UOL Notícias Internacional
 

03/06/2006

Eleitores peruanos podem recorrer a um líder testado e fracassado

The New York Times
Juan Forero

em Lima, Peru
Em sua batalha pela presidência, Alan Garcia, primeiro lugar nas pesquisas para o segundo turno no domingo, critica o lado supostamente autoritário de seu opositor, sua formação militar e seus laços com o presidente Hugo Chávez, da Venezuela.

Mas acima de tudo, Garcia está lutando contra o passado, ou seja, seu próprio histórico como presidente nos anos 80, quando suas políticas populistas e programa econômico inflacionário deixaram o Peru à beira da falência e vítima da violência terrorista.

Um político astuto e orador talentoso, Garcia, 57, conseguiu transmitir uma imagem de homem mudado, um estadista responsável que guiará o Peru para a prosperidade, trabalhando com as mesmas fontes de empréstimo multinacionais e autoridades americanas que antes criticava.

Sua diferença nas pesquisas para Ollanta Humala, 43, nacionalista e ex-coronel do exército, varia entre 6 e 12 pontos em três pesquisas de opinião. Com este resultado, Garcia pode ser considerado uma das ressurreições políticas mais impressionantes da América Latina.

"Não acho que exista outro retorno político que se compare a este", disse Chris Sabatini, que acompanha a política peruana em seu trabalho como diretor de política do Conselho da Sociedade Americana em Nova York.

"Ele desenvolveu uma estratégia de recuperação muito cuidadosa", acrescentou Sabatini. "Ele assumiu seus erros para seus detratores, principalmente a elite empresária, e adotou uma estratégia coerente para levantar sua carreira política falida."

Quando eleito com 35 anos, em 1985, Garcia, imponente com 1m90, cabelos pretos e uma mensagem de nacionalismo estridente, instantaneamente tornou-se o querido da esquerda internacional. Ele limitou os pagamentos de dívida estrangeira, falou em unir a América Latina, tentou nacionalizar os bancos e emitiu dinheiro para acompanhar a inflação.

Ele encheu seu governo de amigos políticos de seu partido, a Aliança Popular Revolucionária Americana, que era organizado quase como um culto em torno de seu líder.

Os resultados de seu mandato de cinco anos foram calamitosos: inflação de quatro dígitos, escassez de alimentos, uma onda de atentados a bomba e assassinatos por guerrilheiros do Sendero Luminoso e reações abusivas do exército.

Em 1992, dois anos depois de deixar o cargo, Garcia fugiu do Peru depois de ser acusado de corrupção pelo governo do presidente Alberto Fujimori, que caçava seus opositores. As queixas mais tarde foram arquivadas.

Agora, em sua segunda tentativa para a presidência depois de voltar do exílio na França e na Colômbia em 2001, Garcia está prometendo uma "mudança responsável", lema de sua campanha. Sua renovação está sendo observada de perto por empresas mineradoras estrangeiras, preocupadas com seus investimentos, e o governo Bush, que está cautelosamente otimista, acreditando que será capaz de trabalhar com um eventual governo Garcia.

"Admito ter cometido erros, porque eu era jovem, mas mudei", disse Garcia aos repórteres recentemente. "Não sou tolo para repetir as mesmas coisas que fiz, e que não funcionaram. Aprendi e amadureci."

Em vez disso, o candidato promete promover o comércio, atrair investimentos e conter a inflação. E assegura que vai oferecer lugares em seu governo para membros de outros partidos, até de Humala. "A Apra tem que dividir o poder; tem que compartilhar o governo", disse ele durante uma turnê de campanha no Norte do Peru.

Garcia não quis dar entrevista. Mas Jorge del Castillo, amigo e secretário de seu partido, disse que está "menos dogmático, menos ideológico" que antes.

"Ele é mais pragmático, realista -conhece o mundo", disse del Castillo em entrevista em seu escritório. "Quando estava na França, ele viu como funcionavam os países social-democratas, e agora está pronto para uma mudança."

