UOL Notícias Internacional
 

06/06/2006

Islamitas derrotam chefes tribais em capital da Somália

The New York Times
Marc Lacey,*

em Nairóbi, Quênia
Após meses de combates ferozes, milícias muçulmanas anunciaram na segunda-feira (05/06) que assumiram o controle sobre a capital da Somália, Mogadício, derrotando os chefes tribais que se acreditava serem apoiados pelos Estados Unidos, e gerando preocupações quanto à possibilidade de o país mergulhar em uma rota extremista.

A batalha por Mogadício foi uma espécie de guerra por procuração, na campanha do governo Bush contra o terrorismo. Os chefes tribais apoiaram a meta de Washington no sentido de erradicar o islamismo radical e a presença da Al Qaeda na região.

Mas quando esses chefes que dominaram Mogadício durante os últimos 15 anos bateram em retirada na segunda-feira, teve-se a impressão de que Washington apoiou o lado perdedor, fazendo com que o governo norte-americano sofresse uma grande derrota em um momento de violência sectarista contínua no Iraque, e de ressurgência do Taleban no Afeganistão.

Na segunda-feira, um desses chefes, Muse Sudi Yalahow, estava entrincheirado em um hospital no norte da cidade, rodeado pelos seus inimigos. Outros fugiram da capital depois que as suas forças foram expulsas do centro estratégico, afirmaram diplomatas e jornalistas locais.

As milícias altamente armadas que os expulsaram são aliadas dos tribunais islâmicos cuja influência aumentou em toda a Somália nos últimos anos, preenchendo um vácuo criado pela ausência de um governo central desde 1991. Esses tribunais são compostos de uma coalizão informal de líderes religiosos que vêem no islamismo, a religião predominante na Somália, uma saída para o longo mergulho do país rumo à anarquia.

Na segunda-feira, pelo menos, a capital parecia calma, depois da morte de centenas de civis ocorridas na cidade nos últimos meses.

"Hoje o povo de Mogadício finalmente teve alguma paz", disse em uma entrevista por telefone, da capital somali, na noite da segunda-feira, Ali Mohammed, 32, professor primário. "Vivemos em guerra há muito tempo, e estamos cansados disso".

Mas Mohammed disse também que ele e outros temem que os tribunais islâmicos possam agir com rigor, impondo uma forma radical do islamismo sobre os moradores. "Não sabemos o que vem por aí", disse ele.

Segundo diversos relatos, os Estados Unidos teriam financiado secretamente os chefes tribais da região, que aderiram a uma aliança contra-terrorista a fim de perseguir e aprisionar elementos da Al Qaeda em Mogadício.

Autoridades norte-americanas dizem temer que o país possa caminhar para uma situação semelhante à do Afeganistão, onde um grupo muçulmano radical, o Taleban, assumiu o controle sobre o país e, a seguir, deu abrigo à Al Qaeda. As autoridades norte-americanas já afirmaram que alguns combatentes estrangeiros com vínculos com a Al Qaeda estão sendo protegidos pelos líderes islamitas de Mogadício.

O porta-voz do Departamento de Estado, Sean McCormack, pareceu ecoar essas preocupações em uma entrevista coletiva à imprensa na segunda-feira, quando lhe perguntaram a respeito da queda de Mogadício. "Não desejamos ver a Somália transformada em um abrigo de terroristas estrangeiros", disse ele. "Temos preocupações muito reais quanto a isso".

Mas alguns analistas não se surpreenderam com o fato de a batalha por Mogadício ter tido tal desfecho. "Os chamados islamitas proporcionaram uma sensação de estabilidade na Somália, no que diz respeito à educação e outros serviços sociais, enquanto os chefes tribais mutilaram e mataram civis inocentes", afirmou Ted Dagne, analista especializado na África do Serviço Congressual de Pesquisas, em Washington.

Ele manifestou dúvidas quanto à possibilidade de que a queda da capital represente a ascensão dos extremistas na capital. "Os somalis são muçulmanos seculares, e a presença dos chamados islamitas não se constitui na introdução de uma nova ideologia ou religião", disse Dagne em uma mensagem por e-mail.

Membros do governo norte-americano não informaram se oficiais de inteligência norte-americanos efetuaram pagamentos aos chefes tribais, embora acadêmicos, analistas de segurança, políticos da região e outros especialistas em questões africanas assegurem que isto de fato ocorreu.
Muitos em Mogadício disseram que a crença generalizada em que os Estados Unidos estavam tomando partidos no conflito só fortaleceu os islamitas, que acusaram os chefes tribais de serem fantoches de Washington.

