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05/06/2006

O meu outro carro é um milionário

The New York Times
Don Sherman
Culpem Milton Robson, um colecionador de carros de Atlanta, pelos preços elevadíssimos dos carros superpotentes.

Quatro anos atrás, Robson, um ex-atacadista de produtos para mercearias, publicou um anúncio de meia página na revista "Hemmings Motor News" a fim de vender o seu Plymouth Barracuda 1971, um conversível equipado com um motor Hemi V-8 e uma transmissão manual de quatro marchas. O preço pedido --US$ 1 milhão-- foi impressionante, ainda ao se considerar que o carro era um dos seis "Cudas" igualmente equipados que a Chrysler fabricou em 1971.

"Quando vi o anúncio de Robson, disse para mim mesmo: 'Bem, ele tem que começar com algum patamar'", contou Colin Comer, presidente da Colin's Classic Automobiles, uma associação de donos de carros clássicos, em Milwaukee. "Mas ele manteve o preço, e o seu Hemi Cuda acabou nas mãos de um revendedor que efetuou rapidamente o negócio".

O preço, que antigamente era visto como astronômico, parece hoje em dia ser bem razoável, à medida que os sobreviventes da era dos carros superpotentes ingressam no clube dos milionários, deslocando da ribalta Bugattis, Ferraris e Duesenbergs. Em janeiro, no leilão de carros de colecionadores Barrett-Jackson, em Scottsdale, no Estado do Arizona, dois ícones do período foram arrematados por preços na casa dos sete dígitos.

Um Chevrolet Chevelle 1970, com um motor V-8 de 454 polegadas cúbicas, e com uma pintura da época em que era um campeão de corridas de dragsters, foi vendido por US$ 1.242.000. E um Plymouth Hemi Cuda 1970, conversível e de cor laranja berrante, foi arrematado por US$ 2.160.000.

Dois meses depois, um Shelby Mustang GT350R de 1965, com uma história de vitórias nas pistas de corrida, por pouco não alcançou os sete dígitos, e foi comprado por US$ 990 mil. Um carro de corridas Shelby Cobra foi vendido por US$ 1,65 milhão no mesmo leilão em Amelia Island, na Flórida.

Por que um carro que custava US$ 5 mil quando novo, há 35 anos, é vendido hoje por US$ 1 milhão ou mais? A resposta simples é que os compradores ricos sabem o que querem e estão dispostos a pagar por isto. E anos de preços em alta constante fizeram com que a aquisição de um carro potente raro se tornasse fácil de justificar como um exemplo de investimento carregado de satisfação pessoal.

Embora não exista uma definição concisa daquilo que define um carro superpotente, está claro que a corrida pelos cavalos-força em Detroit sofreu um aquecimento considerável com a chegada do Pontiac GTO em 1964. A escalada dos preços entre os fabricantes de carros continuou durante oito anos, até que a disparada dos seguros, a gasolina sem chumbo e a tendência pela fabricação de modelos com menos cavalos fizeram com que o consumidor se voltasse para os carros de luxo pessoais.

Os puristas insistem em que um carro superpotente se compõe da conjugação de um motor grande com um chassi de quatro ou cinco lugares, citando o exemplo do GTO original. Os motores possuem, tipicamente, de 383 a 454 pés cúbicos em deslocamento (no jargão comum, o V-8 de "bloco grande"), com especificações de fábrica de até 450 cavalos.

Embora carros esportivos como o Shelby Cobra e o Chevrolet Corvette possam ser qualificados com base no número de cavalos-força e na performance de zero a 60 milhas por hora, os aficionados vêem esses potentes modelos de dois lugares como simples membros afiliados de seu clube. E os carros importados jamais foram considerados sócios potenciais.

Comer, 34, nasceu quando a era dos carros superpotentes chegava ao ocaso.

Ele admite que parte da sua afeição por estes carros é pura rebeldia. "O meu pai me disse que carros superpotentes eram brinquedos baratos de criança", conta ele. "Então eu achei que se o meu pai não gostava desses carros, isto significava que eles eram algo de muito legal".

Assim como os preços para outros tipos de artigos de colecionadores, os valores dos carros superpotentes são determinados por diretrizes bem estabelecidas. Nesta classe de preços elevados, os compradores e vendedores experientes utilizam uma linguagem especial para falar sobre as qualidades dos veículos.

