UOL Notícias Internacional
 

08/06/2006

Curando à distância, terapeutas testam a telepresença

The New York Times
Kirk Johnson

Flagstaff, no Arizona
Dra. Sara Gibson olhou para a tela de televisão e foi franca.

"O que a está mantendo viva, nesta altura?" perguntou a sua paciente, uma mulher de meia idade que pediu para ser identificada apenas como D. Esta fez uma careta e olhou para baixo, depois para o lado e finalmente para o rosto de Gibson, que enchia a tela diante dela em uma pequena clínica, a três horas a oeste daqui no deserto do Arizona.

"Nada", disse D, que Gibson diz sofrer de distúrbio bipolar e estresse pós-traumático por ter sido sexualmente molestada quando criança.

É quarta-feira no interior do Arizona, e a médica está no consultório. Mais ou menos.

De fato, Gibson está em Flagstaff, em um escritório do tamanho de um armário, de um grupo médico sem fins lucrativos. Atrás dela, um lençol azul claro faz um pano de fundo, e tem uma xícara de chá a seu lado. Ela faz parte de um número crescente de terapeutas que exercem sua prática por ondas e conexões -a telemedicina, como é chamada a prática médica remota.

A psiquiatria está emergindo como uma das expressões mais promissoras da telemedicina, especialmente em áreas rurais do país que também têm profundos problemas sociais como pobreza e uso de drogas. Em ao menos 18 Estados atualmente o Medicaid cobre atendimentos por telemedicina, e oito especificamente incluem a psiquiatria, de acordo com a Associação Nacional de Diretores Estaduais de Medicaid. Seis Estados, inclusive a Califórnia, requerem que os seguros privados reembolsem pacientes por sessões de telepsiquiatria, de acordo com a Conferência Nacional de Assembléias Estaduais.

As populações carcerárias crescentes também têm muito a ver com a tendência.Como o reembolso por atendimento ao prisioneiro é fácil e como há significativas questões de segurança para os médicos, muitos programas de telemedicina, especialmente um ambicioso no Texas, foram iniciados.

Agora, o preço em queda da tecnologia está tornando o atendimento médico disponível para moradores distantes rurais como D.

Gibson tem um circuito pelo território, mas não viaja. Nas quartas-feiras, ela atende pacientes da minúscula comunidade de Springerville, perto da fronteira de Novo México, e nas quintas, de St. Johns, tudo por uma linha de dados T1 com firewall. Cada lado da comunicação tem uma televisão e uma câmera angulada de forma que terapeuta e paciente possam manter a ilusão de estarem olhando o outro nos olhos em tempo real. E assim se passa um dia na vida de um telepsiquiatra rural e seus pacientes, pela ilusão, a depressão, paranóia, ansiedade -e aqui e ali umas risadas.

"Por um acaso está havendo também algum dano pessoal auto-imposto?"
perguntou Gibson a D, tomando notas no computador e olhando de volta à tela. D fez uma pausa, depois disse silenciosamente: "Sim."

Gibson, 44, foi pioneira no campo. Ela atende pacientes dessa forma há 10 anos e ainda é uma das poucas no país que praticam apenas a telepsiquiatria. Seu território é o condado Apache, que tem o tamanho de Massachusetts mas não tem um único psiquiatra para seus 69.000 habitantes, apesar dos amplos problemas de pobreza, drogas, violência contra crianças e índice de suicídio que é o dobro da média nacional.

A Associação Americana de Psiquiatria diz em uma declaração em seu site na Web que apóia a telemedicina "quando seu uso serve ao interesse do paciente" e os médicos cumprem as regras de ética e confidencialidade. Mas em locais como o condado Apache, onde a alternativa é nenhum tratamento, a maior parte dos que trabalham com saúde dizem que existem ocasiões em que um fio e uma tela devem ser comemorados.

"Basicamente, os médicos podem fazer, surpreendentemente, quase tudo", disse Don McBeath, diretor de telemedicina e saúde rural do Centro de Ciências da Saúde da Universidade Texas Tech, em Lubbock. "A diferença é que (ao vivo) eles podem te tocar ou te cheirar."

Gibson disse que a falta de cheiro e toque, ao menos no que concerne a psiquiatria, provou-se uma coisa boa. Estar fisicamente na presença de outro ser humano, disse ela, pode ser muito, com uma avalanche de dados sensoriais que podem distrair o paciente e o médico sem terem consciência disso.

"Inicialmente, todo mundo pensou: 'Bem é claro que seria melhor estar lá em pessoa'", disse ela. "Mas algumas pessoas com trauma ou que sofreram abusos ficam de fato mais à vontade. Sou menos intimidadora à distância."

