UOL Notícias Internacional
 

08/06/2006

Escândalos de arbitragem deixam organizadores da Copa apreensivos

The New York Times
Jere Longman

em Hamburgo
Uma série de escândalos envolvendo loterias e manipulações de resultados de jogos na Europa e na América Latina fez com que o principal órgão dirigente do futebol mundial adotasse medidas extraordinárias para garantir a legitimidade da Copa do Mundo, que terá início na próxima sexta-feira em Munique.

Pela primeira vez, jogadores, árbitros e técnicos estão tendo que assinar documentos atestando que nem eles nem nenhum membro próximo de suas famílias estão envolvidos com apostas relativas ao campeonato global deste esporte. Um site da Internet sobre futebol estima que até US$ 1,89 bilhão serão apostados só no Reino Unido durante a Copa do Mundo.

A Fifa, o órgão que gerencia o futebol mundial, com sede em Zurique, na Suíça, criou uma companhia chamada Early Warning System (algo como Sistema de Aviso Antecipado). Ela é elaborada para funcionar em conjunto com a indústria internacional das apostas a fim de identificar tentativas de manipular os resultados dos jogos da Copa do Mundo.

Poucos detalhes sobre o sistema foram divulgados. Mas autoridades da Fifa disseram estar preocupadas com a proliferação das loterias na Internet e a influência dos sindicatos asiáticos de apostas, e também com os recentes escândalos ocorridos no Brasil, na Itália e na Alemanha. Segundo as autoridades, caso quaisquer padrões suspeitos de apostas sejam detectados, poderão ser tomadas ações preventivas, tais como a troca de árbitro antes de um jogo específico.

"Vários escândalos afetaram o futebol. Por exemplo, o problema com os juízes", disse Joseph Blatter, o presidente da Fifa, nesta semana, em uma entrevista coletiva à imprensa em Munique. "Quando há um problema desta natureza, o juiz costuma estar no centro das irregularidades".

Na Copa do Mundo de 2006, a escolha dos árbitros para os jogos de abertura foi anunciada com uma semana de antecedência. Durante o torneio, os 81 juízes e bandeirinhas ficarão hospedados em uma área de florestas próxima a Frankfurt. O hotel não receberá mais ninguém, a não ser tripulações de companhias aéreas e clientes de longa data que conheçam bem os funcionários, disseram as autoridades da Fifa. Dez guardas de segurança ficarão no interior do hotel, e quatro policiais patrulharão os arredores. Os juízes disseram que não terão permissão para receber nos seus quartos telefonemas diretos do mundo exterior.

A Fifa também anunciou nesta semana que criará um comitê de ética independente, em uma tentativa de impedir a ocorrência de escândalos de corrupção que ameaçam a integridade dos jogos.

Os árbitros da Copa do Mundo receberão, cada um, US$ 40 mil, o dobro do salário pago na copa de 2002. Embora muitos considerem este um ótimo salário por um mês de trabalho, cada jogador da Seleção Alemã, a título de comparação, receberá um bônus de aproximadamente US$ 390 mil para vencer a Copa do Mundo. A partida da final será no dia 9 de julho, em Berlim.

Em ligas domésticas de times por todo o mundo, os juízes são considerados particularmente vulneráveis a propostas ilícitas. Eles nem sempre são profissionais, ou bem pagos. E as suas decisões, ou ausência de decisões - ao marcarem laterais, cobranças de falta e pênaltis, e aplicarem cartões vermelhos -, podem ter uma profunda influência em um esporte no qual os gols são poucos.

"No nível de clubes locais, talvez fosse possível entender esse fenômeno", comentou Bruce Arena, dirigente da equipe dos Estados Unidos. "Mas eu ficaria chocado se tal coisa ocorresse em nível de Copa do Mundo".

A Fifa diz que confia plenamente nos árbitros da Copa do Mundo. Mas, no mês passado, a Itália suspendeu a habilitação de Massimo de Santis, que foi escolhido para atuar na copa. A suspensão de Santis foi parte de uma investigação em andamento sobre um escândalo de manipulação dos resultados de jogos envolvendo a Juventus de Turim, a equipe campeã da Liga Italiana.

Na quarta-feira (07/06), Santis foi interrogado durante cinco horas por investigadores da federação nacional italiana de futebol, segundo anunciou a Agence France-Presse.

Marcello Lippi, o técnico da Seleção Italiana, e Fabio Cannavaro, capitão da equipe, foram interrogados pelas autoridades que investigam o escândalo envolvendo a Juventus. Segundo novos relatos, ambos são considerados testemunhas, e não suspeitos. Gianluigi Buffon, o principal goleiro italiano, foi interrogado por autoridades que investigam as apostas ilegais. Ele disse que não fez nada de inapropriado, e não foi formalmente acusado.

Embora o escândalo italiano seja o mais recente a atingir um clube internacional de futebol, ele é apenas um dentre pelo menos doze outros casos de corrupção que enodoaram o esporte, da República Tcheca ao Vietnã.

Em novembro do ano passado, o juiz alemão Robert Hoyzer foi condenado a dois anos e cinco meses de prisão por ter interferido nos resultados de jogos da segunda divisão da Bundesliga alemã, em favor de um sindicato croata de apostas que operava em Berlim.