Segundo um especialista somali, os pagamentos aos chefes tribais aumentaram significantemente no ano passado. "De acordo com as nossas próprias estimativas, tais pagamentos variaram de US$ 100 mil a US$ 150 mil por mês", disse John Prendergast, que monitora a Somália para o Grupo de Crise Internacional, uma organização de pesquisa sem fins lucrativos.

As declarações iniciais dos islamitas enfatizam uma necessidade de diálogo, em vez de confrontos armados. Desde fevereiro, mais de 300 pessoas morreram, e mais de 1.700 ficaram feridas, naquela que foi tida como a batalha mais intensa já presenciada em Mogadício nos 15 anos desde que o governo central da Somália entrou em colapso.

"Queremos restaurar a paz e a estabilidade em Mogadício", disse na segunda-feira, em uma transmissão de rádio, o xeique Sharif Ahmed, diretor da Aliança dos Islamitas, conhecida como União dos Tribunais Islâmicos, segundo a agência "The Associated Press". "Estamos prontos para nos encontrarmos e conversarmos com qualquer pessoa ou grupo, em nome dos interesses do povo".

Porém, ele deixou clara a natureza religiosa do regime que está por vir. "Nós vencemos a luta contra o inimigo do Islã", afirmou.

Dentre os apoiadores dos islamitas estão os líderes empresariais ansiosos para pôr um fim ao poder arbitrário dos chefes tribais, assim como soldados mercenários, dispostos a trabalhar para quem lhes pague um salário e lhes forneça provisões, além de uma quantidade diária de khat, a folha que costuma ser mascada pelos somalis, devido ao seu efeito estimulante.

Agora que os islamitas assumiram o controle, existe uma expectativa com relação à forma como eles decidirão governar. Além disso, teme-se que a luta entre eles possa fazer a cidade mergulhar novamente no caos.

"Temos que apelar aos moderados nesse movimento islamita", disse Mario Raffaelli, o enviado especial italiano à Somália. "Precisamos deixar claro que estamos apoiando o governo".

Este resultado em Mogadício ocorre no momento em que um governo de transição, criado após dois anos de negociações de paz, procura estabelecer uma base no país. Sediado em Baidoa, a 250 quilômetros de Mogadício, devido ao fato de carecer de força para enfrentar os combatentes instalados na capital, o governo se vê agora negociando com um novo centro de poder.

Em uma reunião de gabinete realizada na noite de domingo, à medida que a vitória dos tribunais islâmicos se tornava nítida, o governo decidiu iniciar negociações com os novos dirigentes de Mogadício. Ele também demitiu os quatro chefes tribais da capital que tinham postos no gabinete de transição, mas desprezou a solicitação de alguns membros no sentido de que se pedisse o fim dos combates.

Os quatro homens demitidos são Mohamed Qanyare Afrah, que era ministro da Segurança Nacional; Muse Sudi Yalahow, ministro do Comércio; Botan Isse Alin, ministro da Desmobilização; e Omar Mohamed Mohamud, ministro de Assuntos Religiosos.

As milícias islamitas vinham conquistando vagarosamente o controle sobre a capital durante semanas. No domingo eles tomaram a cidade estratégica de Balad, 32 quilômetros a norte de Mogadício, em um combate que deixou 18 mortos. Isso cortou a rota de suprimentos dos chefes tribais pelo norte. A seguir, na segunda-feira, os combatentes islâmicos tomaram Davniile, o reduto de Qanyare, um grande chefe tribal que deixou a área dois dias atrás, depois que os anciões do seu clã criticaram as pesadas baixas entre a população civil causada pela ação militar dos seus homens.

A Somália não conta com um governo central desde que o país mergulhou na guerra civil há mais de uma década. Uma missão de ajuda humanitária liderada pelos norte-americanos em 1993, que se transformou em uma caçada a um dos chefes tribais cuja luta prejudicava a distribuição de alimentos, terminou tragicamente, depois que 18 soldados norte-americanos foram mortos em uma batalha que se tornou famosa devido ao filme "Black Hawk Down".

Desde então, os Estados Unidos têm mantido uma distância diplomática do país, vendo com ceticismo as 14 rodadas fracassadas de negociações no decorrer dos anos. A última delas culminou com a criação de um governo interino cuidadosamente equilibrado por representatividade de clãs. Esse governo vinha pedindo a Washington que o apoiasse de maneira mais vigorosa.

*Mark Mazzetti contribui de Washington para esta matéria Danilo Fonseca

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