UOL Notícias Internacional
 

31/05/2006

Doença e fome são principais causas de morte enquanto guerra continua em Darfur

The New York Times
Lydia Polgreen

em Zam Zam, Sudão
As pernas do bebê estavam moles. As dobras da pele ficavam penduradas e mantinham o formato do beliscão do médico -sinal de desidratação.

Seu rosto brilhava de febre, o peito estreito arfava. Seus olhos leitosos mudavam de direção desesperadamente, em torno da tenda escura. Ele tinha um mês de idade, mas pesava menos de 2,3 kg.

Se essa criança, Mukhtar Ahmed, teve alguma sorte em sua curta vida, foi ter adoecido na semana passada e não daqui a um mês. Dentro de poucas semanas até mesmo o médico que está tratando dele pode ter ido embora.

A clínica de Sayid Obedi Bakhiet, uma das únicas duas neste vasto e esquálido campo de 35.000 refugiados do conflito na região de Darfur, no Oeste do Sudão, está sem dinheiro. Será forçada a fechar no final de junho, a não ser que a organização que a dirige, o Crescente Vermelho Sudanês, receba mais verbas, disse Bakhiet.

"O que acontecerá com essas pessoas quando eu for embora?" perguntou enquanto corria entre a onda de pacientes que atende -até 80 por dia, seis dias por semana. "Só Deus sabe."

A guerra brutal em Darfur gerou o que a Organização das Nações Unidas chamou de "a pior crise humanitária do mundo", uma prova de morte que parece ficar cada vez mais cruel, apesar do novo acordo de paz. No entanto, não são os tiros que mais matam as pessoas aqui agora. É a pneumonia que viaja pela poeira do deserto, a diarréia causada pela água suja, a malária levada pelos mosquitos para as tendas de palha sem mosquiteiros.

Ao menos 200.000 e talvez até 450.000 pessoas morreram como resultado direto do conflito em Darfur, de acordo com estimativas de organizações internacionais de saúde e direitos humanos, apesar de ninguém saber ao certo quantas mortes foram em combate e quantas de fome e doença causadas ou agravadas pela guerra.

Mas hoje em dia, a maior parte das pessoas morre porque não recebe atendimento médico, água limpa ou alimentos.

Organizações assistenciais locais e internacionais estão tentando evitar essas mortes, mas suas fileiras estão encolhendo. Elas cuidam de 2,5 milhões de refugiados com uma quantidade decrescente de doadores, especialmente porque a Europa, Ásia e Oriente Médio praticamente ignoraram Darfur. Além disso, eles trabalham sob restrições rígidas impostas pelas autoridades sudanesas e enfrentam ataques por combatentes que seqüestram seus veículos e ameaçam seus trabalhadores.

As condições são tão duras que o esforço enfrenta um amplo colapso, disse Jan Egeland, alto membro da ONU, ao Conselho de Segurança neste mês.

O acordo de paz tenta pôr fim à guerra em Darfur, na qual rebeldes em busca de autonomia e riqueza para esta região empobrecida lutaram contra o governo e suas milícias árabes aliadas. Mas o acordo não vai pôr fim à catástrofe tão cedo.

No campo de refugiados de Zam Zam, um centro de saúde da organização Médicos Sem Fronteiras fechou no início do mês e nenhuma outra organização internacional preencheu sua vaga.

A Cruz Vermelha espanhola, organização que coordena as poucas obras de caridade ainda no campo, está tentando freneticamente encontrar mais dinheiro para manter a clínica de Bakhiet, e está otimista que encontrará um doador.

A Cruz Vermelha está negociando com uma organização que concordou em tentar patrocinar a clínica, mas como outras em Darfur, está enfrentando uma redução do número de doadores e ainda não repassou o dinheiro, disseram os trabalhadores.

Enquanto isso, a clínica do Crescente Vermelho Sudanês está tentando prosseguir. Ela tem uma equipe reduzida trabalhando em meia dúzia de tendas de lona empoeiradas: um médico -Bakhiet- de 30 anos, duas enfermeiras, uma parteira, um farmacêutico e um técnico de laboratório. Para lidar com uma corrente sem fim de queixas, a clínica se concentra nos casos mais urgentes.

Bakhiet sabia imediatamente que Mukhtar precisava de atenção imediata. Com um fogo de pânico queimando em seus olhos, sua mãe, Mariam Ahmed, pressionava a criança nos braços do médico.

"Ele vomita tudo", disse ela. "Parece que não consegue respirar."

Bakhiet ouviu o peito em esforço do menino e abanou a cabeça.

