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08/06/2006

Receita do petróleo promove uma economia perdulária

The New York Times
Jens Erik Gould

em Caracas, Venezuela
Em uma recente manhã de domingo aqui, os clientes esgotaram o Vintage, um bar da moda de classe alta, de quase toda sua melhor vodca. Na concessionária Castellana Chevrolet perto dali, os compradores aguardam oito meses para receber carros pelos quais pagaram há muito tempo.

E na LG Digital Store e na RCA Electronics no shopping Sambil, a confiança dos consumidores tem ajudado a esvaziar as prateleiras de aparelhos de televisão e refrigeradores.

"Até mesmo os operários de construção estão gastando quase todo seu salário assim que o recebem", disse Gerardo Pereira, 33 anos, o dono do Vintage, que disse que nunca viu venezuelanos de todas as classes sociais gastarem tanto.

Com a receita do petróleo entrando em seus cofres, o governo está gastando como nunca em programas sociais que liberam mais dinheiro para os pobres, ao fornecer ensino e atendimento de saúde gratuitos e alimentos baratos. Gastos com aumentos salariais e projetos de infra-estrutura também enchem a economia de dinheiro, que vai parar nos bolsos dos venezuelanos. Como resultado, os consumidores estão comprando mais a cada ano, ajudando a Venezuela a postar um crescimento de mais de 9% no ano passado e no primeiro trimestre.

Mas os economistas daqui e do exterior dizem que é um boom econômico artificial que poderá prejudicar o país mais adiante. A onda de gastos, eles dizem, está mascarando as limitações fundamentais de uma economia estimulada por gastos, mas que fracassa em gerar novos investimentos privados suficientes para sustentar um crescimento de longo prazo e criação de empregos.

"Eles estão tirando o miolo da economia e preparando a Venezuela para um grande revés caso os preços do petróleo voltem aos níveis históricos normais", disse Michael Gavin, economista-chefe para América Latina do UBS Warburg, em Connecticut.

O presidente Hugo Chávez, que tem moldado sua política econômica doméstica em torno da canalização da receita do petróleo para programas sociais, apertou suas rédeas sobre o setor privado; ele forçou companhias de petróleo estrangeiras a mudarem seus contratos, desapropriou terras privadas consideradas ociosas e impôs leis trabalhistas restritivas.

Chávez é encorajado por uma sextuplicação dos preços do petróleo desde que foi eleito há mais de sete anos. Mas para muitos investidores, o maior controle do governo e as medidas imprudentes de Chávez contra o setor privado estão nublando a perspectiva de atuação neste país, um dos maiores exportadores de petróleo do mundo.

"Isto é muito ruim e inconveniente", disse Domingo Maza Zavala, o diretor do banco central, em uma entrevista. "Se esta é a visão de nossos investidores privados, em poucos anos a economia venezuelana cairá em uma situação difícil devido à ineficiência produtiva."

Maza disse que o governo está cometendo os mesmos erros que os governos venezuelanos cometeram nos anos 70 e 80, quando gastanças em tempos de preços altos do petróleo se tornaram difíceis de conter assim que os preços caíram, levando a um aumento da dívida nacional e fortes recessões econômicas.

"Nós sabemos que o cenário favorável acabará", ele disse. "Infelizmente, eu não acho que o governo aprendeu as lições do passado."

O investimento estrangeiro direto quase dobrou no ano passado, de US$ 1,5 bilhão, em 2004, para US$ 2,9 bilhões, enquanto a economia se recuperava da queda livre que se seguiu às greves antigoverno em 2002.

Mas a Venezuela atraiu 30% menos investimento estrangeiro direto em 2005 do que na segunda metade dos anos 90, um período em que o setor de petróleo se abriu para empresas multinacionais, segundo a Comissão Econômica das Nações Unidas para América Latina e o Caribe, um grupo que monitora a performance econômica.

O investimento privado total aumentou 3% de 2000 a 2004, segundo o banco central, mas Gavin disse que a performance do setor privado venezuelano é fraca em comparação a outras economias em crescimento na América Latina. O México, por exemplo, atraiu duas vezes mais investimentos privados em relação ao seu produto interno bruto no ano passado do que a Venezuela conseguiu em 2004. O banco central não publicou números para 2005.

Maza disse à Assembléia Nacional, na quarta-feira, que o investimento
privado está abaixo de 15% do produto total, o nível que ele diz ser
necessário para manter a economia em crescimento. "Este é um dos defeitos do crescimento atual", ele disse.

