UOL Notícias Internacional
 

06/06/2006

Desalojados pelo Katrina exigem ação

The New York Times
Susan Saulny

em Nova Orleans
Centenas de moradores desalojados de conjuntos habitacionais públicos voltaram a Nova Orleans pela primeira vez desde o furacão Katrina, armados com pouco mais que material de limpeza e frustração. Sua intenção é forçar a cidade a reabrir seus apartamentos danificados pela tempestade. A prefeitura, dizendo que os conjuntos não estão prontos, recusou-se.

Assim, grupos de moradores organizaram uma cidade de tendas chamada "Vila dos Sobreviventes", diante do maior complexo de habitação, o St. Bernard Housing Development. Mais distante do centro da cidade, no C.J. Peete Development, moradores idosos, na maior parte mulheres, invadiram suas antigas casas e limparam-nas, tirando as mobílias destruídas.

E no Florida Housing, em um bairro que foi totalmente alagado, os moradores cortaram as cercas de arame farpado para chegar as suas unidades. Logo formaram pilhas de destroços em torno da Rua Bartholomew, sob a auto-estrada Interestadual 10.

Em um calor de torrar os ossos, sob um céu sem nuvens, os desalojados vindos de Atlanta, Baton Rouge, Houston e outras partes esbravejaram contra a prefeitura e autoridades federais de habitação que reabriram menos de 1.000 das 8.000 unidades de moradias públicas, em uma cidade que está sofrendo uma crise de habitação e de falta de trabalhadores. No domingo, os inquilinos prometeram assumir o problema, consertar suas próprias unidades e voltar a viver permanentemente -com ou sem a permissão da prefeitura- assim que terminarem o serviço.

"Eles não vão nos ajudar e estamos cansados de esperar. As pessoas querem voltar para casa", disse uma moradora, Nickole Banks.

Os danos aos projetos habitacionais tiveram graus variados. Mas o Departamento de Habitação de Nova Orleans diz que a maioria das unidades -até 90%- não está segura ou habitável e que as avaliações ambientais demoradas ainda não foram terminadas.

Para os moradores, essas são desculpas. Eles temem que a prefeitura esteja realmente tentando reconstruir as áreas para atrair inquilinos com mais dinheiro -medida que algumas autoridades municipais e federais dizem ser desejável. Construtores privados discutiram abertamente a possibilidade de reconstruir alguns dos projetos para permitir uma variedade maior de moradores.

Como os proprietários privados estão sendo estimulados a voltar para as mesmas áreas, a questão de moradia pública entrou para um debate maior sobre o futuro da população pobre da cidade: será que Nova Orleans pretende se tornar lar para elas de novo? Depois da tempestade, muitas das instituições e serviços para os pobres da cidade quebraram e nunca foram reparadas: o Hospital Charity, instituição histórica para os pobres continua fechado; o sistema de defensoria pública não tem conseguido fornecer advogados para réus pobres; e o sistema de transporte público da cidade, que está essencialmente falido, fornece menos viagens para quem não tem cartão.

"Eles estão tentando roubar Nova Orleans de nós", disse Phyllis Jenkins, inquilina que tem morado em Fort Worth, diante do que antes era sua casa em St. Bernard Development no domingo. "Bem, não vou mais ser desalojada. Vou voltar para minha casa da forma que estiver. Já foram 10 meses. Eles têm que saber que estamos falando sério. Vamos ficar aqui até deixarem-nos entrar em nossas casas."

As autoridades locais em Nova Orleans já disseram claramente que não querem voltar à forma como as coisas eram antes da tempestade, quando 10 projetos de habitação tradicionais concentravam os moradores de baixa renda nas piores condições da cidade, gerando alta incidência de crimes e uso de drogas.

"Não precisamos recriar bolsões de pobreza, eles não funcionam", disse Oliver Thomas, conselheiro da cidade. "Queremos comunidades trabalhadoras, de níveis variados de renda. Acho que essa é realmente a única forma."

Algumas autoridades públicas fizeram comentários nada dissimulados sugerindo que a tempestade fez o favor de varrer os pobres da cidade. O deputado Richard H. Baker, republicano de Baton Rouge, teria dito depois do Katrina: "Finalmente limpamos as habitações públicas de Nova Orleans. Não conseguimos, mas Deus conseguiu."