E em outubro do ano passado, os resultados de 11 jogos do campeonato brasileiro foram anulados depois que o árbitro Edilson Pereira de Carvalho admitiu ter recebido propinas para interferir nos placares dos jogos. Como resultado do escândalo, Pereira foi banido para sempre do esporte, e o Brasil ficou essencialmente com dois times campeões depois que a questão foi submetida à Justiça.

"Eu fui corrompido", disse Pereira de Carvalho à TV Globo, no Brasil, explicando que aceitou as propinas porque estava endividado. "Me deixei atrair por esse dinheiro fácil".

Em março último, seis jogadores e técnicos foram demitidos por seus clubes na Bélgica, durante uma investigação sobre fraudes nos jogos que está focalizada, pelo menos em parte, sobre um sindicato chinês de apostas. No mês passado, promotores na Holanda disseram que estão averiguando se houve fraudes na liga holandesa.

Tendo em vista a série de escândalos que precedeu a Copa do Mundo, Andreas Herren, porta-voz da Fifa, afirmou: "Nós obviamente pareceríamos tolos caso disséssemos que nada precisa ser feito".

A segurança era tão intensa em uma entrevista coletiva à imprensa concedida por juízes da Copa do Mundo, na última segunda-feira, em Frankfurt, que os repórteres não tiveram permissão para conversar com os árbitros dentro do hotel. Em vez disso, as entrevistas foram dadas em uma área externa, ajardinada, enquanto a polícia patrulhava o entorno do hotel.

Vários árbitros se recusaram a falar sobre os escândalos. Alguns deles observaram que vários juízes investigados não foram condenados ou não admitiram ter agido de forma desonesta.

Gregory Barkey, dos Estados Unidos, um juiz substituto da Copa do Mundo,
disse: "O que me incomoda é o fato de isso macular a todos. Ainda que eu não tenha feito nada de errado, devido à minha integridade, tem gente que olha para mim como se eu fizesse parte do grupo de juízes desonestos".

A Copa do Mundo praticamente escapou daquele tipo de corrupção que atingiu as ligas domésticas, mas o comportamento de alguns jogadores em dois jogos em particular alimentou suspeitas no decorrer dos anos.

Em 1978, a Argentina necessitava de uma vitória de quatro gols sobre o Peru para avançar - em detrimento do Brasil - para o jogo final contra a Holanda. À época, o total de gols marcados contava para o avanço rumo às etapas seguintes do torneio. Quando a Argentina derrotou o Peru por 6 a 0, houve quem enxergasse uma conspiração, já que o goleiro peruano nasceu na Argentina. Além disso, a Argentina teria enviado ao Peru uma remessa providencial de grãos. Nada jamais foi provado, mas a Fifa mudou o formato da Copa do Mundo para promover a eliminação simples após a primeira etapa do torneio.

Em 1982, a Alemanha Ocidental marcou no início do jogo, em uma vitória de 1 a 0 sobre a Áustria. A seguir, os dois times pareceram valsar deliberadamente em campo durante o restante da partida. Ambas as seleções avançaram para segunda etapa, para a desgraça da Argélia, que foi eliminada. Depois disso a Fifa fez com que os jogos finais dos grupos fossem disputados simultaneamente. Dessa maneira, as equipes são incapazes de saber antecipadamente quantos gols são necessários para que se qualifiquem para a próxima fase.

Mais recentemente, durante a Copa do Mundo de 2002, as atuações de alguns juízes foram altamente criticadas. Entre os juízes examinados com mais atenção naquela copa, disputada no Japão e na Coréia do Sul, estava Byron Moreno, do Equador. Em uma vitória de 2 a 1, na prorrogação, da Coréia do Sul sobre a Itália, na segunda fase, Moreno marcou um pênalti controverso contra a Itália, anulou um gol italiano e expulsou o jogador italiano Francesco Totti.

Uma cidade na Sicília denominou os seus banheiros públicos de "Moreno", como insulto ao juiz supostamente ladrão. Os problemas do árbitro foram se acumulando. Em 2003, Moreno foi suspenso por 20 partidas, depois de conceder um acréscimo inusual de 11 minutos em um jogo do campeonato equatoriano, deixando de registrar esse tempo extra. Mais tarde, ele abandonou a atividade.

A fim de aperfeiçoar a arbitragem da Copa do Mundo de 2006, os juízes passaram por rigorosos exames de preparo físico e foram agrupados com bandeirinhas do mesmo país ou região, o que teoricamente auxiliará a comunicação entre eles.

Angel Maria Villar Llona, vice-presidente da Fifa encarregado de administrar a questão dos juízes, e presidente da federação espanhola de futebol, disse: "Estou absolutamente convencido de que esses juízes são extremamente bem preparados e honestos". Ele expressou a certeza de que "os resultados dos jogos serão reais".

Markus Merk, um juiz alemão muito estimado, que foi escolhido para participar da Copa do Mundo de 2006, disse estar furioso com o fato de alguns dos seus colegas terem se envolvido em escândalos.

"Precisamos lutar contra isso", disse Merk. "Os torcedores gostam de ver uma partida começar em 0 a 0, tendo um resultado em aberto pela frente. Isso torna o esporte atraente, e faz com que acreditemos nele". Danilo Fonseca

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    10h29

    0,15
    3,270
    Outras moedas
  • Bovespa

    10h34

    -0,64
    63.676,20
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host