A grande entrada de bens estrangeiros tem impedido as indústrias nacionais de expandirem e criarem empregos, disse José Rojas, um ex-ministro das Finanças de Chávez e que agora é um consultor econômico. As importações, quase um terço dos Estados Unidos, cresceram 28% no ano passado, atingindo quase US$ 25 bilhões, disse o governo venezuelano.

Apesar da economia ter crescido 9% no ano passado, tal crescimento produziu um aumento de menos de 2% no número de empregos, segundo o Instituto Nacional de Estatísticas do governo.

Enquanto isso, os gastos públicos cresceram 40% no primeiro trimestre, para US$ 11 bilhões, segundo o banco central.

O ministro do Planejamento e Desenvolvimento, Jorge Giordani, espera que a economia cresça 7% neste ano, já que a alta demanda por bens renovou o investimento em telecomunicações e comércio. Os gastos públicos representaram 28% do produto interno bruto em 2005. "Quando vejo alguém com um novo modelo de roupas, eu tenho que comprar", disse Judith Quintero, 29 anos, que disse estar gastando mais de seu próprio bolso desde que as vendas na loja de roupas infantis que ela gerencia, a Confetti, aumentaram 40% no mês passado. "Meu marido me diz que estou gastando mais do que ganho."

As empresas estão caladas quanto à sua relutância em investir porque não querem irritar o governo e porque estão lucrando no momento com o alto consumo. Os níveis quase dobraram no primeiro trimestre, segundo a firma de pesquisa de mercado LatinSource.

"Os empresários estão todos muito felizes porque estão ganhando muito",
disse Oscar García Mendoza, presidente do banco Venezolano de Credito. "Mas não querem investir."

Apesar do aumento dos lucros do petróleo ter promovido um boom no setor de construção em outros países produtores de petróleo como Qatar e Emirados Árabes Unidos, García apontou que não conseguia ver guindastes de construção enquanto olhava de seu escritório, em um edifício com ampla vista, para o centro de Caracas.

Chávez, um esquerdista que se tornou o antagonista mais persistente do
governo Bush na região, tem desencorajado investimentos muito necessários ao manter um discurso estridente contra o capitalismo e encorajando a transformação da Venezuela em um "novo socialismo do século 21".

Com o judiciário controlado pelo governo, muitos empresários acham que há pouco respeito por contratos, disse Antonio Canova, do escritório de
advocacia Bolinaga Levy Marquez & Canova, em Caracas. Os investidores também estão preocupados com sua segurança pessoal, já que a criminalidade toma conta das cidades venezuelanas e uma série de seqüestros e assassinatos chocou recentemente o país.

No setor industrial, 40% das empresas fecharam desde que Chávez se tornou presidente, a maioria logo depois que ele assumiu o poder, e o número de empresas em atividade não se recuperou desde então, disse a Conindustria, a confederação da industria da Venezuela. Apesar do setor industrial prever um crescimento de 10% neste ano, apenas um décimo das empresas está planejando investimentos de longo prazo, como a ampliação de suas instalações ou a construção de novas fábricas, disse e entidade.

"Não há regras e regulamentações realmente estabelecidas para encorajar o setor privado", disse Edmond Saade, presidente da Câmara de Comércio
Venezuelana-Americana. "Há mais para controlá-lo e para tornar sua vida mais difícil."

Chávez transferiu as reservas estrangeiras e os lucros do petróleo para um fundo de desenvolvimento, que Maza Zavala estima que atingirá US$ 20 bilhões até o final do ano. Tal dinheiro financia uma enxurrada de programas sociais, como programas de alfabetização, atendimento de saúde e mercados de alimentos baratos que são a marca de sua "revolução bolivariana".

Mark Weisbrot, co-diretor do Centro para Pesquisa Econômica e Política, um grupo de inclinação esquerdista em Washington, disse que estes programas ajudaram a aumentar o padrão de vida e a produtividade dos trabalhadores entre os pobres. Ele notou que números do Instituto Nacional de Estatísticas mostram que a pobreza caiu 7% desde que Chávez assumiu o poder.

Weisbrot discorda dos economistas que prevêem uma catástrofe devido ao boom gerado pelo consumo, apontando que um crescimento de 11% no setor
não-petrolífero, no primeiro trimestre, é uma medida mais importante da
economia do que a confiança do investidor.

Por ora, pelo menos, os venezuelanos estão gastando como se não houvesse amanhã. "As pessoas de todas as classes sociais têm dinheiro no bolso", disse Pereira, o dono do Vintage, coletando as garrafas caras que os freqüentadores do bar deixaram para trás semicheias. "Assim, todos estão consumindo." George El Khouri Andolfato

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