UOL Notícias Internacional
 

07/06/2006

Acelerada política de moradias para sem-teto nos Estados Unidos

The New York Times
Erik Eckholm

em Denver
Arthur Sena passou anos vivendo em um buraco que cavou perto dos trilhos ferroviários. Ele provavelmente ainda estaria lá, rejeitando as ofertas de ajuda de assistentes sociais e usando papelão para se proteger do frio, caso Denver não tivesse adotado uma estratégia radical de colocar moradores de rua em apartamentos próprios, sem pré-requisitos.

A política "moradia primeiro" que esta cidade adotou no ano passado faz parte de um movimento nacional em aceleração, que reduziu o número de moradores de rua crônicos -os homens e mulheres solteiros que passam anos nas ruas e abrigos- em mais de 20 cidades.

Nesta campanha, promovida por um escritório pouco conhecido do governo Bush, 219 cidades, segundo a última contagem, deram início a planos ambiciosos de 10 anos para tirar pessoas das ruas.

As cidades incluem Nova York, que está aumentando os esforços para dar moradia para cerca de 4 mil pessoas que vivem em calçadas e dormem em parques, e Henderson, Carolina do Norte, população de 17 mil, que recentemente contou 91 moradores de rua, 14 deles casos crônicos.

Muitas das primeiras cidades a adotarem o plano estão informando resultados. Na Filadélfia, o número de moradores de rua caiu 60% em cinco anos. Em San Francisco, o número casos crônicos caiu 28% em dois anos, 26% em Dallas, e 15% em Raleigh-Durham, Carolina do Norte.

Nem sempre está claro quem pagará pelos planos, mas o esforço tem animado um campo há muito acostumado ao abandono.

"Eu sinto uma nova energia nas prefeituras e legislativos estaduais em torno da questão do fim da moradia de rua", disse Robert V. Hess, que acabou de assumir como comissário de serviços para moradores de rua em Nova York, após anos realizando um trabalho semelhante na Filadélfia. "Nunca vi algo semelhante na minha vida."

Parte do crédito, disseram Hess e outros, vai para Philip F. Mangano, um nomeado de Bush que passou cinco anos visitando todas as prefeituras e governos estaduais que pôde, apresentando exemplos bem-sucedidos, estudos de custo-benefício e seu próprio fervor messiânico juntamente com quantias modestas de verbas federais.

"Nós estamos conspirando para desfazer o que nos disseram por tantos anos, de que este era um assunto insolúvel", disse Mangano a 150 prefeitos, autoridades municipais e estaduais e líderes privados aqui, em maio. Eles se reuniram para o primeiro "encontro de lideranças nacionais", patrocinado pelo escritório antes dormente que Mangano dirige, o Conselho Federal Interagências para Sem-Teto.

Onde quer que vá, Mangano, 58 anos, que foi diretor da Aliança para Moradia e Abrigo de Massachusetts, enfatizou que é mais barato colocar os moradores de rua crônicos em apartamentos, fornecendo tratamentos médicos e para vícios, do que assisti-los circulando ininterruptamente por abrigos, refeitórios, pronto-socorros, centros de desintoxicação e cadeias.

"A análise custo-benefício pode ser a nova expressão de compaixão em nossas comunidades", ele disse na reunião em Denver.

Normalmente, as pessoas de tais programas são colocadas gratuitamente em apartamentos mobiliados de forma básica. Logo depois, à medida que são ajudados a encontrar emprego e a se inscreverem em benefícios do governo para inválidos e outros, lhes é cobrado aluguéis modestos.

Funcionários de campo passaram meses persuadindo Sena, 69 anos, a se mudar para um apartamento no centro. Ele finalmente o fez em 2005, após ferir um braço. As paredes do seu quarto ainda estão despojadas e Sena, que ainda não possui um fio de cabelo grisalho, não perdeu seu mau humor.

"Eu nunca me viciei em álcool", ele disse ao visitante. "Eu só tomava um trago de vez em quando. A propósito, eu estava saindo para tomar um trago.É a única coisa que ajuda na dor do meu braço."

Sena se recusou a revelar mais sobre sua história ou uso dos serviços
públicos. Mas em um estudo daqui, as autoridades descobriram que 25 homens eram levados para centros de desintoxicação de emergência 80 noites, em média, cada um por ano, a um custo total de US$ 772 mil. As autoridades descobriram que poderiam fornecer moradia e a maioria dos serviços médicos e outros por cerca de US$ 15 mil por ano por pessoa.

O crescente foco em moradia para os moradores de rua crônicos foi motivada, disseram muitas autoridades, por um estudo de 1998 do professor Dennis P. Culhane, um sociólogo da Universidade da Pensilvânia. Culhane mostrou que a maioria das pessoas que permanece em abrigos o faz apenas brevemente e prossegue com suas vidas, e que 10% entram e saem repetidas vezes por anos, ocupando metade do número total de leitos.

As estimativas nacionais dos moradores de rua crônicos chegam a cerca de 200 mil, entre um total estimado de 750 mil moradores de rua em qualquer noite, incluindo famílias e outras pessoas em problemas temporários, disse Nan Roman, presidente da Aliança Nacional para o Fim da Moradia de Rua, um grupo de Washington.

