UOL Notícias Internacional
 

09/06/2006

Forças americanas matam Al Zarqawi, o líder rebelde no Iraque

The New York Times
John F. Burns
em Bagdá, Iraque
Com um par de bombas de 450 quilos, as forças americanas mataram Abu Musab Al Zarqawi, o rebelde mais procurado no Iraque, aumentando a confiança das autoridades e oficiais americanos e do novo governo iraquiano, à medida que entram no quarto ano caótico de guerra.

A morte de Al Zarqawi, o líder da Al Qaeda na Mesopotâmia, e cinco outros reunidos com ele em um abrigo isolado, ocorreu no norte de Bagdá na noite de quarta-feira, mas foi anunciada na manhã de quinta-feira, encerrando uma longa caçada ao líder terrorista de 39 anos.

Al Zarqawi se tornou uma figura quase mítica, mesmo que odiada, entre as tropas americanas -e ainda mais entre os xiitas iraquianos, que eram suas principais vítimas. A recompensa americana pelo militante de origem jordaniana era de US$ 25 milhões, devido ao seu papel no comando de muitos dos ataques mais brutais do conflito, incluindo muitos atentados suicidas, seqüestros e decapitações.

Ainda assim, a maioria das autoridades iraquianas e americanas parecia bastante escolada com os choques implacáveis da guerra para saudar sua morte como um momento decisivo de virada.

"Zarqawi está morto", disse o presidente Bush em um anúncio no início da manhã, "mas a missão difícil e necessária no Iraque continua. Nós podemos esperar que os terroristas e rebeldes prosseguirão sem ele".

Menos de 18 horas após a morte de Al Zarqawi, o novo Parlamento do Iraque superou um longo impasse e aprovou os indicados para três cargos chaves -os ministros da Defesa, Interior e Segurança Nacional. As indicações preencheram um vácuo que se tornava cada vez mais preocupante para as autoridades americanas aqui, que viam a disputa entre políticos rivais pelos cargos como um sinal temerário de fraqueza para um governo que precisa desesperadamente mostrar que pode coibir a violência sectária, aplacar uma minoria árabe sunita furiosa e conter as milícias desgarradas.

Uma das principais metas de Al Zarqawi, e principal legado, era inflamar as paixões sectárias que o novo governo precisa esfriar. A maioria dos oficiais espera que a violência rebelde continue. O general de divisão William B. Caldwell, um assessor do mais alto comandante americano aqui, o general George W. Casey Jr., disse aos repórteres, em uma coletiva sobre o ataque, que os comandantes americanos já identificaram o homem que provavelmente assumirá como líder da Al Qaeda no Iraque. Ele citou um militante egípcio que atende pelo nome de guerra de Abu Al Masri, que Caldwell disse que está no Iraque desde 2002 e teve papel importante na organização de atentados suicidas ao redor de Bagdá.

Em uma medida para convencer os céticos inclinados a duvidar da morte de Al Zarqawi, após ter escapado das tropas americanas pelo menos duas vezes nos últimos 18 meses e zombar delas em uma série de gravações de áudio e vídeo cada vez mais desafiadoras, postadas em sites militantes islâmicos na Internet, Casey disse aos repórteres que o corpo de Al Zarqawi foi identificado pelas forças americanas "por verificação de digitais, reconhecimento facial e cicatrizes conhecidas".

Na coletiva de imprensa, os assessores de Caldwell expuseram uma foto ampliada do rosto de Al Zarqawi morto, com uma pequena cicatriz facial; olhos salientes, fechados; barba preta desgrenhada e o que pareciam ser pequenos ferimentos. Eles disseram que o exame do cadáver mostrou outras cicatrizes e tatuagens que correspondiam à inteligência sobre o líder da Al Qaeda, obtida antes do ataque. O general disse que o comando americano também enviou amostras de DNA do corpo para um laboratório fora do Iraque, para comparação com outro material de DNA que confirmaria o cadáver como sendo de Al Zarqawi. Os resultados do exame deverão sair nas próximas 48 horas.

Mas a confirmação mais decisiva da morte veio, ironicamente, da própria Al Qaeda, em uma série de notas de falecimento postadas em sites islâmicos que serviram como fóruns para Al Zarqawi no passado.

