UOL Notícias Internacional
 

08/06/2006

Não é a primeira vez para a primeira presidente do Chile

The New York Times
Larry Rohter

em Santiago, no Chile
Michelle Bachelet morou duas vezes nos EUA, primeiro quando criança e depois como mãe solteira, estudando questões militares no Conselho de Defesa Interamericanos em Washington, D.C. Na quinta-feira
(08/6) ela voltará à capital, desta vez em sua primeira visita como presidente do Chile.

Eleita com maioria confortável em janeiro, Bachelet, 54, é a primeira presidente do país. Pediatra, ela é socialista como seu predecessor, Ricardo Lagos. Mas em uma época em que as relações de Washington com paladinos da esquerda latino-americana, como Hugo Chávez da Venezuela e Evo Morales da Bolívia, estão cada vez mais contenciosas, o comércio e os laços políticos com o Chile são cordiais e cada vez mais fortes.

"Compartilhamos valores fundamentais e princípios sobre o desenvolvimento democrático com uma economia aberta e respeito aos direitos humanos", disse ela durante uma entrevista de uma hora na terça-feira no palácio presidencial. "Como temos uma amizade fluida e franca, há espaço para concordâncias e divergências."

Nos últimos anos, o Chile tentou traçar o caminho do meio entre a esquerda populista anti-americana e o conservadorismo muscular de Washington. Bachelet, ex-prisioneira política que foi ministra da defesa antes de concorrer à presidência, deu continuidade a essa política e se descreve como defensora da tolerância e do pluralismo.

"A América Latina tem desafios e problemas comuns - entre eles a pobreza, a discriminação e a exclusão- e a ameaça verdadeira de explosões sociais que afetam a democracia", disse ela. "Mas os países e suas realidades são diferentes, então se encontram líderes com os mesmos objetivos, mas soluções completamente diferentes."

O Chile, disse ela, escolheu "estar integrado em um mundo que tem uma economia aberta" e se beneficiou de um acordo de livre-comércio com os EUA, cujo ritmo ela gostaria de acelerar. Talvez haja uma nuvem no horizonte, porém.

A América Latina em breve terá que escolher um novo representante no Conselho de Segurança da ONU e tanto a Venezuela, a bête noire de Washington, e a Guatemala estão concorrendo à vaga. De acordo com relatos da mídia negados por autoridades americanas, o governo Bush deu um "ultimato" ao Chile para que votasse na Guatemala, se não quisesse abalar suas relações.

"Não me senti pressionada" por Washington, disse ela, acrescentando que não favorecia um terceiro candidato, como foi sugerido.

O presidente Bush, que visitou Santiago em novembro de 2004, elogiou o Chile e sua abertura para o comércio livre e o capitalismo de mercado como modelo para outros países latino-americanos. Mas Bachelet indicou certo desconforto com a imagem do Chile como o "melhor aluno da classe", como ela disse.

"Não quero voltar aos conceitos relacionados à Guerra Fria, em que há o grupo dos bons, os menos bons, os mais ou menos e os ruins", disse ela. "A lógica do mercado não resolve todos os problemas e, da forma como vejo, você precisa de políticas sociais fortes e poderosas do Estado para resolver os problemas de renda e de desigualdade de oportunidade."

Bush também deu um impulso ao sistema de segurança social privatizado, que ele sugeriu como modelo para a reforma nos EUA. Mas a insatisfação com as pensões está crescendo no Chile e, durante a recente campanha presidencial, Bachelet, que também foi ministra da saúde, prometeu grandes mudanças.

"Há uma série de problemas fortemente ligados a um sistema que tem certas pressuposições que não se tornaram verdade", disse ela. "As pessoas se aposentam e descobrem que têm direito a uma pensão que é 30 e 50% de seus salários e não os 70% ou mais prometidos."

O sistema discrimina particularmente as mulheres, disse ela, porque "mesmo quando recebemos o mesmo e acumulamos algumas economias, temos pensões menores" já que as mulheres vivem mais. Trabalhadores de temporada e empregados que mudam de emprego também sofrem, disse ela, o que a levou a ordenar, quando assumiu o cargo em março, um aumento da pensão do governo para os mais pobres.

Além de sua agenda oficial, Bachelet vai participar de eventos que refletem a curiosidade e o orgulho por ser a primeira mulher presidente do Chile. Na noite de quinta-feira, ela será homenageada em um jantar patrocinado por líderes políticas.

Bachelet também planeja visitar a escola que freqüentou em Bethesda, Maryland, em 1962 e 1963, quando seu pai era attaché militar na embaixada chilena em Washington. Essa foi a primeira vez que foi para fora do Chile e a exposição à sociedade americana ajudou a moldá-la intelectualmente, disse ela.

"Foi uma experiência adorável, porque conheci uma sociedade com um histórico democrático, uma ampla diversidade de pensamento e que oferecia oportunidades a seus cidadãos", disse ela. "A idéia de caldeirão social foi a maior novidade para mim e eu diria que me permitiu adquirir uma fundação política e cultural que foi bastante positiva para meu desempenho político."

Mas quando Salvador Allende, o primeiro socialista a governar o Chile e também médico, foi eleito em 1970, os EUA conspiraram com os militares para derrubá-lo. Isso resultou no golpe de 1973 que trouxe o general Augusto Pinochet ao poder e provocou a prisão e a morte do pai de Bachelet, então general das Forças Aéreas e leal a Allende. Ela e sua mãe tiveram que buscar o exílio, primeiro na Austrália e depois na Alemanha Oriental.

"Não há rancor", disse ela quando perguntada sobre o episódio. "Como tinha morado nos EUA, sabia diferenciar entre as pessoas e a política."

Nos últimos dias, sua tolerância foi testada por estudantes que tomaram as ruas para exigir mais gastos com educação e menos com defesa. Bachelet disse que considerava o protesto pacífico como parte da democracia próspera.

"Os chilenos estão dizendo: 'Este é um país que se saiu bem, mas queremos mais', e isso é natural", disse ela. "Existem demandas legítimas e tomei uma decisão sobre as reformas que melhorarão a qualidade do ensino."

A preocupação com o bem-estar dos mais pobres chilenos é parte de seu manifesto como socialista no século 21, disse Bachelet.

"Acreditamos fortemente em uma democracia com um forte tom social, com justiça social e solidariedade", disse ela. "O Estado é importante, mas também quero uma sociedade mais calorosa e mais humana, na qual as pessoas se ajudam e lutam contra todas as formas de desigualdade." Deborah Weinberg

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