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01/06/2006

Empresas estrangeiras cautelosas enquanto Venezuela aumenta seu controle do petróleo

The New York Times
Juan Forero*

em Puerto La Cruz, Venezuela
O material lodoso em um jarro de vidro na estante de David Nelson, aqui, é mais espesso do que melaço e já foi considerado sem valor. Mas a Chevron Corp., cujas operações ele administra na Venezuela, gastou cerca de US$ 1 bilhão para transformar o que já foi chamado de carvão líquido em petróleo, ajudando a transformar uma área de cerrado em uma grande fronteira para produção de petróleo.

A região, o Cinturão do Orinoco, é de fato tão promissora que o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, diz que ela contém até 235 bilhões de barris de petróleo recuperável; se for verdade, tais reservas rivalizariam às da Arábia Saudita.

"Nós sabemos que Orinoco está subdesenvolvido", disse Nelson, 49 anos, um geólogo da Califórnia com 27 anos de experiência desenvolvendo petróleo de pesado. "E os recursos no Oriente Médio estão pela metade."

Este grande tesouro, praticamente intocado, está colocando um governo
esquerdista que busca usar a receita do petróleo para programas sociais
contra as multinacionais, como a Chevron, que foram convidadas a atuar no país há uma década, para desenvolver o Cinturão do Orinoco, uma área de 140 hectares a cerca de 190 quilômetros ao sul daqui.

Com o aumento da demanda por petróleo, a ameaça de declínio da oferta
mundial e os preços atingindo níveis recordes, a situação neste país
ressalta a crescente tensão entre os governos e companhias de petróleo em todo mundo em torno dos lucros de campos de petróleo tecnicamente
desafiadores mas potencialmente lucrativos -seja no Mar Cáspio, na tundra ártica ou aqui, na região do Orinoco.

A Venezuela será anfitriã na quinta-feira de uma reunião da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep), onde Chávez deverá se gabar do vasto potencial de seu país. O país claramente tem muito a ganhar com Orinoco, já que sua produção diária de petróleo caiu para 2,6 milhões de barris, em comparação aos 3,3 milhões de barris de cinco anos atrás. Para promover o potencial da região, Chávez pediu a companhias de petróleo de locais tão distantes quanto China e Rússia que avaliassem o tamanho das reservas.

A Arábia Saudita, ainda a gigante entre os fornecedores mundiais de
petróleo, zomba de tal idéia. Ainda assim, o que há aqui na Venezuela, a maior exportadora de petróleo do Hemisfério Ocidental, se tornou tão valioso que empresas de todo o mundo querem extrair mais, e o governo Chávez quer ter uma participação maior nos ganhos.

Na Venezuela, empresas como Exxon Mobil, Chevron, ConocoPhillips, BP e a francesa Total podem perder os termos antes favoráveis e, basicamente, serem forçadas a transferir até US$ 8 bilhões para o governo -no momento em que oportunidades em outros lugares estão rareando.

As grandes companhias de petróleo estão certas em estarem agitadas. O
governo populista de Chávez assumiu controle majoritário dos 32 campos de petróleo, na maioria marginais, por toda a Venezuela que eram administrados por companhias estrangeiras. Então, em 16 de maio, a Assembléia Nacional aumentou os royalties pagos pelos quatro projetos de óleo cru pesado do Orinoco de 16,6% para 33,3%, além de estar planejando aumentar os impostos de 34% para 50%.

O governo diz estar se preparando para capturar um participação maior em Orinoco -entregando o controle de projetos que produzem 600 mil barris por dia à companhia estatal de petróleo do país, a Petroleos de Venezuela. Autoridades de energia dizem que o governo poderia assumir 60% do controle das chamadas associações estratégicas, como os projetos são chamados. Nenhum prazo foi estabelecido, mas os líderes da Assembléia Nacional, que é controlada pelas forças de Chávez, dizem que é apenas questão de tempo.

"Com o alto preço do petróleo no mercado, nós vamos ter maior participação nos ganhos excessivos das associações estratégicas", disse Mario Isea, presidente da comissão para hidrocarbonetos da Assembléia e que é aliado de Chávez, em uma entrevista. "Elas passaram anos sem pagar royalties e pagando impostos comerciais em vez de impostos de petróleo."

Em meado dos anos 90, o governo do presidente Rafael Caldera, ansioso em desenvolver o petróleo que tinha sido descoberto nos anos 30, abriu a região para investimento estrangeiro porque a companhia estatal de petróleo não dispunha nem de capital e nem de tecnologia para desenvolver o material semi-sólido do Orinoco. Os preços do petróleo estavam muito baixos, a oferta mundial atendia facilmente a demanda e a Venezuela tinha em suas mãos um óleo cru tão pesado, tão cheio de impurezas, que nem mesmo era conhecido como petróleo, mas como betume.

Ao receberem um isenção fiscal virtual que visava estimular o
investimento -a taxa de royalty era de 1%- as multinacionais embarcaram em um processo de exploração e, mais recentemente, investiram em atualizações para permitir o refino do óleo cru do Orinoco em um produto mais leve, comercializável.

No campo Hamaca, uma área do tamanho de Houston que produz petróleo para a Chevron, ConocoPhillips e para a estatal venezuelana, o óleo agora passa por um sistema semelhante a um polvo de poços horizontais com até 2.400 metros de extensão. As perfuratrizes são equipadas com sensores que emitem sinais sísmicos que medem pelo que estão passando -rochas, arenito, xisto, areia ou argila.

