem pedido pela restauração dos valores conservadores da Revolução Islâmica, mas ao mesmo tempo tem relaxado a aplicação dos rígidos códigos sociais islâmicos nas ruas. Durante a primavera, quando o tempo esquenta, as mulheres jovens costumavam ser importunadas pelos vigilantes conhecidos como "basiji" pela forma como se vestiam, mas não neste ano. Mais música parece disponível nas lojas do que no passado -mudanças pequenas mas notáveis, disseram pessoas daqui.

Se há um tema consistente em suas ações, é o conceito de buscar justiça, refletindo uma característica central do Islã xiita. Em termos mais temporais, sua estratégia parece ser de duas frentes: reforçar seu apoio entre os linhas-duras com fortes ataques a Israel e ao Ocidente, por exemplo, ao mesmo tempo que busca satisfazer a sociedade cansada das mudanças sociais e econômicas na vida da república islâmica.

"Ele está remodelando a identidade da elite", disse um professor de ciência política em Teerã, que pediu para não ser identificado para que isto não afete suas relações estreitas com funcionários do governo. "Ser contra judeus e sionistas é uma parte essencial desta nova identidade."

Ahmadinejad tem tido muito mais liberdade de manobra do que seu antecessor, Khatami, cujo movimento por mudanças assustou os líderes religiosos do país. Em vez de ter que provar sua lealdade ao sistema, Ahmadinejad recebeu -ou tomou- a oportunidade de tentar acalmar as ruas. Talvez mais surpreendentemente, o homem que diziam que queria segregar homens e mulheres nos elevadores e até mesmo nas calçadas, despontou como um defensor improvável dos direitos da mulher, desafiando alguns dos líderes religiosos mais poderosos do país.

"Eu acredito que o governo de Ahmadinejad será o mais secular que tivemos desde o início da revolução", disse Mahmoud Shamsolvaezin, um jornalista e analista político. "O governo não é secular com pensamento secular. Ahmadinejad é um homem muito religioso. Mas o governo reconhece que não tem escolha, isto é o que a população exige."

Ahmadinejad pediu pela permissão da entrada de mulheres nos estádios, em uma tentativa de reverter uma proibição pós-revolução, na qual os líderes religiosos decretaram que as arenas esportivas não eram um ambiente apropriado para mulheres. Quatro grão-aiatolás fizeram objeção à sua decisão, mas ele recuou apenas quando o líder supremo interveio. Mas mesmo assim Ahmadinejad disse que estava apenas suspendendo a decisão, não a cancelando.

Mais significativo, durante a discussão da questão do estádio, o presidente defendeu as mulheres de uma forma que o coloca de fora do discurso islâmico conservador predominante, mesmo além das fronteiras do Irã.

"Infelizmente, sempre que se fala em corrupção social, os dedos são apontados para as mulheres", disse Ahmadinejad, em comentários que, para um líder desta sociedade, foram inovadores. "Os homens também não deveriam ser responsabilizados pelos problemas?"

* Nazila Fathi contribuiu com reportagem para este artigo. Apesar de o Irã ter adotado uma abordagem de confronto em relação ao Ocidente, ele também sinalizou -mesmo que desajeitadamente- um desejo de reparar as relações George El Khouri Andolfato

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