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01/06/2006

Uma visão da Copa a partir das ruas de Nova York

The New York Times
George Vecsey
Um dia desses almoçávamos ao ar livre, da forma que se faz na primeira tarde quente em Lyon, Paris ou Nova York, três cidades nas quais Youri Djorkaeff morou.

Um corpulento argentino, comendo a algumas mesas de distância, se movimentou ao perceber as feições escuras e alertas do freguês na mesa do canto.

"É como falar com Deus", o argentino murmurou em inglês, enquanto Djorkaeff aceitava um abraço e posava para uma foto. "Conheço Maradona", continuou o estranho. "Ele costumava vir até a minha casa quando estava se escondendo. Quem você acha que ganhará a Copa do Mundo neste ano? Você acredita que o meu país tem chance?".

Esta pergunta tem sido formulada em 32 nações em todo o mundo nesta semana. Djorkaeff respondeu que a Argentina e a Itália são sempre bons times, mas que no fim das contas é o Brasil que conta com o grande talento.

"É como uma ciência exata", argumenta Djorkaeff. "Os três mesmos times, sempre, e talvez a França, ou a Inglaterra, ou a Alemanha". De forma relutante, mas cortês, o argentino retornou ao seu almoço, permitindo que Djorkaeff voltasse a comer a sua salada de frutos do mar.

Em 1998, na final da Copa do Mundo vencida pela França, Youri Djorkaeff bateu um escanteio certeiro rumo a o talentoso Zinedine Zidane, que marcou um gol de cabeça contra o Brasil. Agora, jogando pelos New York Red Bulls, pela Liga Principal de Futebol, Djorkaeff, assim como bilhões de outras pessoas, está se preparando para assistir ao mais popular evento esportivo do mundo neste mês pela televisão.

"Esta será a minha primeira Copa do Mundo", disse Djorkaeff. "Me sentarei no sofá e assistirei, como um bom torcedor. Estou pesquisando na Internet para obter todas as informações sobre a seleção francesa".

Djorkaeff, sua mulher e os três filhos estão morando em Gramercy Park, em Manhattan. Como francês orgulhoso, descendente de armênios e kalmuks, Djorkaeff está um pouco desapontado com o fato de não haver uma maior presença armênia em Nova York, mas ele adora as longas e quase anônimas caminhadas pela cidade. Ele não se importa quando o idolatram em locais nos quais há presença francesa, como o Frederick's Lounge, na junção das ruas Madison e East 65th. Lá Djorkaeff é mais um príncipe esportivo desta cidade internacional na qual o futebol é uma presença diária que prospera.

Ele nasceu para a fama, já que o seu pai, Jean, foi o capitão da França na Copa do Mundo de 1966, na Inglaterra. Quando Djorkaeff era criança, brincava com uma réplica de Willie, a mascote da Copa do Mundo da Inglaterra.

Ele se tornou um astro na Inter de Milão, morando próximo ao famoso Duomo ("Milão é uma cidade maravilhosa, mas grande parte dela está escondida. Você abre uma porta e surgem pátios e jardins fantásticos"). Ele ingressou na seleção francesa após a dissolução do belo, mas ineficiente, time da década de 1980.

À luz do sol na Madison Avenue, Djorkaeff mostrou como os pelos dos seus braços se arrepiam ao se lembrar da equipe francesa carismática e multicultural que rumou para a Copa do Mundo de 1998.

"Metade de nós jogava na Itália" contou Djorkaeff, relembrando aqueles dias gloriosos, uma década atrás, quando a Itália tinha o melhor time do mundo. Ele ainda se impressiona com a forma como o técnico francês, Aime Jacquet, confidenciou em 1997 que "tudo estava pronto" para que vencessem a Copa do Mundo. Djorkaeff achou que Jacquet tinha enlouquecido. "Seu técnico, o senhor está bem?".

Há exatamente oito anos, Jacquet reuniu 23 indivíduos talentosos em um campo rural. "Aqueles pequenos jogos de treinamento, com seis homens de cada lado, eram fantásticos", relembra Djorkaeff. "Você fazia uma jogada ensaiada, a bola nunca saía. Mas não era apenas você. Era o outro time. O grupo inteiro. Nunca vi um futebol como aquele. Quando tudo dava errado no nosso time, Jacquet tinha duas ou três soluções. Todos estavam juntos".

Após a vitória de 3 a 0 sobre o Brasil na final, Jacquet deu aos jogadores duas opções: celebrarem na Cidade das Luzes ou voltarem para a base de treinamento com suas mulheres - "a última vez em que todos nós estaríamos juntos", disse Djorkaeff com voz sussurrada. Os jogadores escolheram voltar ao chateau, enquanto milhões de torcedores comemoravam ao longo do Champs-Elysees.

Em 2002, na Coréia do Sul, Djorkaeff e os seus colegas estavam mais velhos, mais enferrujados, e não passaram da primeira fase. "É mais difícil quando se é campeão", disse Djorkaeff. Ele se aposentou da seleção, e na temporada passada preferiu jogar na Liga Principal para ter a experiência de morar em Manhattan.

"Se eu fosse pensar no futebol na Itália ou na França, voltaria para casa em uma semana", diz ele, respeitosamente. "Mas cheguei em um ponto no qual quero ajudar a construir algo aqui".

Hoje em dia ele está ocupado ao telefone, fazendo propaganda do seu novo livro, "Snake" - a apelido em inglês pelo qual ele é conhecido na França -, escrito com Arnaud Ramsay, e publicado somente em francês pela Grasset.

A liga norte-americana continuará jogando durante a Copa do Mundo. Os Red Bulls jogarão no mesmo dia - 17 de junho - em que os Estados Unidos enfrentarão a Itália. Mesmo assim Djorkaeff está assinalando todos os jogos que terá a chance de assistir. Ele ajudou a ganhar uma Copa do Mundo. Agora chegou o momento de assistir a uma copa. Danilo Fonseca

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