Com seus poderes de persuasão, Garcia foi destruindo sua má fama. Em um comício na quinta-feira à noite (01/6), ele caminhou pelo palco e animou uma multidão de milhares de pessoas por uma hora e 15 minutos, sem usar notas ou perder o ritmo, pontuando o ar com o indicador para dar ênfase. Ele cobriu tudo, desde a história do Peru até créditos para pequenos agricultores e a necessidade de eletrificação rural.

Hoje, ele se posiciona mais próximo do centro, menos de esquerda e mais como irmão ideológico dos sociais democratas europeus. Mas o lado populista ainda é perceptível.

Garcia disse que ia renegociar os contratos com empresas mineradoras e lutaria para proteger os agricultores, agora que o Peru assinou um acordo de comércio livre com os EUA. Ele promete remédios mais baratos e empréstimos às pequenas empresas, que os analistas dizem que o Peru terá dificuldade em pagar.

As grandes filas de comida em sua presidência, diz ele, são coisas do passado. "Muitas pessoas temem Alan Garcia e a Apra pelas filas, mas não vai acontecer", disse ele. "Nosso compromisso é com uma economia sólida e estável, sem filas."

Garcia manteve sua posição dianteira firme pois os peruanos estão com medo de seu oponente, Humala, que venceu o primeiro turno das eleições no dia 9 de abril prometendo redistribuir a renda do país.

Com seus planos econômicos vagos e seus laços com Chavez, presidente de esquerda venezuelano, Humala teve dificuldade em conquistar o apoio dos eleitores de Lima que apoiaram uma candidata pró-empresas, Lourdes Flores, eliminada no primeiro turno.

Apesar de as pesquisas dizerem que pode haver um bloco escondido de apoio a Humala, particularmente nos Andes onde as pessoas são mais pobres, muitos eleitores mudaram para Garcia, mesmo infelizes com a escolha.

"Essa eleição é entre o câncer e a Aids", disse Carlos Rios, 47, administrador de empresas. "Quase todo mundo está se sentindo assim. As pessoas pensam em votar no menos pior, pensam em votar no mal que conhecem contra o mal que não conhecem."

Rios disse que ia votar em Garcia, relutantemente, apesar de lembrar-se bem demais como os peruanos precisavam de milhões de intis -a moeda do governo Garcia- para fazer compras simples nos anos 80.

Os peruanos tampouco esqueceram o caos e as privações do mandato de Garcia.

David Torres, 24, que era apenas um menino quando Garcia estava na presidência, lembra-se de blecautes constantes e da falta de comida. Carlos Jose Pereira, 48, economista desempregado, lembra-se de como o Sendero Luminoso detonava bombas regularmente. "Você saía e não sabia se um carro ia explodir, ou quando seria o próximo ataque terrorista", disse ele.

Carlos Reyna, analista político que escreveu um livro sobre a presidência de Garcia, disse que um novo governo do presidente não seria beligerante contra Washington, contra as grandes multinacionais que operam no Peru ou contra o Fundo Monetário Internacional, todos monstros em seu primeiro governo. No entanto, ele retém um veio semi-autoritário que ameaça as instituições peruanas e o decoro democrático, disse Reyna.

Para muitos, porém, seu opositor, Humala -que liderou um golpe fracassado em 2000- é considerado ainda mais antidemocrata. Por comparação, Garcia foi capaz de se retratar como moderado.

Ainda assim, Garcia pediu que o Congresso fosse dissolvido se os congressistas não aceitassem um corte nos salários, falou em "dinamitar" o sistema político peruano e chamou seu concorrente de "assassino".

"É o populismo clássico de um líder que atropela as instituições e, nesse sentido, Alan não mudou", disse Reyna. "Dentro da Apra, é imperador, não tolera competidores; não permite democracia dentro do próprio partido."

Muitos peruanos, entretanto, estão dispostos a perdoar o passado. Em sua turnê pelo Norte do Peru, os eleitores em La Union, depois do entusiasmado discurso de Garcia na terça-feira, estavam prontos para esquecer e perdoar.

"Todos nós lembramos dos problemas de antes, mas era um governo jovem, sem experiência", disse Antonio Vaca, 58, fazendeiro. "Ele merece uma segunda chance, porque hoje é um homem com grande experiência, e podemos acreditar que ele vai nos dar um governo muito bom." Deborah Weinberg

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