UOL Notícias Internacional
 

02/06/2006

Líder iraquiano acusa forças armadas dos EUA de assassinar civis

The New York Times
Richard A. Oppel Jr.*

em Bagdá
O primeiro-ministro Nuri Kamal al-Maliki criticou as forças armadas
norte-americanas na quinta-feira (01/06), denunciando aquilo que chamou de ataques habituais das tropas dos Estados Unidos contra civis iraquianos.

À medida que a indignação com a descoberta de que fuzileiros
norte-americanos mataram 24 iraquianos na cidade de Haditha no ano passado continuava a enervar o novo governo, o vice-primeiro-ministro árabe sunita do país também exigiu que os oficiais norte-americanos entregassem os seus arquivos das investigações sobre os assassinatos, e disse que o governo iraquiano conduzirá a sua própria investigação.

Nos seus comentários, al-Maliki disse que a violência contra civis se tornou um "fenômeno diário" por parte das tropas da coalizão liderada pelos norte-americanos que "não respeitam o povo iraquiano".

"Os soldados norte-americanos esmagam os civis iraquianos com os seus
veículos e os matam apenas por suspeitarem deles", criticou al-Maliki. "Isso é completamente inaceitável". Os ataques contra civis desempenharão um papel nas futuras decisões quanto ao tempo que se pedirá que as forças norte-americanas permaneçam no Iraque, acrescentou o primeiro-ministro.

A denúncia foi uma declaração inusual para um governo que continua
desesperadamente dependente das tropas norte-americanas para manter algum tipo de ordem no país, em meio a uma irredutível insurgência árabe sunita no oeste do país, à violência sectarista generalizada em Bagdá e aos enfrentamentos fatais entre as milícias xiitas no sul.

A manifestação de al-Maliki foi também um sinal da pressão crescente sobre ele, cuja coalizão inclui árabes sunitas que ficaram especialmente enfurecidos com as notícias sobre os assassinatos cometidos pelos norte-americanos em Haditha, uma cidade localizada bem no meio da província de Anbar, dominada pelos sunitas. Ao mesmo tempo, ele tem sido pressionado pelos norte-americanos no sentido de resolver os desentendimentos no seio da sua frágil coalizão. Essas brigas impossibilitam que al-Maliki preencha os postos para de ministro da Defesa e do Interior, os dois principais cargos vinculados à segurança no país.

Autoridades militares e congressuais disseram acreditar que uma investigação sobre a morte de 24 iraquianos em Haditha, em 19 de novembro, demonstrará que um grupo de fuzileiros navais baleou e matou civis sem justificativa ou provocação. Sobreviventes em Haditha dizem que as tropas mataram homens, mulheres e crianças, com tiros à queima-roupa na cabeça e no tórax.

Pelo segundo dia seguido, o presidente Bush falou diretamente sobre o furor que cerca este caso. "Obviamente, as alegações são muito perturbadoras para mim, e igualmente perturbadoras para as nossas forças armadas, e especialmente para o Corpo de Fuzileiros Navais", declarou Bush na quinta-feira, ao responder à pergunta de um repórter após uma reunião do seu gabinete. Referindo-se ao comandante do Estado Maior Conjunto, ele acrescentou: "Falei com o general Pace sobre essa questão diversas vezes".

Ainda na quinta-feira, Bryan Whitman, um porta-voz do Pentágono em
Washington, se recusou a fazer comentários sobre as atuais investigações, mas disse que o secretário da Defesa, Donald H. Rumsfeld, vem sendo informado sobre o andamento dessas investigações.

Os investigadores estão examinando o papel de comandantes graduados nos
fatos que se seguiram aos assassinatos em Haditha, e tentando determinar quais os indivíduos mais elevados da cadeia de comando que têm responsabilidade pelo episódio.

Oficiais do Corpo de Fuzileiros Navais disseram na quinta-feira que o
general Stephen T. Johnson, que era o principal comandante dos marines
durante o incidente de Haditha, está a ponto de ser promovido e se tornar o oficial de alta patente da força encarregado do contingente, uma posto de três estrelas nas forças armadas.

Johnson é amplamente respeitado pela alta liderança do Corpo de Fuzileiros Navais, mas os oficiais disseram que neste momento é improvável que o Pentágono o indique para uma promoção até que as investigações sobre Haditha sejam concluídas.

O jornal "The Washington Post" anunciou na quinta-feira que uma investigação paralela para determinar se os assassinatos foram encobertos culminou com a conclusão de que alguns oficiais prestaram falsas informações, e que superiores deixaram de escrutinar adequadamente os relatórios sobre as 24 mortes.

Segundo o jornal, a investigação determinou que o sargento Frank D.
Wuterich, um líder de esquadrão que estava presente quando a bomba explodiu, deu uma falsa declaração ao relatar que o artefato matou 15 civis.

Uma unidade de inteligência que visitou o local no dia da explosão também não relatou que os civis apresentavam ferimentos provocados por armas de fogo, afirmou o jornal.

Em Bagdá, autoridades governamentais de alto escalão começaram a discutir a possibilidade de promover também uma investigação sobre os assassinatos.

