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31/05/2006

Estados pedem que moradores se preparem para furacões

The New York Times
Abby Goodnough*

em Miami
Convencidas de que táticas duras são necessárias, as autoridades em Estados propensos a furacões estão fazendo alertas calamitosos sobre a temporada de tempestades que começa na quinta-feira, pregando autonomia e incitando a população a se preparar bem e com antecedência.

As cidades estão circulando listas de preparativos para tempestade, os condados estão realizando exposições sobre furacões em shopping centers, e os Estados estão oferecendo estímulos como inspeções residenciais gratuitas e isenção fiscal para suprimentos de tempestade, na esperança de estimular a preparação.

Mas a principal estratégia, ao que parece, é assustar grande parte da população que, disseram autoridades de emergência, continuam indiferentes mesmo após a temporada de tempestades recorde do ano passado.

Para persuadir os moradores a atenderem as ordens de evacuação, a Divisão de Gestão de Emergências da Flórida está transmitindo anúncios de utilidade pública com gravações de telefonemas ao número 911 (o 190 americano) feitos durante o furacão Ivan, em 2004.

"O teto está desmoronando sobre nós", grita uma mulher enquanto entra uma música assustadora, apenas para ser informada que as equipes de resgate não podem sair durante a tempestade.

"Nós vamos ficar martelando isto insistentemente", disse Graig Fugate, o diretor de gestão de emergência da Flórida, sobre as táticas em uma coletiva de imprensa em Tallahassee, na semana passada.

Esta abordagem "salvem-se a si mesmos" ocorre depois que as agências do governo foram sobrecarregadas por pedidos de ajuda após as tempestades do ano passado, e atacadas por não terem respondido rapidamente ou suficientemente às necessidades da população. Agora, as autoridades têm informado repetidamente, apenas os idosos, pobres e inválidos devem contar com ajuda do governo para escapar de um furacão ou suportar suas conseqüências imediatas.

O Mississippi, onde 238 pessoas morreram no furacão Katrina, lançou a campanha "Permaneça Alerta. Permaneça Vivo" de conscientização de furacão em abril. As autoridades estaduais disseram aos moradores o que levar em um "kit" para evacuação (lanterna, rádio, abridor de lata não elétrico) e, como muitas outras, ordenaram que estoquem água e comida para pelo menos três dias.

Horry County, Carolina do Sul, onde fica Myrtle Beach, realizou uma exposição de furacão no mês passado e está promovendo apresentações semelhantes em clubes e associações de moradores.

"O grande fracasso é a complacência da comunidade", disse Randall Webster, diretor da Gestão de Emergência de Horry County. "Nosso tema principal é: 'Se interesse como indivíduo e faça os preparativos'."

Mas funcionarão? As autoridades de gestão de emergência lamentaram os
resultados de uma pesquisa realizada neste mês pela Mason-Dixon Polling and Research, Inc., que apontaram que dos 1.100 adultos entrevistados nos Estados do Atlântico e da Costa do Golfo, 83% não tomaram nenhuma medida para fortificar suas casas neste ano, 68% não tinham kit de sobrevivência para furacão e 60% não tinham nenhum plano para desastre.

"Eu não posso dizer que vejo uma maior preparação por parte das pessoas", disse Larry Gispert, diretor de gestão de emergência em Hillsborough County, Flórida, onde fica Tampa. "É como uma questão psicológica -'Se eu não pensar em coisas ruins, coisas ruins não vão acontecer'."

Em Nags Head, Carolina do Norte, Jimmy Austin, um ex-pescador comercial que trabalha no mercado de frutos do mar, disse estar inabalado com as previsões para este ano, algumas das quais sugerindo que as Carolinas serão atingidas duramente. Ele mantém sua conta de seguro, ele disse, mas não vê necessidade de precauções especiais.

"Eu não dou muita atenção para estas coisas", disse Austin, 69 anos, natural de Outer Banks. "O fato de dizerem não significa que vai acontecer dessa forma."

Em Galveston, Texas, Keith Patterson, que mora lá há 30 anos, desdenhou a necessidade de um kit de sobrevivência para furacão enquanto esperava no ponto de ônibus na quinta-feira. Não é necessário se preocupar com um furacão até que esteja perto, ele disse.

"Quando um estiver chegando, eu farei os preparativos", disse Patterson, 68 anos, um funcionário de compras aposentado. "Eu então comprarei o que for preciso."

Na Flórida, o segundo feriado fiscal anual para suprimentos para furacão, de 21 de maio até 1º de junho, não atraiu uma grande resposta, disseram vários representantes de lojas. Mas pelo menos uma loja, a Lowe's, em South Fort Myers, vendeu mais geradores do que churrasqueiras na semana passada, disse John Sandford, um gerente de operações.

Em um Home Depot, Brenda e Jerry Dyche de South Fort Myers estavam comprando um gerador na última quarta-feira. Com aquilo e um novo telhado, eles disseram, eles não teriam motivo para fugir em caso de uma tempestade vir em sua direção.

"Nós preferimos ficar em nossa casa", disse Dyche. "Para onde iríamos? A Interestadual-75 se transforma em um estacionamento quando todos deixam a cidade."

