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04/06/2006

Verão perdido: a infindável labuta dos candidatos à universidade

The New York Times
Alex Williams
Escutando Craig Nadler, você poderia se perguntar quando ser adolescente deixou de ser divertido. Talvez tenha sido durante este ano escolar. Craig, 18, vem fazendo malabarismos entre cinco cursos de Colocação Avançada, um lugar na equipe colegial de tênis, a presidência do programa de direção segura e o trabalho como mentor de calouros.

Mas no último verão ele esteve igualmente ocupado. "Foi horrível", disse Craig, aluno da última série colegial da Briarcliff High School em Briarcliff Manor, Nova York. Além de "uma quantidade enorme" de leituras acadêmicas e dois ensaios que tinha de entregar no primeiro dia de aula, ele teve "um volume maluco de problemas de cálculo para resolver". Quatro dos cinco cursos de Colocação Avançada que ele fez este ano exigiram que trabalhasse no último verão.

"Só posso dizer que graças a Deus tudo isso terminou!", disse Craig, cuja labuta de 12 meses o recompensou com a admissão na Universidade Georgetown.

Antigamente, o verão para os adolescentes significava uma temporada de trabalhos esporádicos e dias preguiçosos na praia ou no clube local. Mas para um número pequeno porém crescente de estudantes decididos a entrar na faculdade, como Craig, o verão tornou-se o momento de fazer trabalhos acadêmicos complexos para rechear o currículo e duros projetos, muitas vezes exóticos, para mudar o mundo.

Movidos principalmente pela grande concorrência para entrar nas faculdades e universidades de elite, os adolescentes estão saindo dos exigentes compromissos do ano escolar para atividades de verão igualmente desafiadoras, segundo diretores de escolas e pais. As autoridades de admissão nas faculdades, enquanto isso, estão analisando ensaios pessoais que poderiam ter sido escritos por ex-membros do Peace Corps.

"Hoje não é mais ficar pela praia e ser salva-vidas em meio período", disse o dr. William Damon, professor de educação em Stanford e ex-membro do comitê de políticas de admissão da universidade. Ele disse que o aumento de atividades durante o verão nos últimos cinco anos foi notável, pois um número cada vez maior de estudantes se esforça virtualmente o ano inteiro para entrar nas melhores universidades.

Existe uma crescente sensação entre os estudantes e seus pais de que o tempo de lazer é desperdiçado, disse Stacy Harvey, conselheira vocacional na Santa Monica High School, na Califórnia. Os alunos realizam mais trabalhos voluntários no verão, segundo ela, e também fazem cursos para se livrar dos requisitos básicos, liberando seus horários para cursos de alto nível que impressionam nas inscrições para a faculdade.

David Petersam, um consultor vocacional particular em Vienna, Virgínia, disse que os estudantes estão no caminho certo. "Nós encorajamos nossos candidatos a ocupar-se durante o ano todo", ele disse.

Ele recomenda que seus clientes adolescentes sejam voluntários durante as férias e se matriculem em programas acadêmicos de verão como os da Universidade de Chicago e Brown, que permitem que os estudantes colegiais vivam no campus e freqüentem cursos da faculdade.

Embora existam poucas pesquisas formais sobre as atividades de verão dos adolescentes ambiciosos, um número crescente de estudantes colegiais está adotando mais atividades escolares para melhorar suas chances nas matrículas, o que geralmente exige trabalhar no verão.

O número de alunos que faz pelo menos um teste de Colocação Avançada aumentou 142% desde 1995, segundo o College Board, que aplica esses testes de aptidão. Como muitos desses cursos --originalmente um início do trabalho de faculdade, mas hoje usado principalmente para impressionar os comitês de admissão-- exigem preparo, significam um verão carregado para os que decidem fazê-los. O número de alunos que fez quatro dos testes aumentou 48% em dez anos.

A quantidade de voluntários também está aumentando: 34% dos alunos da última série colegial realizaram serviço comunitário pelo menos uma vez por mês em 2001, contra 24% em 1980, segundo o Departamento de Educação dos EUA; 10% foram voluntários semanalmente. A urgência de encaixar cada vez mais atividades em suas vidas, ocupando até o verão, poderá levar alguns alunos a sentir que perderam, ou pelo menos adiaram, o lado mais leve e divertido da adolescência.

"A sensação despreocupada de ser jovem, acho que estou esperando que venha quando eu estiver na faculdade", disse Kristen Liu, uma ocupada estudante de 17 anos da Bard High School Early College, em Nova York. Seus planos para o verão incluem uma viagem a Washington para trabalhar com questões de direitos de reprodução, depois de seis semanas em Pequim como voluntária num hospital.

Sua mãe, Lily Liu, que, como filha de imigrantes chineses, trabalhou todos os dias de verão na adolescência, disse que se surpreende com a pressão que os estudantes como sua filha parecem sofrer.

"É definitivamente diferente da nossa época", disse Liu, acrescentando que a pressão para ter ótimo desempenho aumentou para os adolescentes mesmo no curto período desde que sua filha mais velha, hoje com 24, estava no colegial. "A moda da faculdade realmente coloca muita pressão sobre eles: é uma vida diferente", ela disse.

