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09/06/2006

Com a abertura da Copa do Mundo, Alemanha espera 'fazer amizades'

The New York Times
Mark Landler e Jere Longman

em Munique, na Alemanha
A Alemanha abre suas portas para o torneio de futebol da Copa do Mundo, que começa aqui na sexta-feira (09/6), e os organizadores deram aos alemães uma simples ordem: façam amizades.

Até este sentimento benigno pode ser emocionalmente carregado, em uma terra que teve dificuldades com esse conceito.

Mas o que é notável sobre esta Copa do Mundo -a segunda em solo alemão desde a Segunda Guerra Mundial- é como os alemães estão pouco preocupados com sua imagem, com seu lugar no mundo, enquanto se preparam para o escrutínio de milhões de visitantes estrangeiros e bilhões de telespectadores.

A única pressão parece girar em torno da capacidade dos alemães de fazerem uma boa festa -um desafio que assumiram com uma apresentação característica de planejamento teutônico. Onze dos 12 estádios da Copa do Mundo estavam prontos com um ano de antecedência. Ruas e praças de 300 cidades foram transformadas em locais de congregação, onde os jogos serão apresentados em telões gigantes.

"Os alemães não estão tentando provar nada", disse Gunter Gebauer, filósofo e especialista em esportes da Universidade Livre de Berlim. "Eles estão se concentrando em suas virtudes essenciais, como por exemplo sua organização.Mas as pessoas na Alemanha realmente só querem se divertir."

O ambiente está relaxado, apesar de temores com a violência de hooligans, particularmente do Reino Unido e da Polônia, ou de ataques terroristas. As autoridades alemãs estão se preparando com 280.000 policiais e aviões de vigilância da Otan. Mais de 40.000 fãs britânicos são esperados em Frankfurt no sábado, quando a Inglaterra joga contra o Paraguai, apesar de apenas 10.000 terem entradas para o jogo.

Autoridades alemãs também ficaram agitadas com a perspectiva de o presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, vir ver seu time jogar. Os iranianos enviaram sinais conflitantes sobre a possível visita. As autoridades alemãs rejeitaram as exigências por parte de grupos judeus de proibir sua presença, por ter alegado recentemente que o Holocausto não aconteceu.

Em campo, o campeão Brasil deve dominar, junto com a Inglaterra, Argentina e Holanda, consideradas suas rivais mais prováveis. Os alemães em grande parte negam as chances de seu time ganhar, apesar da vantagem significativa de jogar em casa.

Apesar de os alemães não estarem reclamando da falta de perspectiva de sua equipe, que venceu três Copas do Mundo, sua ansiedade aumentou na quinta-feira depois que o técnico, Juergen Klinsmann, disse que o astro do time, Michael Ballack, ia perder o jogo de abertura na sexta-feira contra a Costa Rica por causa de uma lesão em sua panturrilha.

A vitória alemã foi muito festejada em 1954, quando ajudou a levantar o país das cinzas da guerra; em 1974, quando fechou um torneio sem problemas na Alemanha Ocidental; e em 1990 quando simbolizou a esperança da reunificação da Alemanha. Hoje, parece menos vital à auto-imagem do país.

"Naturalmente, as pessoas ficariam excitadas com uma vitória da Alemanha, mas estão muito mais relaxadas a respeito", disse Dieter Juetting, sociólogo da Universidade de Munster. "Não há um surto de nacionalismo."

A Alemanha está marcando pontos em outras áreas: a economia voltou a crescer depois de cinco anos de estagnação, e o governo de "grande coalizão", liderado pela chanceler Angela Merkel, teve uma longa lua-de-mel, depois de um ano de paralisia política.

Merkel, física que virou política, convenceu poucos que de fato gosta de futebol. Mesmo assim, capturou o ambiente em uma entrevista no domingo ao jornal Bild am Sonntag.

"Nossos fãs desenvolveram um orgulho relaxado de seu país", disse ela. "As pessoas estão agitando bandeiras sem terem que se justificar."

Na estação de trem de Munique, na quinta-feira, algumas pessoas carregavam bandeiras alemãs e tinham suas cores pintadas no rosto. Em Frankfurt, ocasionalmente vê-se Volkswagens com bandeiras alemãs, uma visão rara durante as duas Copas anteriores aqui.

A Copa do Mundo de 2006, então, pode ser outro marco na longa jornada alemã para a normalidade. Mas isso não impediu as pessoas de fazerem sua costumeira autocrítica.

Alguns dizem que o slogan do torneio "Uma hora para se fazer amizades"
parece vazio, depois da série de ataques contra turcos e outras minorias em Berlim e outras cidades do Oeste da Alemanha. Um antigo porta-voz do governo chegou a advertir pessoas de pele escura que evitassem certas áreas do país.