As mensagens saudavam sua morte, o descrevendo como um mártir e um mujahid, ou guerreiro islâmico, e dizendo que sua morte era motivo de alegria para o próprio Al Zarqawi, para seus seguidores e para todos os muçulmanos. "Nós anunciamos o martírio de nossa mujahid, xeque Abu Musab Al Zarqawi, e destacamos que esta é uma honra para nossa nação", disse uma declaração assinada por um dos vices de Al Zarqawi, Abu Abdulrahman Al Iraqi.

E se alguém aqui precisa de mais uma advertência a respeito do impacto da morte de Al Zarqawi, além do fato de que as tropas americanas mataram e capturaram mais de 160 de seus assessores próximos e comandantes nos últimos dois anos sem conter significativamente a violência causada por seus seguidores, ela se assemelha à captura de Saddam Hussein, em 13 de dezembro de 2003. A prisão de Saddam, em um bunker subterrâneo perto de sua casa em Tikrit, foi saudada triunfantemente pelas autoridades americanas e iraquianas na época, mas provou ser apenas um breve interlúdio no caminho do agravamento do derramamento de sangue.

Trinta meses depois, Saddam é a figura dominante em um tribunal de Bagdá, onde está sendo julgado por crimes contra a humanidade, e tem usado o banco dos réus para condenar o papel dos Estados Unidos no Iraque e pedir para que os rebeldes realizem ainda mais ataques.

A lição aprendida pelas autoridades americanas é de que no Iraque, é quase sempre mais seguro subestimar a importância de incidentes raros de boas notícias, tamanha a freqüência com são seguidas, às vezes em questão de dias, de novos reveses e choques.

Em uma coletiva de imprensa conjunta realizada aqui para o anúncio da morte, Casey expressou cautela quanto ao impacto que a morte de Al Zarqawi terá na guerra, assim como o embaixador americano Zalmay Khalilzad e o primeiro-ministro do Iraque, Nuri Kamal Al Maliki.

A sessão parlamentar que aprovou os novos ministros foi marcada na segunda-feira, mais de 48 horas antes de Casey ter dado a aprovação final para que caças F-16 da Força Aérea americana lançassem duas bombas que arrasaram o refúgio isolado em Hibhib, a 56 quilômetros ao norte de Bagdá, onde Al Zarqawi estava escondido.

As autoridades americanas e iraquianas disseram que foi coincidência a aprovação parlamentar dos novos ministros de Al Maliki após o bombardeio ter eliminado o homem que a era o inimigo público Nº 1 para muitos iraquianos.

Mas acaso ou não, a congruência dos dois eventos pareceu ajudar o primeiro-ministro a obter uma rápida aprovação para seus indicados por parte de blocos políticos rivais, que pareciam dispostos a uma obstrução poucos dias atrás.

Um dos candidatos, Abdul Qader Mohammed Jassim, o novo ministro da Defesa, é um árabe sunita e um ex-general do exército de Saddam que ficou preso por sete anos em 94, após fazer críticas à invasão ao Kuwait pelo ditador iraquiano, em 1991, que terminou desastrosamente para o Iraque quando uma força liderada pelos Estados Unidos derrotou os iraquianos e os expulsou do reino no deserto.

No domingo passado, a indicação de Jassim parecia fadada ao fracasso por causa da oposição do bloco xiita dominante no novo Parlamento, devido à antiga filiação de Jassim ao partido Baath de Saddam. Mas tal obstáculo foi superado na quinta-feira, e o novo consenso levou a uma aprovação fácil dos novos indicados xiitas para os ministérios do Interior e Segurança Nacional.

Como ministro do Interior foi nomeado Jawad Al Bolani, um ex-coronel das forças armadas de Saddam, onde serviu como engenheiro até a aposentadoria, em 1999. O novo ministro da Segurança Nacional é Sherwan Al Waili, outro ex-engenheiro militar, que se aposentou das forças de Saddam em 2000.

Khalilzad, o embaixador, exerceu forte pressão nos bastidores para que os cargos de segurança fossem preenchidos, alertando Al Maliki e os principais blocos políticos, particularmente os sunitas e xiitas, que sua disputa pelos cargos estava enviando uma mensagem profundamente negativa para os americanos, em um momento em que as pesquisas mostram uma queda do apoio à guerra nos Estados Unidos.