O que também deixa muitos adultos ligeiramente espantados. "Todas as pessoas que conheço que estão em comitês de admissão dizem: 'Graças a Deus que não estou me candidatando hoje'", disse Damon, de Stanford. "Como esses garotos fazem tanta coisa aos 16 anos?"

O dr. Alvin Rosenfeld, psiquiatra e membro do conselho do Centro para Saúde Mental e Mídia da Escola de Medicina de Harvard, disse que os pais são pelo menos em parte responsáveis pelo excesso de atividade dos adolescentes.

"Ser pai tornou-se um esporte muito competitivo, e a medalha de ouro é colocar seu filho em Harvard", disse Rosenfeld, um dos autores de
"Hyper-parenting: Are You Hurting Your Child by Trying Too Hard?" (St.
Martin's Press, 2000) [Hiperpais: Vocês estão prejudicando seu filho fazendo-o se esforçar demais?]. "Não é possível um ser humano ser quem os jovens dizem que são", ele acrescentou. "Tudo está na base de esteróides."

Bem, nem tudo. O número de estudantes colegiais que compete neste decatlo das grandes universidades tende a ser uma pequena fatia dos mais ambiciosos, disse o dr. Joseph L. Mahoney, psicólogo da Universidade Yale, que recentemente colaborou em um estudo intitulado "Participação em atividades organizadas e a hipótese de superprogramação".

É apenas "um pequeno e extremo subgrupo que se envolve altamente nessas atividades", diz a pesquisa de Mahoney, que segundo ele será publicada este ano. Ele disse que 6% dos estudantes colegiais passam mais de 20 horas por semana em atividades extracurriculares, que não incluem lição de casa.

"Existe uma associação geral: as famílias que têm renda maior, as famílias mais afluentes, têm jovens que participam" de atividades extracurriculares "durante um número maior de horas", ele disse.
Enquanto alguns estudantes podem depender dos pais para pagar seu voluntarismo --por exemplo, a empresa privada Putney Student Travel oferece um programa de verão de cinco semanas de seminários em Yale e uma viagem para o Camboja para examinar questões de pobreza por US$ 6.990--, outros devem trabalhar para ajudar a financiar seus estudos.

Rosary Abot, 17, estudante da última série na Loretto High School em Sacramento, pretende viajar neste verão às Filipinas com um grupo da escola para trabalhar com crianças malnutridas e suas mães. Para ajudar seus pais a pagar o custo de US$ 1.500, ela trabalhou como babá de crianças e de gatos durante o ano escolar.

Rosary, como muitos estudantes entrevistados que vão fazer serviços voluntários no verão, disse que seu principal motivo foi o altruísmo; impressionar as faculdades é secundário.

A dra. Suniya S. Luthar, professora de psicologia no Teachers College da Universidade Columbia, coordenou um estudo recente que examinou a superprogramação de crianças e adolescentes ricos. A pesquisa mostrou que os adolescentes colocavam a "diversão" como seu maior motivo para participar de tantas atividades, seguido da sensação de que é "bom para seu futuro" e finalmente porque "os adultos querem que eu faça".

Luthar notou que "o número de horas semanais de atividades tinha muito pouco a ver com seus sentimentos de estresse, depressão ou ansiedade.
"Talvez estejamos dando ênfase demais para o número de atividades em si", ela disse. "Ter atividades pode fazê-lo sentir-se eficaz, conectado, útil.

Pode ser quase uma liberação catártica para talentos criativos."
De fato, enquanto alguns pais e educadores se preocupam com as vidas agitadas de seus adolescentes, os estudantes muitas vezes afirmam que quanto mais fazem, maior sua satisfação. Segundo Mahoney, de Yale, seu estudo indicou que, de modo geral, quanto mais ocupada mais a criança floresce.

"De modo geral as crianças que participam se saem melhor em termos de felicidade, auto-estima e realização", ele disse.

Mas Lee Stetson, o reitor de admissões da Universidade da Pensilvânia, aconselha que os estudantes não devem se ocupar apenas para se ocupar.
"É um equilíbrio delicado", ele disse, explicando que "ficar deitado numa rede lendo um bom livro também é importante." A questão para as faculdades é que quando os estudantes se vêem com um "tempo livre prolongado --como o verão--, fazer alguma coisa produtiva como experiência de crescimento é positivo. Essa é mais a medida", disse Stetson. "Não queremos que eles fiquem frenéticos para preencher todos os momentos."

Desirae Clodfelter, 18, aluna da última série da Robert B. Glenn High School em Kernersville, Carolina do Norte, teve um ano atarefado, em que foi oficial em estudos de governo e voluntária no combate à pobreza global através da organização juvenil sem fins lucrativos NetAid, e pretende voltar à Romênia para trabalhar com órfãos durante nove semanas.

Ela não se arrepende de seu verão atarefado, que será semelhante aos anteriores. Alguns verões atrás, ela reservou um sábado como "fim de semana livre na praia". Mas acabou em conflito com um curso de enfermagem para trabalhar como voluntária na Cruz Vermelha. Suas amigas foram à praia sem ela. "Consegui o certificado, por isso compensou", disse Desirae. "Eu não passo mais muito tempo com minhas amigas", ela acrescentou, "mas acho que uma mão lava a outra." Período torna-se o momento de fazer trabalhos acadêmicos complexos para rechear o currículo e duros projetos, muitas vezes exóticos Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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