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30/05/2006

Inglaterra se prepara para sofrer com otimismo cauteloso

The New York Times
Sarah Lyall

em Londres
Será que o pé quebrado de Wayne Rooney melhorará a tempo das oitavas-de-final? Será que Sven-Goran Ericksson, o lacônico técnico sueco, unirá seus jogadores nervosos e egotistas? Será que Melanie Slade, a namorada de 17 anos do atacante Theo Walcott, também de 17 anos, sucumbirá à pressão de ver sua figura e senso de moda dissecados diariamente pelos tablóides?

Estas são as perguntas que estão consumindo a seleção inglesa antes da Copa do Mundo, que terá início em 9 de junho na Alemanha e cujo resultado ou aumentará, ou destruirá, o frágil senso de valor próprio de todo um país. Em meio à novela que é o futebol aqui -as grandes personalidades, os salários ainda maiores, os apetrechos, as lesões, os acessos de raiva, as expectativas- se encontra uma verdade dura: a Inglaterra, apesar de toda a badalação, só venceu o torneio uma vez, em 1966.

Isto foi há 40 anos, quando Harold Wilson era o primeiro-ministro e o xelim era uma moeda válida. Desde aquele grande dia, os torcedores ingleses foram forçados a conter suas expectativas, tratando cada Copa do Mundo com a esperança frágil dos cronicamente decepcionados.

"Eles sempre inventam novos argumentos para se persuadirem de que desta vez conseguirão, quando forma e lógica mostram que é altamente improvável", disse John Carlin, um escritor britânico de futebol e autor de "White Angels: Beckham, Real Madrid and the New Football". Descrevendo a importância do futebol para a Inglaterra, Carlin citou Bill Shankly, o falecido técnico do Liverpool: "Algumas pessoas acreditam que o futebol é uma questão de vida ou morte. Eu estou muito decepcionado com tal postura. Eu posso lhe assegurar que é muito, muito mais importante que isto".

O futebol aqui é um circo com três picadeiros, um zoológico, uma metáfora, um modo de vida. Como resultado, o retrospecto indiferente da Inglaterra no evento vitrine do esporte exige que seus torcedores realizem um ato arriscado de equilibrismo de quatro em quatro anos, mantendo simultaneamente duas noções concorrentes em suas cabeças.

Um: Este será o ano em que a seleção finalmente atingirá seu enorme potencial e vencerá.

Dois: Sua seleção nunca vencerá.

Neste ano, a ansiedade crônica da Inglaterra é somada a dois fatores. O
primeiro é que a Copa está sendo jogada na Alemanha, lar de sua maior rival e causadora de algumas de suas maiores derrotas. Em 1990, a Inglaterra perdeu um jogo doído para a Alemanha nos pênaltis, na semifinal da Copa do Mundo da Itália. Seis anos depois, a Inglaterra, o país sede, perdeu novamente nos pênaltis na semifinal da Eurocopa de 1996. (Na verdade, após a vitória de 4 a 2 da Inglaterra na prorrogação sobre a Alemanha, na final de 1966, foram necessários 24 anos -até a vitória por 1 a 0 na Eurocopa de 2000- para que a Inglaterra derrotasse os alemães em uma grande competição.)

O segundo problema é o pé de Wayne Rooney. Rooney, o prodígio com rosto de batata que saiu das ruas de Liverpool para se tornar um astro do Manchester United, é o marcador de gols mais talentoso da Inglaterra e sua maior esperança. Mas, no mês passado, ele quebrou desastrosamente o metatarso do pé direito e na sexta-feira foi vetado dos jogos da primeira fase.

Todo dia há relatórios conflitantes, especulação angustiante, esperança à beira do desespero. O técnico de Rooney no Manchester, Alex Ferguson,
descreveu como "tolice" e "sonho" esperar que Rooney esteja disponível,
enquanto Eriksson, o técnico da seleção, disse estar "muito otimista" de que Rooney jogará a certa altura. Mas o colega de equipe de Rooney, Gary Neville, que levou 21 semanas para se recuperar de uma lesão semelhante, disse neste mês que "como está, nós temos um plano para o caso de Wayne não estar disponível".

(Na segunda-feira, Eriksson pediu que um exame do pé lesionado de Rooney fosse adiado em uma semana, para 7 de junho, presumivelmente para lhe dar a oportunidade de substituir Rooney na lista dos convocados da Inglaterra caso o atacante não possa jogar o torneio. As equipes podem substituir jogadores lesionados até 24 horas antes do primeiro jogo, que no caso da Inglaterra será contra o Paraguai, em 10 de junho.)