"A maior parte dos alemães gostaria de ter a mente aberta e amigável com o mundo. Mas nós temos sérios problemas com essas áreas xenófobas", disse Detlev Claussen, sociólogo da Universidade de Hanover.

Neonazistas e extremistas de direita são uma pequena minoria, concentrados em partes economicamente deprimidas do Oriente. O ministro do interior alemão, Wolfgang Schaueble, que está coordenando uma enorme operação de segurança, diz que de qualquer forma os leva a sério.

Na quinta-feira, a justiça alemã proibiu o Partido Democrático Nacional, de extrema-direita, de organizar uma manifestação em Gelsenkirchen, uma das 12 cidades dos jogos. A passeata imporia "uma ameaça imediata à segurança pública", disse o juiz. A maior parte dos alemães acredita que se alguém vai estragar a festa, serão os hooligans, não os neonazistas ou os terroristas islâmicos. Os fãs poloneses são uma preocupação particular, já que o hooliganismo está aumentando no país. A Polônia joga contra a Alemanha na quarta-feira, e a longa história entre os dois países não está esquecida.

Claussen obsertou, entretanto, que "rivalidades nacionais são completamente diferentes de rivalidades de hooligans".

Os alemães parecem estar mais concentrados na questão financeira, se a Copa do Mundo e os visitantes estrangeiros tonificarão a economia. Pesquisas recentes demonstraram que os alemães estão mais otimistas com o futuro do que foram por anos. Até o índice de desemprego caiu no mês passado.

Ainda assim, alguns economistas acham que as esperanças de um dividendo com a Copa do Mundo não são realistas. A economia alemã pode crescer 2% neste ano -um ritmo rápido se comparado com padrões recentes- mas economistas advertem que vai diminuir novamente em 2007, depois que o governo aumentar o imposto de valor agregado.

"A Copa do Mundo não vai mudar em nada os problemas crescentes que Frau Merkel enfrenta", disse Josef Joffe, editor do semanário Die Zeit.

Nem todos concordam. Reimar Zeh, palestrante de comunicações da Universidade de Erlangen-Nuremberg, estudou as ligações entre o futebol e a política e disse que o desempenho da equipe alemã influenciou o resultado das eleições em 1998 e 2002.

Se a Alemanha se sair bem desta vez, disse Zeh, os bons resultados podem proteger Merkel das críticas contra o aumento de impostos, ao menos temporariamente. O Bild, o jornal de massa mais influente do país, interrompeu sua campanha contra o imposto nas últimas semanas para se concentrar no futebol.

O Bild também está guardando suas críticas a Klinsmann, o técnico. O jornal confrontou-o regularmente desde que assumiu a seleção, depois do desempenho desastroso da Alemanha nos campeonatos europeus de 2004.

Em estilo e substância, Klinsmann incorpora a abordagem mais flexível dos ameães à Copa. Ele escalou jovens talentos e colocou os mais velhos na reserva -como o goleiro Oliver Kahn, o mais valioso jogador da Copa de 2002 -e deu à seleção um estilo agressivo de ataque.

O técnico mora no Sul da Califórnia e é amigo do gerente americano Bruce Arena. Assim, Klinsmann, adotou técnicas americanas nos preparativos para a Copa do Mundo. Ele trouxe um treinador físico americano e um psicólogo esportivo. Diferentemente de técnicos alemães, que enclausuram seus jogadores, Klinsmann hospedou sua equipe em um hotel de luxo no distrito elegante de Grunewald em Berlim. Ele permitiu que se aventurassem pela cidade para comer e fazer compras, da mesma forma que Arena fez com os americanos em Hamburgo. A estratégia é permitir que os jogadores passem um tempo longe do futebol, para que possam relaxar e não sucumbir à pressão e ao isolamento.

Joachim Loew, assistente do técnico alemão, disse que Klinsmann preferia a abordagem americana "porque são positivos lá. Aqui na Alemanha, as pessoas gostam de encontrar o negativo. Gostam de criticar".

Klinsmann enfrentou o futebol alemão e a mídia quando escolheu continuar morando na Califórnia. No entanto, ateve-se ao seu plano e disse que acreditava que sua equipe ia vencer a Copa do Mundo. Os torcedores alemães não têm a mesma certeza. Uma pesquisa nesta semana disse que 20% previam uma vitória, um número pequeno para um país sede da Copa. Eisenberg, historiadora de Berlim, disse que estava tentando encontrar alguém disposto a apostar que os alemães iam se sair bem. "Não encontrei ninguém com quem apostar", disse ela.

Mas Andrei Markovits, professor de estudos alemães da Universidade de Michigan, que acaba de chegar a Hamburgo para assistir a Copa, disse que os alemães estão apenas protegendo-se psicologicamente. Na verdade, disse ele, "no coração, estão doidos para a Alemanha ganhar". Deborah Weinberg

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