A raridade é uma virtude. Em 1969, a Chevrolet fez 69 Camaros para corrida, dotados de motor de alumínio V-8 de 427 polegadas cúbicas. Devido ao fato de até mesmo esta escassa oferta exceder a demanda --a opção de motor ZL1 custava mais do que o carro básico-- vários deles ficaram encalhados nas revendedoras. Hoje em dia, estes estão entre os Camaros mais procurados.

Recentemente, Comer vendeu um desses modelos por US$ 840 mil, e espera superar em breve a marca de US$ 1 milhão.

Equipamentos opcionais agregam valor, especialmente aquelas características menos comuns fornecidas pela própria fábrica, como o motor mais poderoso do ano de lançamento do modelo, ou uma transmissão reforçada. As opções de alta performance podem distinguir um carro potente de ponta de um Plymouth Satellite que conta com pouco mais do que assentos comuns e um motor típico de um sedã de automóvel de família. "Os especuladores que adquirem carros de menor qualidade na esperança de que a o mercado em ascendência dos automóveis potentes milionários puxe o preço daqueles carros para cima estão equivocados", afirma Comer. "Os ajustamentos de mercado são inevitáveis.

Quando isso acontece, os especuladores que adquiriram carros de menor expressão se dão mal".

A história é importante, e a documentação crucial. Aquilo que os colecionadores definem como "procedência" rastreia as origens do carro por meio de uma série de documentos de venda, papéis inseridos sob o banco traseiro pelos trabalhadores na linha de montagem, fotografias de proprietários anteriores ou troféus ganhos nas pistas.

Acompanhando o Chevelle arrematado por US$ 1,2 milhão no leilão de janeiro estava um título original de Nova Jersey, um "diagrama de construção" de fábrica e uma coleção de artigos de revistas narrando as vitórias do carro nas pistas. Ray Allen, que dirigiu o carro e supervisionou a sua restauração, estava presente em Barrett-Jackson para esclarecer qualquer dúvida quanto à história do veículo.

O estado da mercadoria é um fator crucial para que se estabeleça o valor de uma peça de colecionador, seja ela um armário antigo ou um automóvel clássico. Mas, no que se refere ao estado da peça, existe muito mais do que aquilo que se percebe superficialmente.

Embora compradores de primeira viagem possam ficar impressionados por pinturas brilhantes e cromados impecáveis, os colecionadores experientes dos carros superpotentes vão mais fundo. Eles procuram carros que estejam em um estado o mais semelhante possível daquele de quando saíram da fábrica.

Modelos totalmente originais são raros. A maioria dos carros superpotentes passou por modificações exuberantes nas mãos de jovens proprietários.

As restaurações variam muito, tanto quanto no nível das técnicas utilizadas quanto ao fato de as modificações terem sido ou não apropriadas. Na linguagem complexa usada para descrever até que ponto um carro se adéqua às especificações de fábrica, os "números correspondentes" são comumente usados. O termo indica que o carro ainda possui o mesmo motor e componentes principais instalados na fábrica. Os números são marcas identificadoras gravadas ou estampadas nas peças.

Devido ao fato de poucos carros superpotentes terem sobrevivido com todos os seus equipamentos intactos --as peças do sistema de emissão são geralmente as primeiras a serem descartadas-- os restauradores de posse coletam as peças apropriadas para instalá-las naquele que parece ser o carro superpotente correto.

A descrição de números correspondentes não é um sistema totalmente rígido. O Chevelle de 1970, vendido em janeiro por US$ 1,2 milhão foi considerado um "carro restaurado de números correspondentes" porque ele é uma amálgama de partes corretas, embora estas não tenham sido originalmente instaladas neste carro em particular. Já o Barracuda que foi vendido por US$ 2,2 milhões no mesmo leilão é um "carro original de números correspondentes", já que possui o mesmo motor Hemi V-8 instalado em 1970.

Os carros superpotentes podem também ser restaurados com peças corretas, mas não originais, cujos números de identificação são removidos, e depois regravados - muitas vezes em uma reprodução de alta qualidade que é quase idêntica às gravações dos números feitas pela fábrica. Os vendedores podem apresentar honestamente esses carros feitos com conjuntos de peças sobressalentes como "clones", mas quando tentam vendê-los como originais, um termo mais direto é usado para descrevê-los: falsificações. Danilo Fonseca

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