Enquanto isso, Eriksson deixará o cargo após a Copa do Mundo, o que lança a equipe em uma instabilidade ainda maior. Um sueco aparentemente inofensivo, até mesmo enfadonho, Eriksson é conhecido tanto por sua vigorosa vida amorosa -seu relacionamento curioso com Nancy Dell'Ollio, sua namorada de idade indeterminada, bronzeado permanente e roupas apertadas, assim como seus casos com várias outras mulheres, todas contentes em discuti-los publicamente- quanto pela calma serena de seus comentários e por seu talento como técnico, ou falta de.

A busca por um substituto foi embaraçosa. A principal opção, o brasileiro Luiz Felipe Scolari, técnico da seleção de Portugal e um homem que certamente sabe evitar tablóides, abandonou abruptamente as negociações em abril. Scolari ficou nervoso, ele disse, com os 20 repórteres britânicos que acamparam do lado de fora de sua casa e rudemente tocavam sua campainha enquanto ele jantava com sua família.

"Se isto faz parte de outra cultura, definitivamente não faz parte da minha", ele disse. "Eu não gosto desta pressão, então definitivamente não serei técnico da Inglaterra."

Não se sabe se esta realmente foi toda a história -e de qualquer forma, "a pressão nem mesmo tinha começado a segui-lo", escreveu Simon Hattenstone no jornal "The Guardian"- mas Scolari estava certo em ficar nervoso. Os jornais britânicos e revistas de fofocas, com nomes como "Hello!", "Ok!", "Heat", "More" e "Now", são obcecados com as vidas privadas da seleção.

Nenhum detalhe é pequeno demais, mundano demais ou lascivo demais, do
suposto caso entre o belo capitão da equipe, David Beckham, e sua
ex-assistente pessoal (ela vendeu a história, por centenas de milhares de dólares), à relativa falta de estilo e grau de celulite das jogadoras e namoradas dos jogadores; passando pela festa que Beckham e sua esposa, a ex-Posh Spice, promoveram há uma semana, na noite de domingo, em sua mansão no campo, conhecida como "Palácio de Beckingham".

Apesar de meses de planejamento e da contratação de uma grupo de gurcas para impedir a entrada de penetras, a festa "mal conseguiu ganhar vida após um catálogo de desastres", noticiou o "Daily Mail" com certo prazer. "Com seus sonhos sendo arruinados ao seu redor, Victoria Beckham teria tido um acesso de gritos."

Enquanto isso, disse o jornal, "o lesionado Rooney parecia mal-humorado e se recusava a acenar para os caçadores de autógrafos".

Tentando controlar a loucura da mídia, Steve McClaren, contratado como
substituto de Eriksson após a colapso das negociações com Scolari, disse a um jornal no domingo que teve um breve caso com sua
ex-secretária -apresentando ele mesmo a história para evitar ser incomodado por repórteres à procura de podres.

Porque, se houver algum podre, os repórteres ingleses encontrarão. Foi
grande notícia anos atrás quando uma festa de aniversário dada por Rooney para sua namorada, Coleen McLoughlin, se transformou em uma briga de bêbados, com os parentes do casal esmurrando uns aos outros na pista de dança. Foi grande notícia, ao menos no sentido fotográfico, quando o zagueiro Rio Ferdinand soltou as tranças que normalmente usa, revelando um cabelo rebelde ao estilo algodão-doce.

A emoção mais recente foi a decisão de Eriksson de convocar para a Copa do Mundo o talentoso atacante Walcott, uma eterna promessa que assinou com o Arsenal mas ainda não jogou nenhuma partida da Premier League.

"É uma grande aposta, eu sei que é", disse Eriksson, com atenuação
característica. "Eu estou empolgado em vê-lo. Ele é um grande talento."

Enquanto a equipe se prepara para suas últimas semanas de treinamento, ela está tentando apresentar uma imagem mais feliz. "Eu acho que venceremos", disse Eriksson recentemente. Evocando um paralelo esperançoso, o "Observer" de Londres descreveu a previsão como "lembrando o otimismo de sir Alf Ramsey, que previu a conquista da Copa do Mundo de 1966 pela Inglaterra no dia em que foi indicado para dirigir a equipe, três anos antes".

E Michael Owen, o atacante inglês, implorou para os torcedores não tratarem a seleção como "perdedores gloriosos".

"Se continuarem enfiando isto na cabeça de todos, nós seremos perdedores perenes", ele disse, "e não estarão nos fazendo nenhum favor, com certeza". George El Khouri Andolfato

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