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08/06/2006

Argentina parece pronta, mas o temor do fracasso persiste

The New York Times
Larry Rohter

em Buenos Aires, Argentina
A última conquista de uma Copa do Mundo pela Argentina foi em 1986, quando era liderada pelo extraordinário Diego Maradona. De lá para cá, a atuação da seleção azul e branca tem sido tão melancólica quanto uma letra de tango: ela ficou em segundo lugar em 1990, não chegou às semifinais em 94 e 98, e foi chocantemente eliminada na primeira fase em 2002.

Assim, os torcedores argentinos podem ser desculpados por olharem com apreensão esta Copa, que terá início na sexta-feira, na Alemanha. Será que sua equipe reformulada, com novo técnico e jogadores mais jovens, é a candidata legítima que parece ser? Ou será que devem se preparar para mais pesar e decepção?

O futebol sempre foi jogado e analisado aqui com paixão incomum. A Argentina conquistou a Copa do Mundo duas vezes e terminou em segundo lugar em outras duas ocasiões. E o trajeto para a Copa desta ano não foi diferentes. Uma mudança de técnico ocorreu no meio do caminho, jogadores chaves se machucaram e, mais recentemente, surgiu um debate acalorado sobre alguns dos jogadores convocados pelo técnico José Pekerman e sobre alguns dos que ficaram de fora.

"É o famoso gosto argentino pelo drama", disse Ezequiel Fernández Moores, um popular comentarista político e esportivo argentino. "Nós gostamos de chorar muito e fazer papel de vítima, e sempre precisamos convocar demônios de fora para explicar nossos fracassos, não apenas no futebol, mas em tudo."

Especialmente irritante para os torcedores argentinos é o fato do declínio de sua seleção ter coincidido com o domínio de seu arqui-rival, o Brasil. Enquanto a Argentina agoniza com a incapacidade de encontrar um sucessor para Maradona, cuja vida privada se transformou em uma novela por si só, o Brasil continua produzindo jogadores de ponta e atropelou a Argentina, por 4 a 1, em uma partida da Copa das Confederações no ano passado.

Como em 2002, quando a derrota para a Inglaterra foi um fator decisivo para sua eliminação precoce, houve muitos resmungos pela tratamento injusto dado à Argentina, ao ser sorteada para um "grupo da morte" enquanto o Brasil caiu em um grupo mais fácil. Para avançar, a Argentina terá que passar pela forte seleção da Holanda e duas outras seleções potencialmente perigosas -Costa do Marfim (sua primeira adversária, no sábado) e Sérvia e Montenegro.

"Mesmo se vencermos nosso grupo, como recompensa nós jogaremos três dias depois nas oitavas-de-final", disse Leo Farinella, editor do jornal esportivo "Olé". "Nós não temos a sorte dos outros, que têm adversários mais fracos e podem descansar por cinco dias entre as duas fases."

Após as repetidas decepções dos últimos 20 anos, objetivos modestos foram traçados para a Argentina na Copa deste ano. A seleção argentina está forte e provavelmente incluirá destaques como Juan Román Riquelme, um articulador astuto, e Carlos Tevez, que foi o artilheiro do Campeonato Brasileiro no ano passado. Mas isto não impediu os dirigentes de minimizarem as chances da equipe.

"Eu estarei satisfeito se a Argentina chegar às quartas-de-final", disse Julio Grondona, veterano presidente da Associação de Futebol Argentina, em uma entrevista de rádio no mês passado. "Não há obrigação de voltar campeã", ele acrescentou, e qualquer um que disser o contrário "não entende do jogo".

Torcedores e comentaristas se queixaram de que foi estabelecida uma meta baixa demais, alguns dizendo que a equipe é boa o bastante para chegar a uma final sul-americana contra o Brasil. Mas alguns veteranos disseram que a redução das chances da Argentina é uma estratégia inteligente, que garantirá um resultado melhor.

"O Brasil está acostumado a ser o favorito, mas nós argentinos não", disse Daniel Passarella, que treinou a seleção nas Copas do Mundo de 94 e 98, recentemente aos repórteres. "Quando somos uma forte candidata, nós acreditamos e relaxamos."

Desde que se tornou técnico da equipe no final de 2004, Pekerman realizou o que pode ser chamado de uma purgação total. Da equipe que atuou de forma embaraçosa na Ásia, apenas Juan Pablo Sorín e Roberto Ayala continuam como titulares, e dos 23 jogadores convocados por Pekerman no mês passado (após testar 49), 16 saíram de seleções de categorias inferiores que ele treinou.

"A realidade atual do jogador argentino no mundo é de estar um tanto obscurecido", disse Pekerman, 56 anos, um mês antes de assumir a seleção. "Na maioria dos grandes times europeus, você não encontra argentinos."

Como técnico de seleção de categorias inferiores, Pekerman teve uma atuação espetacular, conquistando três mundiais na categoria sub-21. Mas esta é sua primeira Copa do Mundo como técnico da seleção principal e ele tem caminhado com cautela -cautela demais para alguns torcedores e comentaristas, que dizem que ele está deixando alguns de seus melhores jogadores no banco e mantendo um goleiro, Roberto Abbondanzieri, que tende a tomar muitos gols sob pressão.

"Pekerman tem um bom retrospecto, mas ele não tem um estilo de jogo
definido", disse Gonzalo Bonadeo, um popular comentarista de televisão. "Um dia ele enfatiza o ataque, no outro a defesa. Mas a Argentina precisa marcar gols. Quando a defesa é fraca como a nossa, então por que não atacar? Nós não podemos ser tão tímidos."

Desde que Maradona foi suspenso por doping na Copa de 94, nos Estados
Unidos, os argentinos tem ansiado por um jogador que possa dominar o campo, intimidar os adversários e empolgar os torcedores. Finalmente eles podem ter encontrado um: Lionel Messi, um diminuto jovem de 18 anos que tem jogado de forma brilhante pelo Barcelona.

"Ainda é cedo, mas este garoto tem todas as características de um astro", disse Sergio Danichevsky, o veterano editor de esportes do "Clarín", o principal jornal argentino. "Ele é um jogador tipicamente argentino no sentido de que é ousado e desinibido, que nos momentos decisivos do jogo não se esconde, mas pede a bola."

Mas por ser a Argentina, há complicações. Messi tem lutado desde março com uma lesão na coxa, e mesmo quando está bem, Pekerman tem relutado em colocá-lo como titular, assim como Tevez, preferindo deixar o mais lento, mais conservador Riquelme ditar o ritmo do jogo.

"Messi está melhorando a cada dia, mas nós temos que esperar e não apressar as coisas", disse Pekerman recentemente. "Nós não queremos cometer erros, apesar de sabermos que ele está impaciente para jogar. Este é o motivo para avaliaremos se é melhor colocá-lo para jogar desde o início ou colocá-lo depois."

No que os torcedores consideraram um presságio positivo, o último amistoso da Argentina antes do início da Copa terminou com uma vitória de 2 a 0 sobre Angola, em 30 de maio. Messi foi considerado em condições suficientes para jogar o segundo tempo, e o ritmo do jogo acelerou claramente quando ele entrou.

"É verdade que não temos mais Maradona", disse Bonadeo. "Mas nós temos
quatro ou cinco jogadores de um calibre que Maradona nunca teve ao seu lado, e se jogarem o que podem, tudo pode acontecer. Assim, veremos." George El Khouri Andolfato

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