"Obviamente, nós adoramos encontrar depósitos de óleo leve em campos rasos", disse Nelson, que explicou cuidadosamente os desafios complexos enfrentados por sua empresa. "Mas não é aí que se encontram as fontes de energia, então temos que nos adaptar."

De volta a uma sala de controle próxima de seu escritório neste porto
caribenho, geólogos e engenheiros monitoram telas do tamanho de paredes e tomam decisões rápidas sobre se a perfuratriz precisa prosseguir furando ou mover-se para cima ou para baixo. A idéia é fazer com que a perfuratriz se mova depressa, a centenas de pés por hora, em trechos azulados, que sinalizam material poroso que pode conter óleo cru.

"Nossa meta é primeiro encontrar areia e, assim que a encontrarmos,
permanecermos nela", disse Mike Waite, um geofísico sênior que lidera a
equipe que monitora a perfuração.

A oeste daqui, material do Orinoco é transformado em petróleo no Complexo Industrial Jose, uma cidade virtual de canos, lagos de tratamento de água, chaminés, poços e tanques de armazenagem.

Desde que o primeiro envio de petróleo de Hamaca partiu a bordo do
petroleiro Overseas Sophie há dois anos, o projeto tem produzido em média 180 mil barris por dia. Nelson disse que o projeto, um dos mais complexos do mundo, vale a pena, "mas é preciso empregar um esforço violento nele".

"Estes projetos são grandes", ele disse. "Eles são complicados. Eles possuem muitas partes móveis. Você tem muitas negociações complicadas com os governos. Não é um negócio de gratificação instantânea."

Ao todo, segundo um recente relatório do Deutsche Bank sobre os projetos em Orinoco, US$ 17 bilhões foram investidos, cerca de US$ 3,5 bilhões apenas no projeto de Hamaca. Grandes empresas de energia, incluindo algumas do Brasil e da China, gostariam de ter rédea livre, aumentar os investimentos e produzir mais. Ali Moshiri, o chefe de grupo da Chevron para exploração e produção na América Latina, disse em abril que a Venezuela precisa de US$ 200 bilhões para desenvolver as reservas de petróleo pesado.

"Há um senso de urgência, não um senso de luxo", disse Moshiri, que previu que 90% da produção da Venezuela virá do Orinoco no futuro. O governo, certamente, fala em aumentar a produção para 5,8 milhões de barris por dia até 2012, em comparação aos atuais 2,6 milhões de barris.

Mas a Venezuela, que, como uma voz importante na Opep, tem defendido uma forma particularmente dura de nacionalismo do petróleo, deseja conseguir isto em seus próprios termos. Seu ministro da energia, Rafael Ramírez, que também é presidente da Petroleos de Venezuela, disse em uma entrevista que os acordos com as companhias multinacionais, assinados com o governo nos anos 90, foram "absurdos", dando à Venezuela pouco em troca.

"Elas devem satisfações aos seus acionistas e nós ao nosso país", disse
Ramírez.

As autoridades venezuelanas alegam que a exploração e produção no Orinoco se tornou fácil, até mesmo livre de risco, com o barril de petróleo custando menos de US$ 1 para produzir, em comparação a US$ 2 em 1995. As autoridades de energia daqui afirmam que as multinacionais exageraram os desafios técnicos e custos, enganando o Estado.

Elas também argumentam que as companhias obtiveram lucros extraordinários -e continuarão tendo, mesmo com os impostos e royalties maiores.

"Elas ganharam uma fortuna", disse Isea, o presidente da comissão para
hidrocarbonetos. "Isto continua sendo um negócio excelente. Eu acho que
ninguém partirá."

As autoridades venezuelanas disseram que suas medidas estão garantidas por uma lei de 2001 que diz que o companhia estatal de petróleo deve ter uma participação de 51% nos projetos; elas evitaram as perguntas sobre os contratos anteriores estarem isentos. Ramírez e os legisladores também disseram que a lei de hidrocarbonetos de 1945 permite ao governo aumentar os royalties quando os preços do petróleo sobem.

As empresas estrangeiras, tentando evitar controvérsia, não contestaram
publicamente as declarações do governo venezuelano. Mas Larry Goldstein, presidente da Petroleum Industry Research Foundation, um grupo de análise financiado pela indústria, em Nova York, disse: "Atualmente na Venezuela, eu não acredito que contratos tenham valor. E isto afeta a produção, independente do que os venezuelanos digam".

O jogo de malabarismo político continua, com Ramírez dizendo que as empresas têm pouca opção. "Não é segredo para ninguém que os grandes depósitos, os gigantes, acabaram", ele disse. "Não há nenhuma nova região de petróleo que se compare ao Cinturão do Orinoco."

O recente relatório do Deutsche Bank concordou, dizendo que "provavelmente poucas darão suas costas a reservas da ordem vista na Venezuela".

"Elas podem não gostar de Chávez", acrescentou o relatório. "Elas podem não gostar do seu regime. Mas elas também sabem que ele provavelmente ajudou bastante a apoiar os altos preços do petróleo por meio de sua retórica e postura. Este presidente não é tolo. E no final, você vai onde o petróleo está."

*Jens Gould contribuiu para este artigo com reportagem em Caracas. George El Khouri Andolfato

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