"Nós, membros do gabinete, condenamos esse crime e exigimos que as forças da coalizão revelem o motivo que está por trás desse massacre", disse em uma entrevista o vice-primeiro-ministro iraquiano Salam al-Zaubai, um dos mais poderosos árabes sunitas do novo governo.

"Como vocês sabem, este não é o único massacre. Há vários", afirmou
al-Zaubai. "As forças da coalizão precisam modificar o seu comportamento. O sangue humano deve ser respeitado, independentemente da religião, do partido e da nacionalidade".

Al-Zaubai, que também é o ministro interino da Defesa, reconheceu que as autoridades iraquianas provavelmente não serão capazes de forçar a
extradição de qualquer soldado norte-americano suspeito de culpa nos
assassinatos de Haditha. Mas ele anunciou que um comitê de cinco ministros, incluindo os da Defesa, do Interior e das Finanças, investigará os assassinatos na expectativa de que os oficiais norte-americanos forneçam os arquivos sobre as suas investigações.

"Não temos os arquivos de segurança, porque eles estão nas mãos das forças da coalizão", disse Al-Zaubai. "Esperamos que não haja obstáculos à frente".

A crise devido a Haditha e outros assassinatos controversos nas áreas
sunitas ocorre no momento no qual parece que operações militares poderão ser necessárias para retomar certas áreas sunitas que correm o risco de cair sob o controle da resistência. Nesta semana, autoridades militares norte-americanas ordenaram que 1.500 soldados fossem transferidos do Kuait para a província de Anbar, um reduto da insurgência sunita, no mais recente sinal de que os insurgentes e grupos terroristas, incluindo aqueles liderados por Abu Musab al-Zarqawi, controlam grande parte da ampla região desértica.

Em entrevistas concedidas na quinta-feira, dois republicanos proeminentes - o senador John W. Warner, de Virgínia, e o presidente do Comitê para as Forças Armadas, senador John McCain, do Arizona, que é o próximo na fila para se tornar presidente do comitê - disseram que é muito cedo para afirmar se o episódio implicará na redução do apoio à guerra. Mesmo assim, ambos expressaram preocupação.

Warner, que prometeu realizar audiências tão logo as forças armadas concluam a sua investigação, disse que tem pedido a Rumsfeld que conclua a investigação o mais rapidamente possível.

"Enquanto isso, no que diz respeito a esse assunto, francamente, a opinião pública está sendo influenciada pela desinformação, pelos vazamentos e pelos fatos não documentados ou corroborados", disse ele.

McCain disse que o incidente faz lembrar o massacre de My Lay, ocorrido
durante a guerra do Vietnã. Ele acrescentou: "O fato certamente é
prejudicial, mas eu não sou capaz de avaliar a extensão do estrago".

McCain e Warner se negaram a dizer se acham que o secretário da Defesa
deveria ser convocado a depor.

"Creio que isso depende do que encontrarmos", disse McCain. "Nada posso
dizer até que eu saiba realmente o que aconteceu. Existem alegações, e eu enfatizo que são alegações, de que houve um acobertamento. Se esse foi o caso, então, obviamente, autoridades mais graduadas terão que depor".

Além do incidente de Haditha, investigadores criminais militares estão
investigando a morte de um homem iraquiano em Hamandiya, a oeste de Bagdá, que foi assassinado por fuzileiros navais norte-americanos em 26 de abril último. Promotores militares pretendem fazer acusações formais de assassinato, seqüestro e conspiração contra sete fuzileiros navais e um marinheiro com relação ao assassinato, segundo um advogado de defesa neste caso que foi citado pela agência de notícias "The Associated Press".

Na quarta-feira passada, tropas americanas nas proximidades da turbulenta cidade de Samarra mataram a tiros duas mulheres iraquianas, incluindo uma que estaria grávida e a caminho do hospital, depois que o carro delas não atendeu àquilo que o comando militar norte-americano definiu como avisos repetidos para que parassem, e a sinais com a inscrição "área proibida", nas proximidades de um posto militar norte-americano.

Em uma entrevista coletiva à imprensa na altamente fortificada Zona Verde de Bagdá, o principal porta-voz das forças armadas norte-americanas, general William Caldwell, disse que o episódio ocorrido em Haditha e outras alegações de má-conduta estão sendo rigorosamente investigados, e que qualquer indivíduo que seja considerado culpado de cometer violações será punido. "Esse trágico incidente não representa, de maneira alguma, a forma como as forças da coalizão tratam os civis iraquianos", disse ele.

Em Bagdá, o principal comandante das forças terrestres no Iraque ordenou que todos os 150 mil soldados norte-americanos e aliados recebessem treinamento adicional obrigatório sobre "padrões legais, morais e éticos no campo de batalha".

Em uma declaração, o oficial, general Peter W. Chiarelli, não citou
especificamente as mortes em Haditha como sendo um motivo para a ordem
incomum. Mas ele afirmou que os comandantes receberiam materiais de
treinamento e vídeos para serem usados na instrução sobre valores militares profissionais, conduta em combate e sensibilidades culturais iraquianas.

*Eric Schmitt, Shreyl Gay Stolberg e Jim Rutenberg contribuíram de Washington para esta matéria. Danilo Fonseca

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