UOL Notícias Internacional
 

04/06/2006

Uma conversa no almoço que mudou a posição americana em relação ao Irã

The New York Times
Helene Cooper e
David E. Sanger
Em Washington
Em uma tarde de terça-feira, há dois meses, a secretária de Estado, Condoleezza Rice, se sentou para um pequeno almoço na sala de jantar privada do presidente Bush, atrás do Escritório Oval, e apresentou notícias desagradáveis para seu chefe: a coalizão deles contra o Irã estava correndo o risco de se desfazer.

Uma reunião da qual ela tinha participado em Berlim, dias antes, com ministros das relações exteriores europeus, tinha sido um desastre segundo os participantes da discussão, ela informou. O Irã estava explorando muito bem as divisões entre os europeus e a Rússia, prosseguindo aceleradamente com seu enriquecimento de urânio. O presidente fez careta, lembrou um assessor, interpretando o olhar como um de irritação "que dizia, 'Certo, equipe, qual é a resposta?'"

Tal linguagem corporal causou um esforço fechado de dois meses para se chegar a uma estratégia drasticamente diferente. Rice expunha a idéia de que os Estados Unidos encerrariam sua política de quase três décadas contra conversações diretas com o Irã.

Os assessores de Bush raramente descrevem o debate de políticas no Escritório Oval com tanto detalhe. Mas ao recontarem suas decisões neste caso, eles parecem ansiosos em retratá-lo como determinado a reconstruir uma coalizão dividida, ainda exibindo as cicatrizes do Iraque, e a encontrar um forma de sair de uma dinâmica de negociação, como colocou um assessor recentemente, "na qual os iranianos estão vencendo".

Bush ficou aos poucos mais à vontade com a possibilidade de negociações com um país que ele considera o principal Estado patrocinador do terrorismo, e cujo presidente tem defendido a eliminação de Israel do mapa. Os próprios receios iniciais de Bush sobre o caminho que estava considerando apareceram em uma série de telefonemas para Rice e Stephen J. Hadley, seu conselheiro de segurança nacional, que freqüentemente começavam com perguntas do tipo, "E se os iranianos fizerem isto", adicionando uma série de situações possíveis.

Bush deixou aberta a opção de descartar a idéia inteira até o início da manhã de quarta-feira, disseram três altos funcionários, falando sob a condição de anonimato porque estavam descrevendo debates internos na Casa Branca. Ele tomou a decisão final apenas após telefonemas para o presidente da Rússia, Vladimir Putin, e para a chanceler alemã Angela Merkel, que o levaram a concluir que se Teerã se recusasse a suspender seu enriquecimento de urânio, ou fizesse corpo mole, eles apoiariam uma escalada de sanções contra o Irã na ONU, que poderiam levar a um confronto.

Mesmo após Bush ter editado a declaração que Rice leria na quarta-feira, antes de voar para Viena para encorajar a Europa e a Rússia a chegarem a um acordo quanto ao pacote de incentivos para o Irã --e sanções caso a oferta seja recusada-- Rice quis checar mais uma vez. Ela telefonou para Bush. Ele estava certo de sua decisão?

"Pode seguir em frente", ele respondeu.

Ela o fez, mas os resultados continuam incertos. O Irã não deu nenhum indício de que aceitará a condição de Bush, a suspensão da produção de combustível nuclear. O presidente Mahmoud Ahmadinejad disse na sexta-feira (2/6) que é contrário a "qualquer pressão para privar nosso povo de seu direito" de buscar um programa nuclear pacífico.

A agência de notícias Irna informou que o ministro das Relações Exteriores do Irã, Manouchehr Mottaki, disse no sábado que Javier Solana, o representante de política externa da União Européia, iria a Teerã nos próximo dias com um novo pacote de incentivos.

"O Irã examinará a proposta e anunciará sua opinião depois disto", disse Mottaki. Os assessores de Bush agora reconhecem que a abordagem que antes descreviam publicamente como bem-sucedida em "isolar" o Irã, era na verdade vista internamente como não levando a lugar nenhum. A busca por Bush de uma nova opção foi movida, eles disseram, pela preocupação de que o caminho que ele estava seguindo dois meses atrás inevitavelmente forçaria um entre dois resultados potencialmente desastrosos: uma bomba iraniana ou um ataque americano contra instalações do Irã.

Os conservadores, mesmo alguns de dentro do governo, temem que Bush possa ser forçado a fazer outras concessões, incluindo permitir que o Irã mantenha alguma pequena produção de combustível nuclear. Outros temem que os compromissos que Bush acredita ter extraído de outros líderes mundiais possam ruir.

Mas a história de como um presidente que raramente muda de opinião o fez neste caso --após recusar propostas semelhantes em relação ao Irã quatro anos atrás-- ilustra a mudança da dinâmica entre o Departamento de Estado e a Casa Branca no segundo mandato de Bush. Quando Colin L. Powell era o secretário de Estado, os dois prédios pareciam freqüentemente em guerra. Mas 17 meses depois que Rice assumiu, o relacionamento dela com Bush levou a políticas que um ex-conselheiro de Rice e Bush disse "ele nunca teria permitido que Colin adotasse".

