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11/06/2006

Já seria hora de uma mulher ocupar a Presidência dos EUA?

The New York Times
Anne E. Kornblut
em Washington
Algo acontece quando a senadora Hillary Rodham Clinton entra em uma sala cheia. As pessoas fazem rapidamente um círculo à sua volta, os flashes das câmeras começam a ser disparados freneticamente e todo o centro de gravidade do local se desloca para a mulher de terno.

Foi assim durante um jantar de gala que celebrou líderes femininas aqui na quinta-feira passada, mas com uma diferença: a mulher candidata à Presidência que todos estavam lá para ver não era Clinton.

Em vez disso, ela ocupou um lugar para prestar homenagem a Geena Davis, a atriz que fez o papel de uma presidenta norte-americana no show de televisão "Commander in Chief" (Comandante-em-chefe), e a seguir saudou a convidada de honra, Michelle Bachelet, a recém-empossada presidenta do Chile.

Durante um breve momento, Clinton teve que ceder a sua posição proeminente a uma presidenta fictícia, e a uma outra real e estrangeira.

"Geena Davis estrelou em um dos meus dramas favoritos - é claro que estou me referindo a "Uma Equipe Muito Especial" ("A League of Their Own", EUA, 1992),", disse Clinton no seu discurso, se referindo ao filme de 1992 sobre uma equipe de beisebol inteiramente feminina, provocando risos em uma multidão de mulheres politizadas, e bastante familiarizadas com as supostas aspirações presidenciais da senadora. A respeito de Bachelet, Hillary disse: "Me disseram que ela estava disputando a Presidência e pensei: 'Que bom para ela'".

O episódio envolvendo a senadora colocou em evidência uma realidade fundamental referente à iminente candidatura de Hillary Clinton. Por mais singular que seja a sua figura, Hillary, caso dispute a presidência, o fará em um país que está atrás em uma lista crescente de nações que elegem mulheres para o posto mais elevado. Um país que recentemente acabou com a sua versão hollywoodiana de presidenta da república ("Commander in Chief" foi retirado definitivamente da programação da rede de televisão ABC no mês passado).

Embora as pesquisas indiquem que a maioria dos norte-americanos está disposta a votar em uma mulher - mais de 90% dos entrevistados disseram que o fariam se gostassem da candidata -, um número bem menor, cerca de 55%, acredita que o país está totalmente pronto para uma presidenta. De maneira geral, os dados sugerem que existe um persistente estranhamento com relação à idéia de mulheres ocupando as posições mais elevadas do poder político, tanto nas telas quanto na vida real.

O mesmo não pode ser dito com relação ao resto do mundo. Há décadas países como Paquistão, Israel, Índia e Reino Unido vêm alçando as mulheres ao papel de chefe do Executivo, um fenômeno que os apoiadores de Hillary estudam cuidadosamente enquanto preparam o terreno para 2008.

Organizações inteiras --incluindo o White House Project (Projeto Casa Branca), que patrocinou o jantar para Bachelet-- foram formadas para descobrir por que os Estados Unidos ainda não elegeram uma mulher para a Presidência, com uma ênfase particular na análise do papel exercido pela mídia e a cultura popular.

Existem incontáveis teorias, sendo que a principal delas é a de que a candidata correta ainda não surgiu. O problema com esta teoria é que ela é capaz de explicar tudo e nada ao mesmo tempo. Recorrendo a este raciocínio, alguns dos detratores de Hillary asseguram que se ela perder, o fato de ser mulher pouco terá a ver com isso --a derrota estará mais vinculada à questão do Iraque, a um cansaço com relação aos Clinton ou àquilo que eles dizem ser o "efeito polarizador" da possível candidata.

Porém, aqueles que estudam o quadro mais amplo dizem que existem razões concretas para que nenhuma mulher tenha sequer chegado perto de conquistar a Presidência dos Estados Unidos. Existem menos dinastias políticas nos Estados Unidos daquela espécie que confere às mulheres uma aura de autoridade em outros países, como a dos Bhutto, no Paquistão, e a dos Nehru e Ghandi, na Índia.

O sistema eleitoral nos Estados Unidos é mais complicado neste sentido do que o parlamentar, no qual uma mulher (Margaret Thatcher, no Reino Unido, Golda Meir, em Israel) é eleita somente por membros do seu próprio partido, e não pelo eleitorado inteiro.

Há ainda o gargalo político nos Estados Unidos. Atualmente, com oito governadoras entre 50 governos estaduais, e 14 cadeiras dentre as cem do Senado ocupadas por mulheres. Devido a isso, ainda é muito difícil que haja um número limitado de candidatas experientes à Presidência.

"Ao se refletir sobre a questão, constata-se que há pouquíssimas mulheres nesse grupo", afirma Debbie Walsh, diretora do Centro de Política e Mulheres Norte-Americanas da Universidade Rutgers. "O grupo do qual as candidatas tendem a emergir neste país é o de senadoras e governadoras, e até recentemente contávamos com pouquíssimas mulheres ocupando esses cargos. Isto é algo que realmente nos atrapalha. O problema reside neste gargalo político, e para falar francamente, tal problema não tem melhorado".

Mas tais estatísticas, que há muito tempo consistem na base para o entendimento convencional dos percalços enfrentados pelas mulheres na política, podem não explicar integralmente a resistência. Os especialistas que coçam a cabeça tentando entender o fato de tantas mulheres serem eleitas em outros partidos --incluindo Bachelet, Ellen Johnson Sirleaf, na Libéria, e Angela Merkel, na Alemanha-- apontam para motivos sociológicos e culturais para explicar porque Hillary Clinton é uma das poucas mulheres a serem vistas com seriedade como candidata presidencial. "A sociedade norte-americana ainda não criou uma geração de mulheres que cresçam acreditando que um dia possam ser presidentes dos Estados Unidos".

