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01/06/2006

EUA estão prontos para conversar com os iranianos sobre plano nuclear

The New York Times
Steven R. Weisman*

em Washington
O governo Bush disse na quarta-feira que os Estados Unidos se juntarão aos europeus nas negociações com o Irã em torno de seu programa nuclear, mas apenas se Teerã suspender primeiro sua atividades com urânio, que são consideradas uma fachada para o desenvolvimento de armas nucleares.

A declaração da secretária de Estado, Condoleezza Rice, representou uma mudança em relação a décadas de recusa em realizar conversações com o Irã. Mas o Irã há muito tem dito que não aceitaria pré-condições, e a oferta do governo parece visar mais aplacar os aliados dos americanos do que atrair o Irã.

Rice anunciou a mudança de posição às vésperas das negociações em Viena, Áustria, em que enviados europeus, russos e chineses buscarão ressuscitar o esforço liderado pelos americanos de formar uma frente comum contra o programa nuclear iraniano. As conversações visam apresentar ao Irã um pacote de benefícios econômicos e políticos caso encerre suas atividades com urânio, e uma ameaça de sanções caso contrário.

A mudança ocorreu após dois meses de debate interno e uma campanha dos líderes europeus para fazer com que o presidente Bush fizesse um gesto dramático para ressuscitar as negociações nucleares estagnadas com o Irã, lideradas pelos europeus, disseram funcionários americanos.

O ceticismo do vice-presidente Dick Cheney e de outros veementemente contrários às conversações com o Irã foi superado, disseram os funcionários americanos, quando perceberam que uma recusa americana em acompanhar a posição européia significaria que o governo seria acusado de fracassar em fazer todo o possível para sanar uma crise internacional, dificultando a mobilização do mundo contra o Irã. Ainda assim, funcionários americanos e europeus disseram que o apoio da Rússia e da China ao pacote ainda não está garantido.

"Os Estados Unidos estão dispostos a exercer uma forte liderança para dar à diplomacia sua maior chance de sucesso", disse Rice antes de partir para Viena. Ela acrescentou que "os Estados Unidos se sentarão à mesa" com seus parceiros europeus "e se encontrarão com o representante do Irã" caso o Irã atenda às condições do anúncio.

Não ficou claro se a oferta americana provocará qualquer mudança na antiga oposição do Irã a pré-condições em negociações com os Estados Unidos. A agência de notícias iraniana a rotulou inicialmente como uma "medida de propaganda". Rice disse em seu anúncio que a mudança americana, apesar de qualificada, retirou a "última desculpa" do Irã para se recusar a cooperar. O presidente Bush descreveu posteriormente a nova abordagem americana como uma que colocará os Estados Unidos em "uma posição de liderança para resolver esta questão".

"Nossa mensagem aos iranianos é que, primeiro, vocês não terão uma arma, e segundo, que vocês deverão verdadeiramente suspender quaisquer programas, e neste ponto nós nos sentaremos em uma mesa de negociação para trabalhar o caminho a seguir", disse Bush aos repórteres na Casa Branca.

Os Estados Unidos transmitiram sua prontidão para falar por meio da embaixada suíça em Teerã e por meio de um telefonema ao embaixador do Irã na ONU, Javad Zarif, dado pelo embaixador americano na ONU, John R. Bolton, oferecendo a ele uma cópia antecipada do anúncio de Rice.

Fora do Irã, o anúncio de Rice provocou elogios quase universais, especialmente na Europa, apesar da Rússia e da China terem parecido cautelosas em relação às condições que os Estados Unidos anexaram à sua oferta. Um alto funcionário do Departamento de Estado, que não foi autorizado a falar, disse que o presidente Bush informou o presidente da Rússia, Vladimir Putin, sobre os detalhes da mudança na política do governo por telefone, na quinta-feira. "Nós temos um pouco mais de negociação a fazer", ele disse. "Nós apenas temos que assegurar que todos estejam presentes. Nós achamos que os russos estarão."