"Pneumonia", disse ele.

Ele sentiu a moleira de Mukhtar. Estava afundada.

"Desidratação", acrescentou.

Mukhtar precisava receber soro por via intravenosa imediatamente, para se reidratar e para baixar a febre, além de um fluxo constante de antibióticos. Depois, precisava de um hospital onde pudesse ser cuidado 24 horas por dia. Bakhiet e sua equipe iam fechar às 2h.

"Se ele ficar no campo sem atenção médica, morrerá", disse o médico. "Depois de algumas horas, vai começar a ter convulsões."

Como não há serviço de ambulância, os pacientes que precisam ir ao hospital a 16 km de distância, em El Fasher, capital da província de Darfur do Norte, precisam pegar dois ônibus. Como cada trajeto custa mais de um dólar, está fora de questão para a maior parte das pessoas. Enquanto a enfermeira colocava a agulha na minúscula mão de Mukhtar, Ahmed despachou um parente para ver se alguém poderia ajudá-la a pagar a tarifa.

De uma perspectiva humanitária, as coisas estavam melhorando em Darfur até recentemente. "Em 2005 fizemos muitos avanços na redução da mortalidade infantil e da desnutrição", disse Egeland em recente entrevista. "Mas agora estamos vendo esses avanços retrocedendo."

De fato, os Médicos Sem Fronteiras fizeram planos para fechar a clínica de Zam Zam porque os habitantes estavam em melhor situação. Indicadores como mortalidade e desnutrição melhoraram a ponto de a situação não mais constituir uma emergência como definida pela organização.

Como a organização Médicos Sem Fronteiras se especializa em emergências, decidiu levar seu pessoal para outro lugar, segundo membros da organização. Eles buscaram um substituto para o campo de Zam Zam, mas com todas as agências trabalhando na região sem dinheiro, não encontraram ninguém para dirigir o centro.

Então, no mês passado, a Unicef disse que a desnutrição em Darfur estava voltando aos níveis de 2004, quando a crise estava no ápice. O Programa Mundial de Alimentos anunciou neste mês que ia cortar ao meio as rações para Darfur, porque tinha recebido apenas 32% dos US$ 746 milhões (aproximadamente R$1,5 bilhão) que precisava para alimentar Darfur.

Esses cortes em grande parte foram compensados, porque o governo sudanês liberou 20.000 toneladas de grãos de suas reservas estratégicas para Darfur, depois de fortes críticas. Vários carregamentos de grãos doados pelos EUA estão a caminho, e outros países fizeram doações depois dos cortes, mas levará meses para a comida chegar onde é mais necessária, disseram os funcionários das organizações de assistência.

Os atrasos custam caro. Quando começar a estação das chuvas, as estradas serão lavadas, e a comida precisará ser transportada por helicóptero. Enviar uma tonelada de alimentos por estrada custa em torno de US$ 300 (em torno de R$ 600), enquanto transportar por ar custa de três a cinco vezes mais caro.

Mas o dinheiro não é o único problema. A política vem prejudicando os esforços humanitários. Trabalhadores estrangeiros esperam meses para obter permissões e vistos do governo sudanês, e os que já estão aqui são forçados a pagar centenas de dólares a cada três meses para renovar seus vistos. Trabalhadores locais são intimidados por agentes de inteligência sudaneses, rebeldes e soldados do governo.

Membros de organizações de assistência foram seqüestrados ou mortos, e seus veículos com tração nas quatro rodas roubados por rebeldes e milícias árabes. Por causa desses problemas de segurança, até 750.000 pessoas em Darfur estão fora do alcance das organizações de assistência.

O ministro de assuntos humanitários do Sudão, Kosti Manyebi, disse aos repórteres em Cartum que novas regras para melhorar o acesso de organizações de assistência estavam sendo formuladas, mas não sabia quando entrariam em vigor.

Em Zam Zam, a mãe de Mukhtar estava tendo dificuldades para encontrar dinheiro para ir para El Fasher, e Bakhiet ficando nervoso. Ele tinha perdido um menino 10 dias, antes com uma combinação de doenças mortífera como a de Mukhtar e não agüentaria ver isso acontecer novamente.

Mukhtar teve seu segundo golpe de sorte: uma equipe da União Africana visitando o campo concordou em levar o bebê e a mãe para El Fasher, onde Mukhtar foi internado. O médico da sala de emergência que o examinou foi otimista cauteloso. Ele usou a frase árabe invocada constantemente neste lugar sem misericórdia: inshallah. Significa "se Deus quiser".

"Inshallah, ele vai viver", disse o médico.

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