UOL Notícias Internacional
 

02/06/2006

Principais nações concordam com termos de pacote para o Irã

The New York Times
Thom Shanker e Elaine Sciolino

em Viena, na Áustria
Os EUA, Rússia, China e três importantes nações da Europa anunciaram na quinta-feira (01/6) que concordaram com um pacote de incentivos com a intenção de resolver a crise nuclear com o Irã e que vão arquivar qualquer ação punitiva do Conselho de Segurança até que o país tenha tempo de responder as propostas.

A iniciativa tem a intenção de estimular o Irã a voltar a congelar suas atividades nucleares suspeitas, inclusive desligar as centrífugas rápidas que produzem urânio enriquecido.

Os detalhes das propostas não foram revelados na quinta-feira, mas devem ser apresentados ao Irã nos próximos dias por uma delegação chefiada por Javier Solana, diretor de política estrangeira da União Européia. O governo em Teerã teria então algumas semanas -mas não meses- para responder, disseram autoridades americanas e européias.

A nova secretária de relações exteriores do Reino Unido, Margaret Beckett, leu uma declaração em nome dos seis países, dizendo: "Concordamos com um conjunto de amplas propostas como base para as discussões com o Irã.
Acreditamos que oferece ao Irã a chance de chegar a um acordo negociado baseado em cooperação."

Ela disse que as nações representadas nas discussões "estão preparadas para voltar às negociações se o Irã suspender todas as atividades de enriquecimento e reprocessamento (do urânio)", como exigido pela Agência Internacional de Energia Atômica. "Nós também suspenderíamos a ação no Conselho de Segurança", acrescentou.

Beckett advertiu que, se o Irã não concordar, "outras medidas teriam que ser tomadas no Conselho de Segurança". Sua declaração, no entanto, evitou cuidadosamente qualquer menção a sanções ou outros detalhes de medidas punitivas, e Beckett não aceitou perguntas.

A palavra "sanções" não foi proferida em público na quinta-feira, talvez para evitar dar ao Irã um alvo óbvio para objeções de antemão. No entanto, as diferenças entre as seis nações provavelmente ressurgirão se o Irã rejeitar os incentivos, e a coalizão começar a considerar punições específicas no Conselho de Segurança.

Duas autoridades que participaram das conversas na quinta-feira descreveram as negociações longas e às vezes tensas.

O ministro de relações exteriores russo, Sergei V. Lavrov, insistiu que qualquer consideração de ação punitiva no Conselho de Segurança fosse congelada até que o Irã tivesse uma chance de responder à atual oferta, disse um alto membro que, como outros, falou em condição de anonimato, sob as regras comuns de diplomacia.

"O Conselho de Segurança parou", disse esta autoridade. "Se fracassarmos, vamos voltar ao conselho, mas o processo agora está suspenso até vermos a reação do Irã. Eles pediram que fosse congelado, e conseguiram."

Atualmente, o Conselho de Segurança da ONU está estudando uma resolução sob o capítulo VII da carta magna da organização que invoca o poder do conselho de exigir a obediência de países membros e ameaçar punição em caso de recusa.

Outra alta autoridade européia disse temer que o processo fosse permitir ao Irã "carregar isso por um longo tempo".

Perguntado se as seis nações tinham chegado a um pleno consenso na quinta-feira, R. Nicholas Burns, subsecretário de Estado para assuntos políticos, expressou grande satisfação. "Estamos muito satisfeitos com os resultados das reuniões de hoje, aqui em Viena", disse ele. "São considerados um passo adiante em nossa busca de negar a capacidade de armas atômicas ao Irã."

A ênfase do acordo de quinta-feira foi menos em como punir o Irã e mais em como recompensá-lo se concordar em congelar suas atividades relacionadas ao enriquecimento.

Houve previsões otimistas nos últimos dias, particularmente pelo governo Bush, que os ministros de relações exteriores dos países reunidos na quinta-feira -os cinco membros permanentes do Conselho de Segurança mais a Alemanha- fossem chegar a um acordo na fórmula complicada que persuadiria o Irã a parar de produzir o urânio enriquecido.

Na quarta-feira, antes de sua partida de Washington, Rice disse:
"Concordamos com nossos parceiros europeus nos elementos essenciais de um pacote contendo benefícios, se o Irã fizer a escolha certa -e custos se não fizer."