Adonis Expose, porta-voz do Departamento de Habitação de Nova Orleans disse que o setor está estimulando parcerias público-privadas para a reforma dos projetos habitacionais, um movimento que já havia começado de maneira limitada em Nova Orleans anos antes da tempestade.

"Concluímos que estava funcionando e queremos fazer muitos outros projetos", disse ele.

Antes da tempestade, 2.000 unidades de moradia públicas foram demolidas para dar lugar a complexos mais novos e melhores, mas essas medidas geraram temores entre os moradores de que seriam simplesmente espalhados em pontos variados. Isso de fato aconteceu na reforma do Projeto St. Thomas, o maior e mais controverso até hoje. Atualmente, é um projeto de renda mista chamado River Garden, com apenas uma pequena fração do público original de inquilinos do projeto de habitação pública.

Os moradores que protestaram na segunda-feira e no final de semana temem que possa ser esse seu destino. Alguns deles vêem a falta de ação como uma estratégia, uma tática de adiamento, para diminuir as chances de muitos deles voltarem.

O Departamento de Habitação e Desenvolvimento Urbano dos EUA, que assumiu o controle da seção local falida há anos, diz que ainda está avaliando os danos da tempestade.

"Gostaria de poder dizer que tudo está bem, venham para casa", disse Orlando Cabrera, subsecretário do departamento. "Mas não está tudo bem. Temos partes inteiras da cidade com poucos serviços, com capacidade questionável em termos de infra-estrutura. Temos que fazer a pergunta difícil: O que essas pessoas fariam? Podemos botar pessoas ali?"
Ele disse que há fundos federais consideráveis disponíveis para que construtoras privadas reformem moradias públicas em situações como essa e que já foram solicitados por seu departamento.

Construtoras vêm pedindo permissão para reconstruir o mais valorizado dos projetos habitacionais de Nova Orleans, o Iberville Housing Development, que ocupa um ponto cobiçado do outro lado do bairro francês. O projeto em si é uma gema da construção da Depressão, com pequenas casas de cidade com sacadas de ferro que dão para quintais e carvalhos. Os prédios quase não foram danificados pelo Katrina e ainda abrigam centenas de famílias.

Michael Valentino, sócio de um grupo hoteleiro, e alguns inquilinos propuseram derrubar paredes para tornar os apartamentos maiores, acrescentar arte pública e fontes, e atrair novos moradores que pagariam aluguel de mercado. Até agora, não foram fechados acordos.

"A magia de Iberville é que a arquitetura é maravilhosa; o bairro poderia ser belo e vibrante novamente. É uma peça que liga a Rua Canal e o bairro francês", disse Valentino. Iberville substituiu a famosa zona de meretrício de Storyville em um exemplo de limpeza de favela.

Valentino e outros construtores têm o apoio de alguns moradores, como Kim Paul, presidente do conselho de moradores. Mas eles também atraíram a ira de outro grupo, o Hands off Iberville, que é composto de moradores ativistas.

Apesar de querer ajudar a tornar Iberville em algo que nunca foi, Paul reclamou da lentidão das autoridades em permitir que os moradores voltem às suas casas, as menos danificadas da cidade. Ela está na posição incomum de lutar pelos moradores e pelos construtores ao mesmo tempo.

"Posso mostrar para vocês apartamentos que não têm nem mofo", disse em St.Bernard no domingo, junto com outros manifestantes que estavam comendo jambalaya em copos plásticos. "Antes de mais nada, estamos tentando trazer todos os moradores pré-Katrina de volta para casa."

Quem passava pela Avenida de St. Bernard, que corta a cidade, em geral apoiava os protestos pacíficos diante do conjunto habitacional cercado. Uma mulher, Cliffie Pettigrew, parou sua caminhonete perto das tendas e disse:"Não sei se vocês deviam ou não estar aqui, mas eu quero ajudar porque me lembro como fiquei triste quando não pude voltar para casa."

"De que vocês precisam?"

"Tudo", responderam. Deborah Weinberg

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