UOL Notícias Internacional
 

02/06/2006

Mutilação genital tem conseqüências fatais, diz estudo

The New York Times
Elisabeth Rosenthal
O primeiro grande estudo sobre cortes genitais femininos concluiu que o procedimento tem conseqüências mortíferas quando as mulheres dão à luz, elevando em mais de 50% a probabilidade de morte da mãe ou do filho.

Também os índices de complicações médicas em torno do nascimento, como a possibilidade de hemorragia, foram aumentados substancialmente nas mulheres que sofreram incisões genitais, de acordo com uma nova pesquisa publicada sexta-feira na revista médica britânica The Lancet.

"Evidências confiáveis sobre os efeitos nocivos, especialmente na reprodução, devem contribuir para o abandono da prática", escreveram os autores do estudo, membros do Grupo de Estudo de Mutilação Genital Feminina e Resultado Obstetrício da Organização Mundial de Saúde.

Enquanto grupos de mulheres e organizações de direitos humanos há muito fazem campanha contra os cortes genitais por questões de direito, o estudo fornece a primeira evidência médica conclusiva de dano físico de longo prazo, movendo o debate ainda mais para a arena pública.

"Finalmente, temos os dados para provar aquilo que a medicina sabe há muito: que a mutilação genital feminina é uma questão de saúde, que mata mulheres e crianças, além de ser uma questão de direitos humanos", disse Adrienne Germain, presidente da Coalizão Internacional de Saúde da Mulher, em Nova York.

"Isso deve ajudar muito os críticos da prática a vencerem os argumentos de que a mutilação genital é uma prática cultural intocável."

Mais de 100 milhões de mulheres no mundo todo sofreram cortes genitais, a maior parte na infância, sem anestesia ou instrumentos estéreis. Dor, sangramento e infecção são conseqüências imediatas. Os médicos suspeitam que o procedimento esteja associado ao risco de infecção urinária.

O procedimento varia em severidade, desde a total excisão do clitóris e lábios genitais até um procedimento menor, no qual apenas o primeiro é removido. Em um número de culturas africanas, a mutilação genital é parte de uma cerimônia de amadurecimento e os defensores alegam que é uma prática cultural, como a circuncisão entre os judeus, com poucas ou nenhuma conseqüência de longo prazo à saúde.

Estudos prévios para documentar os efeitos de longo prazo da mutilação genital -também chamada de circuncisão feminina -foram muito menores e produziram resultados inconsistentes ou pouco confiáveis, em grande parte por causa das dificuldades logísticas na coleta de dados em países pobres onde a prática faz parte da tradição.

Em um comentário que acompanha o estudo na revista Lancet, Ndubuisi Eke e Kanu E.O. Nkanginieme, médicos da Universidade de Port Harcourt, na Nigéria, chamaram o relatório de um "marco". Com novas e concretas evidências dos efeitos mortíferos do procedimento, eles sugerem que a mutilação genital "deve ser incluída entre os índices críticos de saúde para países menos desenvolvidos".

O estudo foi conduzido com a ajuda de mais de 28.000 mulheres em seis nações africanas, entre 2001 e 2003. As mulheres foram examinadas para documentar o grau das incisões e foram acompanhadas até depois de terem dado à luz.

O estudo revelou que as mulheres que tinham sofrido cortes genitais em qualquer grau tinham maior probabilidade de morrer no parto, assim como seus bebês. As mutilações mais extensivas produziram os índices mais altos de morte de mãe e criança durante o parto, mesmo muitos anos depois.

As mutilações menos extensivas causaram cerca de 20% de aumento de mortalidade, enquanto os procedimentos amplos causaram aumentos de mais de 50%.

Todas as medidas estudadas pela Organização Mundial de Saúde demonstraram que a mutilação genital coloca tanto a mãe quanto o bebê em risco. As mães que sofreram o procedimento tiveram que ficar mais tempo no hospital, sofreram maiores hemorragias e necessitaram mais freqüentemente de cirurgia cesariana. Os bebês tiveram o dobro de chances de precisar de ressuscitamento ao nascer.

Os pesquisadores observaram que seus resultados quase certamente subestimaram os índices reais de morte e dano, pois acompanharam somente mulheres que deram à luz em hospitais.

Muitas mulheres nas nações africanas onde a prática é comum têm seus filhos em casa, onde tipicamente não é possível tratar as complicações médicas como hemorragia ou ressuscitar um recém nascido.

Apesar de não ter sido definida uma razão exata para justificar o aumento na mortalidade, os pesquisadores observaram que fazia sentido anatômico: as incisões genitais resultam em cicatrizes severas na vagina e na área circundante que podem dificultar a saída dos bebês.

Nos países estudados, a freqüência da prática de mutilação genital foi de 40% em Gana até 83% no Sudão. Um país envolvido no estudo, Senegal, proibiu a forma mais extensiva do procedimento em 1998.

Eke e Nkanginieme expressaram esperanças de que as novas evidências médicas levem outros países a proibirem a prática. "Há esperança de que a mutilação genital sofra o destino de rituais antigos como a rejeição de gêmeos, o comércio de escravos, a prática de amarrar os pés dos chineses e os cintos de castidade vitorianos", escreveram. Deborah Weinberg

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h58

    -0,53
    3,128
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h20

    -0,28
    75.389,75
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host