Alguns defensores e autoridades estaduais questionaram o foco intenso nos casos crônicos, temendo que deprecie programas para as famílias. Mangano respondeu que as famílias sem-teto continuam recebendo grande parte do dinheiro público e também são alvo de experiências promissoras.

Mais importante, ele disse em uma entrevista, o progresso nítido contra a face mais visível da moradia de rua inspirará mais financiamento. Mangano acrescentou que os progressos já documentados persuadiram a Casa Branca e o Congresso a aumentarem os gastos. O dinheiro federal destinado à moradia de rua cresceu nos últimos cinco anos de US$ 3 bilhões para mais de US$ 4 bilhões.

Mangano "é um grande vendedor", disse Bob Erlenbusch, presidente da Coalizão Nacional para os Sem-Teto, um grupo de defesa baseado em Washington. Mas Mangano está apenas atenuando a tendência maior, disse Erlenbusch, porque os programas federais para moradias de baixa renda, que podem prevenir a moradia de rua, foram reduzidos ou cortados durante o governo Bush.

Para iniciar seus novos planos, as cidades combinaram recursos públicos
locais e federais com fundos corporativos e de fundações. Mas muitas
autoridades dizem que a falta de dinheiro atrapalhará o desenvolvimento das moradias e equipes de apoio necessárias.

A abordagem "moradia primeiro" foi defendida no início dos anos 90 por um grupo em Nova York, Pathways to Housing (caminhos para a moradia).

Em um primeiro passo, moradores de rua confirmados são coagidos a se mudarem para quartos próprios, uma proposta mais atraente para muitos do que os programas de tratamento para drogas ou lares coletivos de transição que eram oferecidos no passado. Algumas pessoas até mesmo levam seus carrinhos de supermercado.

Assim que são atraídos para as chamadas moradias de apoio, os participantes são monitorados por assistentes sociais e recebem serviços psiquiátricos e outros que podem estabilizar suas vidas. Mas abandonar os vícios ou buscar outro tratamento necessário não é um pré-requisito para entrada.

Em Nova York, uma líder em moradia de apoio contou recentemente 3.843 pessoas morando nas ruas, um declínio de 13% em comparação ao ano anterior. Os governos estadual e municipal também estão se unindo para a construção de 9 mil unidades de moradia de apoio em Nova York em 10 anos.

Alguns grupos são contrários à moradia primeiro, dizendo que sem mais
disciplina, os viciados nunca terão sucesso. Mas em experiências ao redor do país, 80% ou mais dos participantes instalados em moradias permaneceram passado um ano.

Funcionários do Coalizão para os Sem-Teto do Colorado, que dirige o prédio de Sena, disseram que sabem que alguns inquilinos usam drogas ou álcool.

"É melhor que desmaiem aqui do que nas ruas", disse John Parvensky, diretor da coalizão.

Em muitas cidades, a abordagem também atraiu críticas de agências que
dirigem abrigos e programas de tratamento de viciados em drogas. Estas
agências se irritam com a sugestão de que sua ajuda de emergência apenas perpetua os problemas.

"Foi duro enfrentar o status quo e dizer aos prestadores de serviço que não faríamos mais daquela forma", disse Angela Alioto, uma advogada e política democrata que supervisiona o plano de 10 anos de San Francisco em nome do prefeito Gavin Newsom.

Entre alguns grupos "houve histeria", disse Alioto, quando a cidade disse que deixaria de financiar grupos que não enviassem os participantes para as moradias. No final de 2006, ela previu, 2.200 dos cerca de 3 mil moradores de rua crônicos estarão em apartamentos.

Por mais empolgados que pareçam ao falar do fim da moradia de rua,
especialistas sabem que a mudança virá de forma intermitente, para cidades e indivíduos.

No início de 2005, a Filadélfia reduziu o número de moradores de rua para 250, em comparação aos 824 de cinco anos antes, disse Hess.

Após o concerto Live Aid ocorrido lá, em julho passado, o número aumentou, por motivos que ainda não são claros para os especialistas, para mais de 400, e a cidade está reduzindo gradualmente o número.

Em Denver, Deborah Johnson, 52 anos, se mostra mais agradecida do que Sena por seu novo apartamento, dizendo que após 11 anos em abrigos e programas de recuperação, "me sinto bem porque sou uma pessoa independente".

Mas seu anseio por álcool é uma ameaça recorrente, reconheceu Johnson. Duas vezes nos últimos dois anos ela entrou em moradias mas foi despejada por "problemas de comportamento" envolvendo ela ou seus convidados, disse um funcionário da coalizão.

Após outra estadia em um centro para viciados, Johnson se mudou para seu mais recente apartamento em abril. Ela usa uma cesta de carrinho de
supermercado virada como mesa e mantém uma Bíblia perto de seu colchão. Ela se encontra com o supervisor do seu caso três vezes por semana, disse Johnson, e espera algum dia retomar o trabalho como cozinheira. George El Khouri Andolfato

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