UOL Notícias Internacional
 

03/06/2006

Vigilantes online corrigem injustiças reais e imaginárias

The New York Times
Howard W. French

em Xangai, China
Começou com um carta passional de 5 mil palavras para um dos mais populares boletins informativos de Internet do país, de autoria de um marido, denunciando um estudante universitário que ele suspeitava estar tendo um caso com sua esposa. Imediatamente, centenas se juntaram ao ataque. "Vamos usar nosso teclado e mouse como armas em nossas mãos", escreveu uma pessoa, "para cortar a cabeça destes adúlteros, para pagar o sacrifício do marido".

Em questão de poucos dias, centenas se tornaram milhares, e então dezenas de milhares, com estranhos formando equipes que caçaram o estudante, o fizeram fugir da universidade e levaram a família dele a se entrincheirar dentro de casa.

Este foi apenas o exemplo mais recente de um fenômeno crescente que os chinesas chamam de caçada de Internet, na qual lições de moral são ministradas por turbas online e onde usuários anônimos de Internet se reúnem para investigar outros e determinar a punição para ofensas reais e imaginárias.

Em casos recentes, pessoas investigaram maridos suspeitos de trair suas esposas, fraude em sites de leilão na Internet, a vida secreta de celebridades e crimes não solucionados. Um caso que atraiu um grande número de seguidores envolveu o envenenamento de um estudante da Universidade de Tsinghua, um fato que ocorreu em 1994, mas que foi ressuscitado por estranhos curiosos após ter se espalhado o boato de que o único suspeito no caso tinha sido interrogado e liberado.

Mesmo um recente escândalo envolvendo um alto cientista da computação chinês, inocentado de copiar o projeto de um processador americano, veio à tona em parte devido à caçada de Internet, com vários comentaristas online questionando o projeto e pressionando os patrocinadores do cientista a estudarem as alegações.

Apesar de guerras na Internet poderem surgir em qualquer lugar, estes casos provocaram alarme na China, onde este tipo de comportamento coletivo levou à violência no passado. Muitos traçaram paralelos perturbadores com a Revolução Cultural, cujo 40º aniversário ocorre neste ano, em que multidões de estudantes zombavam e espancavam seus professores. Denúncias em massa e julgamentos sumários se tornaram a ordem do dia por uma década.

Nos últimos anos, o governo aumentou o controle sobre a Internet, censurando ferramentas de busca populares, como Google e Technorati; empregando milhares de policiais de Internet e exigindo que os clientes de cafés de Internet fornecessem identificação.

O governo fala com freqüência de registrar todos os usuários de Internet, e muitos temem que a onda de ameaças e vigilantismo online poderia servir de pretexto para impor novos limites aos usuários.

O caso do marido enganado veio à tona em meados de abril, depois que o homem, que adotou o nome de Internet de "Lâmina Gelada", descobriu uma correspondência online entre sua esposa, "Lua Serena", e um estudante universitário, "Bigode de Bronze". Após uma conversa inicial, na qual ele perdoou a esposa, o homem descobriu mensagens no computador da esposa que confirmavam que o caso continuava. Ele então postou a carta denunciando Bigode de Bronze e o identificando pelo nome verdadeiro.

O caso explodiu em 20 de abril, quando um manifesto contra Bigode de Bronze foi publicado por alguém usando o nome de "Azaléia da Primavera".

"Nós convocamos toda empresa, todo estabelecimento, todo escritório, escola, hospital, shopping center e rua pública a rejeitá-lo", dizia o manifesto. "Não o aceitem, não o admitam, não se identifiquem com ele até que ele realize um ato de contrição satisfatório e convincente."

Pessoas fervorosas se uniram para descobrir o endereço do estudante e número do telefone, sendo que ambos estavam disponíveis online. Logo, pessoas ansiosas para condená-lo apareceram em sua universidade e na casa dos pais dele, o forçando a abandonar a escola e se esconder em casa com sua família.

Outros condenaram a universidade por não expulsá-lo, com uma pessoa postando que ela deveria ser "bombardeada por mísseis iranianos". Muitos outros disseram que o estudante deveria ser espancado ou decapitado, ou que ele e a mulher casada deveriam ser postos em uma "gaiola de porco" e afogados.

"Desde o início, todo dia pessoas telefonam e vêm até nossa casa, e todos estamos muito transtornados", disse o pai do estudante, que foi entrevistado por telefone mas se recusou a dizer seu nome. "Esta é uma coisa horrível e as empresas de Internet deveriam impedir tais ataques, mas ainda não falamos com elas. Eu nem saberia com quem falar."

Na esperança de acabar com as críticas, Bigode de Bronze postou um vídeo de seis minutos negando qualquer caso com Lua Serena, que ele disse ter conhecido em um encontro de fãs do jogo online "World of Warcraft". Ao mesmo tempo, Lâmina Gelada já pediu duas vezes para que as pessoas cessassem os ataques, até mesmo negando a existência de um caso -sem nenhum resultado.

No seu auge, o caso de Bigode de Bronze foi responsável por aumentos imensos de tráfego nos boletins de informação na Internet, incluindo um aumento de quase 10% no tráfego diário do Tianya, o boletim com maior número de usuários.

Em muitos países, os boletins informativos eletrônicos remontam os
primórdios da Internet, antes dos browsers serem comuns e quando mensagens de texto eram postadas de forma estática e em preto e branco. Mas na China atual, os boletins informativos, ou BBSs, foram atualizados de forma colorida e continuam no coração da cultura de Internet do país.

"Nosso site na Internet é uma plataforma, não um tribunal", disse Zeng Lu, o webmaster do Tianya, que diz receber 40 milhões de visitas por dia e alega ser o maior BBS do mundo. "Nós não podemos julgar quem é bom ou ruim segundo algum padrão moral, mas temos nossa política. Se é um ataque pessoal contra alguém, nós apagamos, mas é muito difícil, dado termos 10 milhões de usuários."

Apesar de preocupados com as ameaças online, defensores da liberdade de
expressão dizem que não há motivo para as autoridades chinesas imporem
maiores limites à Internet.

"A Internet deveria ser livre, e sempre fui contra a idéia de registrar
usuários, porque este talvez seja o único canal que temos para discussão livre", disse Zhu Dake, um sociólogo e crítico cultural da Universidade de Tongji, em Xangai. "Por outro lado, a Internet está sendo distorcida. Isto cria um dilema muito difícil para nós."

Zhan Jiang, um professor de jornalismo da Universidade Jovem da Ciência
Política da China, em Pequim, disse: "Como a liberdade de expressão não é bem protegida aqui, nós temos que escolher o menor de dois males. A minoria que está ferindo outras pessoas em tais casos deve ser impedida, mas este comportamento não deve perturbar a liberdade de expressão da maioria".

Mas há óbvios inconvenientes para a discussão livre, como o caso de Bigode de Bronze ilustrou. "O que nós, usuários de Internet, estamos fazendo é cumprir nossas obrigações sociais", disse um homem que postou um longo ataque contra o estudante universitário e seu suposto caso. "Nós não podemos permitir que a sociedade caia a um estado tão baixo."

Ao ser perguntado sobre como ele reagiria se pessoas começassem a postar alegações sobre sua vida privada, ele respondeu: "Eu acredito fortemente no ditado tradicional de que se você não fez nada de errado, não é preciso temer a batida à sua porta à meia-noite". George El Khouri Andolfato

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