As negociações da tarde se estenderam até o jantar, um dia depois de o governo Bush reverter seu curso e oferecer sentar-se à mesa de negociação com o Irã -se este suspender totalmente suas operações de enriquecimento e reprocessamento.

O Irã disse que não tem a intenção de parar essas atividades. Na quinta-feira, autoridades iranianas aceitaram a idéia de negociar com os EUA, mas rejeitaram as condições para as conversas.

"Não vamos negociar os direitos nucleares naturais de nossa nação, mas estamos prontos a manter um diálogo justo e imparcial e uma negociação em torno de preocupações mútuas no contexto de uma estrutura definida", disse o ministro de relações exteriores do Irã, Manouchehr Mottaki, segundo a agência oficial iraniana de notícias.

Seu porta-voz, Hamid Reza Asefi, disse mais tarde: "Não há obstáculos para negociar com os EUA em pé de igualdade, com respeito e sem pré-condições, já que o que importa para nós é assegurar nossos direitos nucleares."

Em Washington na quinta-feira, o presidente Bush pareceu descrever a oferta americana de negociação direta com o Irã como uma ameaça assim como uma oportunidade. "A escolha cabe aos iranianos, se vão ou não ouvir as exigências do mundo; em caso positivo, temos algo para falar com eles", disse Bush aos repórteres depois de uma reunião com o gabinete.

Bush, que falou ao telefone com o presidente Vladimir V. Putin, da Rússia, na quarta-feira, e com o presidente Hu Jintao, da China, na quinta-feira, também evitou uma pergunta se a Rússia e a China tinham concordado com o pacote.

Perguntado sobre as observações de Mottaki sugerindo que a suspensão das atividades nucleares do Irã não era negociável, Bush disse: "Vamos ver se é uma posição firme do governo. Se decidirem fazer isso, então, o próximo passo, é claro, será procurar o Conselho de Segurança da ONU com nossos parceiros na coalizão."

Nem Mottaki nem Asefi tem autoridade para decidir a política. Ainda assim, suas observações são importantes, pois refletem um esforço do Irã, como dos EUA, de lentamente se afastar das posições fixas antigas que não valem a pena.

O aiatolá Ali Khamenei, líder supremo do Irã, rejeitou há muito qualquer contato com os EUA, cunhando aqueles que buscavam a reaproximação de "simplórios e traidores". Mas recentemente ele aprovou a idéia de conversar com Washington a respeito do Iraque, se houver respeito aos interesses mútuos.

Por trás das cenas, Mohamed ElBaradei, diretor da Agência Internacional de Energia Atômica, instou o Irã a aceitar a oferta americana. Em conversa telefônica com Ali Larijani, alto negociador nuclear do Irã, na quarta-feira à noite, ElBaradei descreveu a abertura como "muito significativa" e disse ao Irã para "aproveitar a oportunidade de dialogar com Washington", disse uma porta-voz da agência, Melissa Fleming.

Apesar de todos os países concordarem com a iniciativa, a principal diferença existe desde o início: a insistência dos EUA e da Europa de que o Irã seja punido pelo Conselho de Segurança se não mudar seu comportamento e o contra-argumento da Rússia e da China de que a melhor forma de conseguir concessões -ao menos nesta altura- é pelo engajamento.

Apesar de os europeus terem argumentado contra um encontro de alto nível sem antes superar as diferenças nas negociações de mais baixo escalão para garantir o sucesso, os EUA insistiram que a reunião era importante para ressaltar a gravidade da questão e manter o movimento de negociação.

Os americanos ainda estão resistindo às propostas que dão ao Irã garantias de que não seria alvo de ataque militar. Os europeus dizem que, sem tais garantias, o Irã vai continuar tentando desenvolver um programa de armas nucleares, apesar de negar essa intenção.

Entretanto, os americanos estão dispostos a considerar a suspensão de algumas sanções antigas contra o Irã para permitir que eventualmente compre novos aviões civis e ganhe acesso a reatores modernos de água leve para a produção de energia nuclear civil, com a Rússia e o Ocidente controlando seu acesso ao combustível. Deborah Weinberg

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