Marie Wilson, presidenta do White House Project, e que passou anos antes do lançamento de "Commander in Chief" pedindo a Hollywood que fizesse um filme no qual houvesse uma mulher ocupando a Presidência, diz que a população ainda coloca as mulheres em um pedestal --e que só aceitaria uma mulher presidente que fosse tida pelos eleitores como impecável, bem mais do que um homem, segundo um padrão quase impossível.

"Francamente, a idéia cultural e social sobre as mulheres nos Estados Unidos não se modificou tão rapidamente quanto as realidades dos papéis femininos", afirma Wilson. "Quando uma mulher está em evidência, passamos a projetar sobre ela indagações do tipo: 'Ela é perfeita?'. Foi por isso que eu esperava que Geena Davis permanecesse na televisão por um período suficiente para cometer algum erro bem sério".

Mas atualmente é em Hollywood que se encontram algumas das mais fortes resistências a Hillary Clinton. Cada vez mais politizada, e preponderantemente liberal (e, por algum motivo, freqüentemente solicitada a expressar uma preferência política), a indústria do entretenimento não abraçou Hillary tão calorosamente quanto o fez com relação ao seu marido. Alguns temem que ela venha a ser o terceiro democrata derrotado em série: George Clooney recentemente a chamou de "a figura mais polarizadora da política norte-americana", acrescentando mais tarde que quis dizer que essa foi uma observação neutra, e não uma advertência.

Outras celebridades têm expressado temores mais explícitos. Sharon Stone disse em uma entrevista a uma revista que se vê muito nas colunas de fofocas a repetição da idéia de que Hillary, 58, ainda tem "poder sexual", e que não deveria concorrer à Presidência até que este poder se esgotasse. Kathleen Turner, entrevistada quando estava em Londres estrelando em uma peça teatral, expressou as suas dúvidas quanto à suposta candidatura de Hillary, afirmando: "Os norte-americanos não querem uma mulher célebre como presidente".

Martha Stewart, por sua vez, tentou recentemente equilibrar a balança, dizendo na rede televisiva CNBC: "A população entendeu mal Hillary e a sua estabilidade, que ajudou a manter o governo estável".

Talvez a crítica mais contundente a Hillary Clinton em Hollywood tenha vindo dos liberais que se opõem ao voto da senadora pela autorização da invasão do Iraque em 2003. A atriz Susan Sarandon, que chegou a ponto de apoiar o oponente democrata de Hillary contrário à guerra na campanha deste ano pelo Senado, Jonathan Tasini, acusou a senadora de carecer de princípios. Sarandon disse em uma entrevista à televisão britânica: "Eu preferiria alguém que tivesse realmente um arcabouço moral, fosse um homem ou uma mulher".

Mas, para os que apóiam Hillary Clinton, assim como para alguns estudantes de sexo e política, é aí que pode residir o problema. Segundo eles, entre os vários fatores, existe o fato de as mulheres tidas como duras, especialmente no que se refere às questões militares, terem dominado as eleições no mundo. Certamente isso foi verdade com relação a Thatcher, a "Dama de Ferro", que advertiu os seus aliados que não duvidassem da sua determinação, e Meir, que liderou Israel durante a Guerra do Yom Kippur, em 1973. E o triunfo de Bachelet, uma ex-ministra da Defesa do Chile, cujo pai foi brigadeiro da força aérea, foi interpretado como uma indicação de que as candidatas à presidência precisam de uma dose extra de força.

Mas os norte-americanos buscarão um líder duro na atual conjuntura presidencial? Será que uma mulher precisa realmente ser de linha dura -- como a personagem de Davis em "Commander in Chief"? Ou os eleitores, como afirma a proeminente comentarista Arianna Huffington, estarão buscando alguém que tenha uma posição bem mais branda?

"Não há dúvida de que a arte e a política se cruzam em vários pontos, e de que há muito tempo existem arquétipos artísticos cinematográficos orientando a política norte-americana", disse Huffington, uma crítica de Hillary Clinton, observando que os caubóis de Hollywood serviram de inspiração para as gestões Reagan e Bush. "A minha impressão com relação à população e ao Zeitgeist é de que as pessoas não querem mais saber do arquétipo de John Wayne; isto é algo que se exauriu".

"Não obstante, não acredito que Hillary venha a se beneficiar desse fenômeno", acrescenta ela.

Para Huffington, Hillary Clinton está cometendo um erro ao continuar apoiando a guerra no Iraque, a ponto acalmar aqueles eleitores que ficam nervosos ao se depararem com uma candidata à Presidência.

"Eu realmente não creio que o sexo do candidato seja uma questão", afirma Huffington. "Tudo depende do grau de autenticidade desse candidato. Creio que isso será crucial em 2008: penso que a autenticidade e a disposição de defender algo de forma não ambígua, especialmente se tratando de uma questão como a guerra, transcenderão qualquer assunto, como o sexo do candidato, nos Estados de eleitorado majoritariamente republicano".

Esta, pelo menos, é a visão mais idealista, mas até o momento trata-se apenas de um conceito, em Hollywood e além. Hillary Clinton, caso dispute o cargo, o fará em um país que está atrás em uma lista crescente de nações que elegem mulheres para o posto mais elevado Danilo Fonseca

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