Poucas horas depois de sua vitória parlamentar, os novos ministros tiveram que enfrentar seu primeiro desafio, o planejamento de uma nova repressão à violência em Bagdá na qual Casey, Khalilzad, Al Maliki e seus assessores trabalham intensivamente desde que o novo governo assumiu em 20 de maio.

A repressão, cujos detalhes não foram discutidos publicamente, representará um teste para o impacto que a morte de Al Zarqawi terá sobre os atentados suicidas, explosões de beira de estrada e seqüestros que são marca da Al Qaeda.

Casey e Khalilzad adotaram um tom cauteloso na coletiva de imprensa com Al Maliki, que confirmava os boatos da morte de Al Zarqawi que tinham começado a circular em Bagdá na metade da manhã de quinta-feira.

Casey, que se aproxima do fim de seu segundo ano como comandante geral americano aqui e que enfrenta níveis de violência que enviaram mais de 6 mil corpos para o necrotério de Bagdá apenas nos últimos cinco meses deste ano, manteve expressão impassível enquanto descrevia a morte como "um golpe significativo para a Al Qaeda e outro passo para a derrota do terrorismo no Iraque".

O general de quatro estrelas e 57 anos acrescentou: "Apesar do líder designado da Al Qaeda no Iraque estar morto, a organização terrorista ainda representa uma ameaça, já que seus membros continuarão tentando aterrorizar o povo iraquiano e desestabilizar seu governo à medida que este caminha para a estabilidade e prosperidade. As forças iraquianas, apoiadas pela coalizão, continuarão caçando os terroristas que ameaçam o povo iraquiano até que o terrorismo seja erradicado do Iraque". Ele acrescentou: "Este é apenas um passo no processo".

Khalilzad estava igualmente circunspecto. "A morte de Zarqawi em si não colocará um fim à violência no Iraque, mas é um importante passo na direção certa", ele disse. "É um bom presságio para o Iraque, para o novo governo do primeiro-ministro Maliki e para nossos esforços gerais na guerra global contra o terror." Mas ele acrescentou: "Haverá dias difíceis à frente, enquanto continuamos juntos, forças iraquianas e da coalizão, a combater os terroristas e aqueles que querem que o Iraque fracasse".

Al Maliki adotou um tom mais otimista, provocando aplausos, vivas e gritos de "A paz esteja com Ele!", a tradicional deferência ao Profeta Maomé, entre as autoridades iraquianas que estavam presentes na coletiva de imprensa sobre a morte de Al Zarqawi, quando ele iniciou seus comentários dizendo: "Hoje, nós conseguimos eliminar Zarqawi". Ele disse que o evento deve servir de alerta para outros líderes rebeldes. "Eles devem parar agora", ele disse. "Eles devem analisar sua situação e fazer uso da lógica enquanto ainda há tempo."

Nas ruas das grandes cidades do Iraque, a reação variou de manifestações discretas de alívio, esperança a profundo ceticismo, mas com pouco da comemoração frenética com que foi recebida a captura de Saddam, que levou multidões às ruas e provocou horas de disparos para o ar em Bagdá e outras cidades.

Na quinta-feira, os sinais mais visíveis de comemoração ocorreram nos bairros xiitas, que eram as vítimas do esforço de Al Zarqawi para provocar uma guerra civil entre os sunitas e xiitas -um esforço que levou os terroristas ligados à Al Qaeda a atacarem implacavelmente as mesquitas, mercados, casamentos e até mesmo funerais xiitas com ataques suicidas e outros.

Nas áreas xiitas de Bagdá, policiais deram os braços em danças tribais tradicionais dentro da segurança de suas instalações bem protegidas. No distrito de Khadimiyah, no centro da capital, as mulheres e crianças xiitas distribuíram chocolates para os soldados do novo exército iraquiano treinado pelos americanos, e os fiéis visitaram os templos para oferecer orações de agradecimento pela morte de Al Zarqawi, seu perseguidor.

Na cidade sagrada xiita de Najaf, as pessoas se cumprimentavam nas ruas e um homem foi visto distribuindo copos de suco para os transeuntes no centro antigo da cidade, pedindo para que bebessem em comemoração. George El Khouri Andolfato

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