O governo Bush não manteve o Irã totalmente fora de contato nos últimos anos, apesar de Bush ter rotulado o país, juntamente com o Iraque e a Coréia do Norte, como parte de um "eixo do mal", em seu discurso do Estado da União no início de 2002. Os Estados Unidos mantiveram pequenos contatos com autoridades iranianas durante a guerra no Afeganistão e nos primeiros estágios da guerra com o Iraque. O Iraque e o Afeganistão são vizinhos do Irã e este sempre teve influência sobre os assuntos internos dos dois países.

As conversas entre americanos e iranianos foram cortadas em meados de 2003, quando os Estados Unidos acusaram o Irã de envolvimento no atentado a bomba contra civis na Arábia Saudita. Mas ocorreram contatos no final daquele ano e no início de 2004 para acelerar a ajuda americana ao Irã, após o terremoto em Bam.

Além disso, no ano passado Rice anunciou que o embaixador americano no Iraque, Zalmay Khalilzad, seria autorizado a conversar com autoridades iranianas sobre a situação interna no Iraque, incluindo infiltração de rebeldes pela fronteira e ajuda às milícias xiitas no Iraque. Mas estas conversações não ocorreram. Com a nova posição dos Estados Unidos agora pública, os negociadores se concentrarão em certos detalhes dos incentivos e ameaças de punição. Os Estados Unidos fizeram discretamente concessões significativas aos russos sobre este assunto, permitindo a remoção de qualquer ameaça de uso de força do documento que está sendo discutido.

Além disso, os Estados Unidos concordaram com a exigência russa e chinesa de que mesmo se o Conselho de Segurança da ONU ameaçar sanções contra o Irã, as sanções não seriam aplicadas sem uma nova votação do Conselho de Segurança.

O que todos estes arranjos não dizem, entretanto, é que os Estados Unidos parecem determinados a alistar outros países na imposição de penas econômicas, como uma repressão à atividade bancária no Irã, caso o Conselho de Segurança falhe em agir diante de outro desafio iraniano.

Obter apoio mundial para uma política mais dura em relação aos iranianos tem sido difícil porque o Irã, que retomou no início do ano o enriquecimento de urânio, está tecnicamente correto ao dizer que esta atividade, definida pelo Irã como de natureza pacífica, é permitida pelo tratado de não-proliferação nuclear que assinou décadas atrás. O Ocidente argumenta que devido ao Irã ter escondido muitas de suas atividades dos inspetores da Agência Internacional de Energia Atômica, ele perdeu o direito a enriquecer urânio.

Um pacote de incentivos será apresentado em Viena na quinta-feira, caso os planos americanos dêem certo: benefícios econômicos e comerciais, arranjos políticos visando assegurar ao Irã suas necessidades de segurança; e ajuda na construção de um programa nuclear civil, incluindo a construção de reatores de água leve que não podem ser facilmente usados para encobrir um programa de armas.

A ameaça de sanções, como prevista pelos Estados Unidos, Grã-Bretanha e França, assumiria a forma de um compromisso, com uma resolução que seria adotada pelo Conselho de Segurança segundo o Capítulo 7º da carta da ONU, que implica em penas caso o Irã se recuse a cumprir a exigência de suspender seu enriquecimento de urânio. A Rússia e a China são contrárias à invocação do Capítulo 7º, mas podem ceder caso aceitem as garantias americanas de que sanções não serão adotadas sem outra votação do Conselho de Segurança.

O anúncio de Rice em relação ao Irã foi uma surpresa para muitos diplomatas. Há poucos dias, autoridades européias revelaram que sabiam que Rice estava pressionando por uma reconsideração da antiga proibição do governo Bush de conversações com o Irã, mas não esperavam uma decisão rápida.

*Warren Hoge contribuiu com reportagem para este artigo na ONU, e David E. Sanger, em Washington George El Khouri Andolfato

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