Não se sabe quanta dissensão, se é que houve, cercou a decisão, que parece ter sido tratada basicamente pelo presidente, Rice e Hadley, com outros altos funcionários de segurança nacional tendo um papel mais remoto. Tanto funcionários da Casa Branca quanto do Departamento de Estado disseram que o vice-presidente Dick Cheney, um oponente de propostas de negociações com o Irã, concordou com a experiência. Mas não se sabe se ele é um entusiasta ou apenas espera que o Irã rejeite a suspensão do enriquecimento --abrindo caminho para sanções que poderiam testar a capacidade de sobrevivência do regime iraniano.

Após a eleição surpresa de Ahmadinejad no ano passado, o Irã encerrou sua suspensão do enriquecimento de urânio, e os Estados Unidos e a Europa obtiveram resoluções da Agência Internacional de Energia Atômica para levar o assunto ao Conselho de Segurança da ONU. Mas foram necessárias semanas para a obtenção da mais fraca das ações do Conselho de Segurança --uma "declaração presidencial". A Rússia, que tem enormes interesses financeiros no Irã e está fornecendo os reatores nucleares, está particularmente relutante em pressionar demais os iranianos.

Em um jantar privado em 6 de março em Watergate, entre Rice, Hadley e Sergey Lavrov, o ministro das Relações Exteriores da Rússia, este alertou que o Irã poderia fazer o que a Coréia do Norte fez em 2003 --expulsar os inspetores e abandonar o Tratado de Não-Proliferação Nuclear. Isto poderia fechar a maior janela para o programa iraniano, tornando difícil a avaliação da capacidade do país de produzir uma bomba -o mesmo problema que levou a erros imensos no Iraque.

Em 30 de março, Rice viajou para Berlim para o que se tornou uma reunião fracassada com representantes de outros quatro membros permanentes do Conselho de Segurança e da Alemanha. Ela perguntou que tipo de sanções seriam eficazes. A conversa não chegou a lugar nenhum.

Isto levou ao alerta de Rice a Bush durante o almoço, em 4 de abril, de que o momento para confrontar o Irã estava acabando. Bush, notou um assessor, estava recebendo avaliações especiais de inteligência a cada manhã, algumas sobre as intenções do Irã, outras examinando a personalidade de Ahmadinejad, outras explorando quanto tempo levaria para o Irã produzir uma bomba.

No fim de semana da Páscoa, Rice se sentou em seu apartamento e esboçou uma proposta em duas páginas para uma nova estratégia que seguiria três
caminhos: a ameaça de "medidas coercivas" por intermédio da ONU, negociações com o Irã que incluiriam o que Rice chamou de incentivos "ousados" para o país desistir da produção de todo combustível nuclear e um conjunto separado de estratégias para sanções econômicas, em caso de fracasso do Conselho de Segurança.

Pela primeira vez, a proposta dela também levantou uma possibilidade que o governo vinha evitando: será que tinha chegado a hora dos Estados Unidos usarem o que ela e Bush, ambos jogadores de bridge, chamavam de sua maior carta --a oferta de conversa com o Irã?

A idéia intrigou Bush, disseram funcionários da Casa Branca, e em 8 de maio, Rice se reuniu com ele poucas horas antes de voar para Nova York para uma reunião com seus pares europeus.

Ela lhe perguntou que tipo de postura adotar na reunião da ONU. Ela deveria sinalizar que os Estados Unidos estavam considerando negociações com o Irã? "Seja cuidadosa", ele disse, segundo funcionários familiarizados com a conversa. "Eu ainda não me decidi."

Naquele mesmo dia, chegou uma carta de 18 páginas de Ahmadinejad. Ela declarava a democracia liberal um fracasso, apesar de também ter sido vista por muitos com um esforço de contato e início de diálogo.

Rice e Hadley leram a carta no vôo para Nova York, mas a desdenharam. "Ela não trata das questões que estamos tratando de forma concreta", disse Rice naquele dia.

O encontro dela em Nova York com seus pares europeus provou ser difícil, particularmente uma conversa com Lavrov, que ainda estava irritado com o discurso de Cheney condenando a Rússia por seu comportamento cada vez mais autoritário. Mas a discussão, apesar de dividida, a convenceu de que a única forma de romper o impasse era oferecer se juntar às negociações.

Apesar de Bush estar intrigado, ele estava determinado a manter o assunto em segredo, de forma que quando o Conselho de Segurança Nacional se reuniu para discuti-lo em 17 de maio, ele alertou contra vazamentos. A sessão foi notável porque Cheney disse que ela poderia funcionar, em grande parte porque forçaria as opções a voltarem para o Irã. E apesar do conselho ter desprezado a carta, ela usou a reunião para discutir se a responderia ou não.

Apesar de Bush ter dito inicialmente a Rice que outros poderiam cuidar das negociações finais, Rice disse ao presidente que "apenas você pode resolver isto", aparentemente uma referência a manter Merkel e Putin a bordo. Bush deu os telefonemas.

Mas Bush, guiado por Rice, está assumindo um risco significativo. Ele deve manter unidos países que romperam amargamente com os Estados Unidos três anos atrás em relação ao Iraque. E agora ele parece bastante ciente de que parte de seu legado dependerá de sua capacidade de impedir o Irã de despontar como potência nuclear no Oriente Médio, sem ter que recorrer novamente à força militar.

*Nazila Fathi contribuiu para este artigo com reportagem em Teerã. Bush parece bastante ciente de que parte de seu legado dependerá de sua capacidade de impedir o país de despontar como potência nuclear no Oriente Médio, sem ter que recorrer novamente à força militar George El Khouri Andolfato

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