UOL Notícias Internacional
 

30/05/2006

Polícia criticada em onda de violência de gangue no Brasil

The New York Times
Larry Rohter

em São Paulo
Os confrontos de rua entre a polícia e gangues de criminosos que deixaram ao menos 186 mortos e levaram esta metrópole de quase 20 milhões de habitantes a parar duas semanas atrás cessou, ao menos por enquanto.

Mas as recriminações contra a polícia e a forma como lidou com os ataques estão aumentando, alimentadas por indicações de que policiais revoltados teriam buscado vingança com uma onda de assassinatos de criminosos e civis inocentes.

"É barbaridade contra barbaridade, truculência contra truculência, poder de fogo contra poder de fogo", reclamou recentemente um grupo de 10 advogados e professores de direito proeminentes. "Por este caminho, só o caos será semeado."

A causa subjacente da onda de violência foi descrita por políticos, advogados e grupos de direitos humanos como a corrupção endêmica e a brutalidade das agências de polícia e presídios.

As gangues dependem por exemplo, de telefones celulares, que são proibidos na prisão. Mas as autoridades estimam que haja mais de 1.200 deles circulando nos presídios paulistas, contrabandeados por parentes e advogados com a cumplicidade dos agentes carcerários, mal pagos e dispostos a aceitar suborno.

A gangue que iniciou a violência -a pior da história desta cidade, que é a maior da América do Sul- foi uma grande rede de prisioneiros chamada de Primeiro Comando da Capital. Dias antes dos ataques, seu líder, Marcos Herbas Camacho, tinha obtido uma gravação de uma audiência a portas-fechadas do Congresso, na qual se discutiu um plano de remover 700 prisioneiros, inclusive ele, para uma unidade de segurança máxima a centenas de quilômetros da capital do Estado, na esperança de romper seu controle sobre dezenas de prisões do país.

Os líderes da gangue rapidamente reagiram, usando telefones celulares contrabandeados para organizar ataques a delegacias de polícia, patrulhas e bares freqüentados por policiais. Eles também determinaram o levante em vários presídios durante o final de semana do Dia das Mães.

Nas ruas, as forças policiais de São Paulo viram-se superadas. Depois de quatro dias de violência, as autoridades reuniram-se com Camacho e, de acordo com relatórios da polícia, fizeram suficientes concessões (aparentemente incluindo uma promessa de instalar mais televisores e deixar os prisioneiros assistirem aos jogos da Copa do Mundo no mês que vem) para que concordasse com um cessar-fogo.

Mas foi então que as unidades da polícia, enfrentando uma enxurrada de críticas por sua incapacidade de proteger os cidadãos, partiram para a ofensiva. O comandante da polícia militar, coronel Elizeu Teixeira Borges, anunciou: "A caça continua". Depois disso, várias dezenas de pessoas, a maior parte jovens rapazes de bairros pobres, foram mortas a tiros.

A polícia admitiu a responsabilidade por algumas das mortes, que teriam resultado de trocas de tiros ou por resistência à prisão. No entanto, parentes e testemunhas disseram que as vítimas não pertenciam a nenhuma gangue e que foram mortas indo ou voltando do trabalho, ou simplesmente executadas por grupos armados usando máscaras de ninja.

Algumas das mortes podem ter resultado de acertos de contas entre gangues rivais. No entanto, o inspetor de assuntos internos da polícia, Antonio Funari, disse que temia o ressurgimento de esquadrões da morte "com a participação suspeita de policiais."

De acordo com advogados e grupos médicos cujos membros viram alguns dos corpos, muitos tinham inúmeros tiros na cabeça, nas costas ou no coração e alguns também tinham ferimentos nas mãos que pareciam indicar que estavam tentando se defender. Algumas vítimas também tinham resíduos de pólvora, indicando que os tiros foram à queima-roupa.

A polícia inicialmente recusou-se a fornecer "boletins de ocorrência" ou até a tornar pública a lista dos nomes dos mortos. As autoridades também enterraram alguns dos mortos apressadamente, antes dos parentes verem os corpos. Os nomes e os relatórios oficiais foram finalmente entregues na noite de quinta-feira (25/5), mas apenas depois que os promotores ameaçaram acusar as autoridades policiais por obstrução de justiça.

"Houve uma falta de transparência e uma conjunção de coisas que nos preocupa. Há indicações de que os policiais foram liberados para agirem como quisessem, com o resultado previsível de agravamento da violência", disse Oscar Vilhena da Conectas, um grupo de direitos humanos.

Oficialmente, a contagem de mortos é de 186: 110 bandidos mortos pela polícia, 42 policiais, 18 presos e 16 outros cidadãos. No entanto, contagens paralelas de um importante jornal e grupo médico deram número significativamente maior: mais e 250.

As autoridades, indignadas, negam ter negociado uma trégua; o governador do Estado de São Paulo, Cláudio Lembro, considerou a sugestão "ofensiva": "Não negociamos com a bandidagem", disse. No entanto, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva resumiu as dúvidas e o assombro da população quando comentou que "parece que a polícia e os bandidos entraram num acordo".

Toda a crise, de fato, foi cheia de sinais de corrupção e incompetência. A gravação que Camacho obteve continha o testemunho de duas autoridades policiais convocadas para um inquérito das atividades criminais organizadas no Congresso, em Brasília. A sessão foi feita a portas fechadas para que as informações não vazassem para as gangues.

Mas um técnico de som do Congresso disse que, por cerca de US$ 100 (em torno de R$ 220), vendeu uma gravação do testemunho a um par de advogados que representava os líderes das gangues e que pouco depois o disco estava nas mãos de Camacho.

De acordo com os noticiários, as unidades de inteligência da polícia rapidamente captaram a intenção da gangue de criar o caos e advertiram as autoridades que uma ofensiva estava sendo preparada. Mesmo assim, cerca de 12.000 prisioneiros receberam passes para visitarem suas famílias no Dia das Mães. Muitos deles teriam participado dos ataques à polícia.

"Nossa avaliação é que houve traição e negligência por parte das autoridades com respeito a nós", reclamou Wilson de Oliveira Morais, chefe da associação dos policiais militares do Estado de São Paulo.

Em sua declaração, os 10 advogados proeminentes também pediram "a total reestruturação -de cima abaixo- do aparato repressor do Estado". É óbvio, disseram, "que sem a conivência de uma rede venal de funcionários do governo, com ramos que atingem os mais altos níveis, o crime organizado não teria a habilidade de acumular a força alarmante que demonstrou".

As autoridades carcerárias agora começaram uma campanha para eliminar a rede de telefones celulares nas prisões. Mas em vez de buscar e confiscar os telefones, elas desligaram as torres de comunicação em torno das prisões ou usaram técnicas de interferência eletrônica. Essa abordagem, porém, também suspende o serviço telefônico dos cidadãos que moram em torno das prisões, causando revolta.

Tais medidas, entretanto, aparentemente não afetaram Camacho. Uma rede de televisão e rádio obteve uma suposta entrevista com ele por telefone celular. Em sua cela de prisão de segurança máxima, poucos dias depois da trégua, ele fez advertências.

"Estamos preparados para muito mais e temos a capacidade para muito mais", disse a voz identificada como a de Camacho. As autoridades "declararam guerra", mas "esquecem que estão deixando a sociedade à mercê", acrescentou. "As duas partes têm poder de fogo; quem tem a perder são os que não pertencem a nenhuma das partes." Deborah Weinberg

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    15h19

    -0,52
    3,263
    Outras moedas
  • Bovespa

    15h28

    1,43
    73.551,23
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host