Alguns dos pacientes da médica, que concordaram em deixar um repórter e fotógrafo observarem suas sessões terapêuticas recentemente -um dia em Flagstaff com Gibson e outro na clínica de campo em St. Johns, que tem 3.000 habitantes- disseram que de fato estavam perfeitamente satisfeitos com a terapeuta a 400 km de distância, apesar de alguns rapidamente acrescentarem que não queriam ofender.

"Algumas pessoas não querem ter que lidar com uma pessoa de verdade", disse um paciente, uma mulher de 63 anos que sofre de demência e distúrbio bipolar.

Uma coisa que Gibson aprendeu com os anos é que não devia usar listras ou padrões em ziguezague, que podem parecer estranhos na televisão, especialmente para pessoas já perturbadas. Para pacientes com paranóia, ela regularmente gira a câmera em volta da de sua pequena sala para provar que não há ninguém por perto. (Uma máquina de fazer barulho murmura fora da porta de Gibson, para não deixar que se ouçam os diálogos, e nenhuma sessão jamais é gravada.)

Ela se preocupa, às vezes, com as crianças que atende. Quase todas imediatamente e entusiasticamente gostam da idéia de conversar com a mulher boazinha da televisão. "Será que entendem que a televisão nem sempre conversa com elas?" disse Gibson.

Outro paciente, Mike Kueneman, que permitiu que seu nome completo fosse utilizado, vê Gibson há quase cinco anos por ouvir vozes na cabeça e pelo que ele chama de "episódio psicótico" que o levou à prisão neste ano por roubo. Kueneman disse que se sente mais confortável com Gibson do que com a maior parte das pessoas que conhece, apesar de nunca tê-la encontrado ao vivo.

Como a maioria de seus pacientes, ele paga pouco ou nada para vê-la.
Programas estaduais para pessoas de baixa renda e doentes mentais pagam pelas avaliações psiquiátricas de US$ 120 (em torno de R$ 260) e visitas de acompanhamento de US$ 40 (aproximadamente R$ 90) e, ainda mais importante, pelos remédios que ela receita, que podem custar milhares de dólares.

"É difícil eu confiar em qualquer outro médico", disse Kueneman, que freqüenta a tele-sessão na clínica de S. Johns algemado, acompanhado do delegado do condado.

Algumas coisas não acontecem como esperado. Gibson previra, por exemplo, que ao menos um paciente ia incorporar a tecnologia de teleconferência nas fantasias e passar a acreditar que a telemedicina poderia ser usada para ler os pensamentos das pessoas ou entrar em suas cabeças.

Ao contrário, em questões de psique -duas pessoas em salas separadas olhando uma para outra por um meio eletrônico frio- ainda é uma conexão humana.

"Sinto como se estivesse aqui. Algumas vezes eu esqueço que não estamos na mesma sala", disse uma mãe de três filhos que pediu para ser chamada de C. Com 24 anos, está combatendo uma depressão, ansiedade e fantasias de suicídio.

Gibson falou de sua sala em Flagstaff: "Engraçado, eu diria que sinto a mesma coisa."

Gibson e C se conheceram pela Internet quando C tornou-se mãe solteira, sozinha, aos 17 anos. Elas concordaram que seu elo é tão forte que a tecnologia simplesmente torna-se irrelevante.

As emoções são profundas quando C descreve os pensamentos sinistros que às vezes a afligem à noite. Insone, começa a achar que há outra pessoa em seu trailer, sua mente corre, disse ela, e surge a fantasia de como ela pegaria seu filho menor e sumiria, dirigindo pela noite.

"Não quero que você se mate", disse Gibson em um tom factual. "Isso significa conversar."

O condado Apache teve um psiquiatra em carne e osso certa vez, uma mulher chamada Julia Martin, que praticou ali por cerca de 10 anos, até se aposentar em 1996. Ela era pediatra e depois voltou a estudar para se tornar psiquiatra, quando tinha 50 anos. Por mais de uma década, ela foi a doutora, a única psiquiatra do condado e também a única servindo à Reserva de Índios Forte Apache.

"Você conhecia bem seus pacientes -algumas vezes melhor do que você gostaria", disse Martin, 74, em entrevista telefônica de sua casa em um canto remoto do condado. Algumas vezes os pacientes apareciam no meio da noite, disse ela, desesperados para vê-la. Outras vezes eles traziam brownies.

O que os pacientes de Gibson imaginam sobre sua vida ou sobre como é quando não está na câmera não se sabe. Algumas vezes ela menciona seus filhos, e sua paixão pela música e o canto. Ela acha que a telemedicina provavelmente de alguma forma ampliou e alargou sua imagem na mente de alguns pacientes -se ela está na televisão, deve ser realmente importante, maior do que o normal.

Ela esteve no condado Apache apenas uma vez em pessoa, para um evento de "encontro com o psiquiatra" na clínica de St. Johns, há vários anos.

Muitos de seus pacientes que participaram disseram que era mais baixa do que esperavam, lembra-se. Deborah Weinberg

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