Da mesma forma, Ronda Burke, que enfrentou o furacão Rita no ano passado para cuidar de seus dois restaurantes de comida saudável, o Naturally's, em South Padre Island, Texas, disse que provavelmente fará o mesmo neste ano se for necessário.

"Nós nos importamos tanto com nossa loja quanto por uma pessoa", disse
Burke, cujo marido levou os dois filhos pequenos do casal para um local mais elevado durante o furacão Rita, que terminou atacando mais ao leste. "Nós provavelmente o enfrentaríamos de novo."

Enquanto isso, as agências do governo estão estocando água e alimentos,
melhorando a tecnologia de comunicação e instalando sistemas de
posicionamento global em caminhões de suprimentos (alguns se perderam a
caminho das zonas de tempestade no ano passado).

Hattiesburg, Mississippi, está comprando US$ 4 milhões em geradores para assegurar que seus prédios públicos e sistema de abastecimento de água continuem operacionais. Broward County, Flórida, comprou um posto de comando móvel de US$ 500 mil para transporte dos gestores de emergência nos locais de crise.

Muitas áreas oferecerão mais abrigos para furacão neste ano, apesar de
autoridades como Herminio Lorenzo, o chefe do corpo de bombeiros de
Miami-Dade County, estar tratando o assunto de forma pessimista para
encorajar as pessoas a fazerem seus próprios planos.

"O último lugar para o qual você gostaria de ir é o abrigo da Cruz Vermelha", disse Lorenzo em uma reunião comunitária para preparativos para furacão na semana passada. "Você estará tão próximo da pessoa dormindo ao lado que poderá sentir o pelo do bigode dela roçando em sua cabeça."

Algumas comunidades estão coagindo a população a se prepararem aos poucos, como guardar garrafas de leite velhas como recipientes de água de emergência e comprar uma lata de comida extra a cada ida ao mercado. Escambia County, Flórida, está publicando listas de compras semanais para que os moradores montem estoques aos poucos. Martiza Vazquez, de Miami, disse que tal abordagem torna os preparativos mais fáceis.

"Toda vez que vou ao supermercado eu compro quatro ou cinco latas de atum, sopa ou outros", disse Vazquez. "Eu tenho uma lista que outro dia veio no jornal, que estou usando para determinar quanto é suficiente."

Mas Vazquez, 37 anos, acrescentou: "Nós realmente não temos um plano de
evacuação. Nós todos brincamos e dizemos que pegaremos um avião e iremos para algum lugar distante, mas você realmente nunca sabe como planejar isso".

Aguardando por um táxi para levá-la ao seu emprego no McDonald's, Chanavia Williams, de Galveston, que ganha US$ 5,75 por hora, riu da idéia de comprar provisões para estocar para um furacão.

"Nós temos comida, mas não tenho nada estocado", disse Williams, 17 anos, mãe solteira de um menino de 2 anos, que mora em uma habitação pública. Williams disse que teria que deixar de comprar fraldas e roupas de bebê para comprar um kit de sobrevivência de furacão. Ainda assim, Williams, que foi evacuada de ônibus durante o furacão Rita, disse que deseja se preparar, assim como outras pessoas que tiveram experiências assustadoras no ano passado.

Wayne P. Sallade, um diretor de gestão de emergência em Charlotte County, Flórida, que foi devastado pelo furacão Charley, em 2004, disse que a pesquisa Mason-Dixon sobre preparativos para furacão foi distorcida por pessoas em Estados que não enfrentaram furacões recentemente.

"Se você conversar com as pessoas de cidades daqui, há uma febre por
informação", disse Sallade.

Isto também vale para Nova Orleans e ao longo da costa do Mississippi, onde a ansiedade pós-furacão Katrina levou muitas pessoas a se prepararem diligentemente neste ano.

Mas em Houston, Joe Laud, um porta-voz do centro de emergência da cidade, disse que apenas 1.000 pessoas com necessidades especiais se registraram para que um transporte público as pegue em caso de uma evacuação. Durante o furacão Rita, disse Laud, 25 mil destes moradores precisaram de ajuda para evacuação.

O baixo número de inscritos, ele disse, "é uma preocupação, mas é o máximo que podemos fazer".

O governador da Flórida, Jeb Bush, em sua conferência anual sobre furacões neste mês, em Fort Lauderdale, lembrou amargamente do caos após o furacão Wilma, no ano passado, onde multidões de moradores mal preparados fizeram fila para suprimentos de emergência que se esgotaram rapidamente.

"Fica muito mais difícil quando as pessoas fazem fila em seus Lexus e
Mercedes para pegar gelo e água em um local de distribuição pública,
enquanto o (supermercado) Publix está aberto a um quarteirão dali", disse Bush.

Enquanto os funcionários de emergência aplaudiam, ele acrescentou: "Eu não sei quanto a vocês, mas certamente me senti melhor por tirar isto do meu peito".

*Terry Aguayo e Andrea Zarate, em Miami; John Desantis, em Wilmington,
Carolina do Norte; Thayer Evans, em Galveston, Texas; Karen Hastings, em South Padre Island, Texas; e Joanna Hogan, em South Fort Myers, Flórida, contribuíram com reportagem para este artigo. George El Khouri Andolfato

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