UOL Notícias Internacional
 

11/06/2006

No local da morte de Zarqawi, tudo o que resta são perguntas

The New York Times
Dexter Filkins em Hibhib, Iraque
John F. Burns, em Bagdá
Nas ruínas da casa à sombra de palmeiras onde Abu Musab Al Zarqawi passou seus últimos momentos se encontram fragmentos de uma vida.

Havia um panfleto do Conselho dos Guerreiros Sagrados, a organização militante que o grupo de Zarqawi, a Al Qaeda na Mesopotâmia, alegava ter se filiado.

Uma página da edição em árabe da revista "Newsweek", de 2 de maio, tremulava na terra. Uma embalagem achatada de suco de abacaxi Crown estava jogada ali perto. Um tubo pela metade de pomada Deep Heat, oferecia "alívio rápido para contusões e dores musculares".

Os restos espalhados no sábado pelas ruínas em Hibhib eram os resquícios do ataque aéreo americano que matou Al Zarqawi e cinco outras pessoas na quarta-feira, quando um par de bombas de 450 quilos dizimou a casa de tijolos e deixou uma cratera de 12 metros de largura e profundidade.

"Um grande buraco, senhor", disse o sargento ajudante Gary Rimpley, 46 anos, de Penrose, Colorado, que chegou ao local cerca de 90 minutos após a queda das bombas.

Na manhã de sábado, os corpos já tinham sido levados, incluindo o de uma menina. Os escombros foram recolhidos para busca de vestígios úteis de inteligência. Mesmo a cratera tinha sido preenchida e nivelada.

Entre o que sobrou, permaneciam apenas perguntas.

A principal delas era como Al Zarqawi, o líder terrorista morto no ataque aéreo de quarta-feira, poderia ter sobrevivido mesmo alguns poucos minutos após o ataque, como oficiais americanos disseram, quando tudo ao redor dele foi destruído. Blocos de concreto, paredes, cerca, latas, palmeiras, uma máquina de lavar: tudo em Hibhib foi feito em pedaços.

Também parece enigmático, dada a destruição e a condição dos outros corpos, como a cabeça de Al Zarqawi e a parte superior do corpo --mostradas nas televisões de todo mundo-- permaneceram praticamente intactas.

Com rumores circulando na imprensa iraquiana de que Al Zarqawi estava fugindo da casa quando a primeira bomba caiu, as autoridades americanas disseram no sábado que dois patologistas militares chegaram ao Iraque para realizar a autópsia no corpo do líder terrorista e determinar a causa precisa de sua morte.

Os resultados da autópsia, e a localização precisa de Al Zarqawi no momento do ataque aéreo, serão revelados em breve, disse um oficial militar americano. As autoridades americanas disseram que Al Zarqawi não apresentava ferimentos de bala, tentando afastar a sugestão de que alguém tinha lhe desferido um golpe de misericórdia no local.

Em uma coletiva de imprensa no sábado, o porta-voz chefe do comando americano, o general de divisão William B. Caldwell, mudou um anúncio anterior feito por ele e confirmou que um dos mortos era uma menina de 5 ou 6 anos.

O general disse que três das vítimas eram homens, incluindo Al Zarqawi, e duas eram mulheres. O general disse que não dispunha de informação para confirmar ou negar as notícias na imprensa iraquiana que sugeriam que uma das mulheres era a esposa de Al Zarqawi e a menina era sua filha.

Indícios da presença delas, ou talvez da presença de ex-moradores, também ficaram espalhadas pelas ruínas: um vestido com padrão de rosas, um par de roupas íntimas femininas, uma camisola com estampa de leopardo, um calçado infantil.

Na primeira coletiva de imprensa sobre o ataque, na quinta-feira, Caldwell disse que havia sete vítimas, cinco homens e duas mulheres, mas ele mudou isto e disse que foram apenas seis mortos, entre eles três mulheres, mas negou as notícias de que uma criança tinha sido morta.

Outras mudanças no relato do bombardeio pelo comando americano incluíram a afirmação de que Al Zarqawi foi morto imediatamente pelas bombas. Na sexta-feira, Caldwell disse que o líder terrorista sobreviveu o suficiente para ser colocado em uma maca, mas morreu pouco depois devido aos ferimentos.

Caldwell disse que a mudança de detalhes é resultado da confusão típica que ocorre imediatamente após uma operação militar. "Não há intenção de ninguém de promover logro, manipulação ou subterfúgio", ele disse.

Ele notou que qualquer operação militar na qual "há uma alta possibilidade de pessoas não voltarem vivas, elas não param para escrever relatórios detalhados", e que os primeiros relatos que chegam ao quartel-general "nunca são 100% precisos".

Três dias depois do ataque, novos detalhes continuam surgindo.

Nos relatos dados na coletiva de imprensa de sábado, está cada vez mais claro que o ataque contra Al Zarqawi foi organizado às pressas, envolvendo decisões relâmpago nos últimos minutos antes das bombas serem lançadas.

Caldwell disse que o rastreamento "meticuloso" do conselheiro espiritual de Al Zarqawi, o xeque Abd Al Rahman, em um período de duas ou três semanas antes do bombardeio, significou que Al Rahman estava sob forte vigilância enquanto viajava para a casa em Hibhib, na tarde de quarta-feira. Mas ele disse que os americanos não tinham idéia da casa para onde ele estava indo até chegar nela, e sabiam que Al Zarqawi só estaria lá com certeza quando Al Rahman chegasse.

Àquela altura, disse o general, não havia tropas de solo da coalizão posicionadas perto da casa. De forma semelhante, ele disse, o caça F-16 da Força Aérea americana que lançou as duas bombas era uma das duas aeronaves que estavam em "missão de rotina" na área, sem nenhum planejamento de bombardeio, quando recebeu ordem para realizar o ataque imediatamente. Um dos jatos estava sendo reabastecido por um avião-tanque, de forma que a missão coube a "um único pássaro", ele disse.

Em Hibhib, o tenente-coronel Thomas Fisher, encarregado de um grupo de soldados americanos que patrulha toda a área, disse que recebeu ordens no fim da tarde de quarta-feira para levar seus homens o mais rapidamente possível ao local, que foi descrito como um "alvo sensível a tempo". Isto levou 90 minutos; um comando americano que chegou antes já tinha partido. "Nós não sabíamos que se tratava de Zarqawi", disse Fisher.

Caldwell se recusou a dizer como Al Rahman estava sendo seguido, ou como exatamente o comando americano sabia, assim que ele chegou à casa, que Al Zarqawi estava lá. Mas pelo o que ele disse, o que ficou fortemente implícito é de que os americanos se apoiaram em uma combinação de aeronave de vigilância por controle remoto e interceptações eletrônicas do telefone sendo usado por Al Rahman.

As imagens do ataque pela câmera de combate, divulgadas na quinta-feira, mostravam um grande ponto branco circulando a área do alvo em altitude relativamente baixa antes, durante e depois do bombardeio, características de um robô de reconhecimento.

Caldwell disse que a vigilância de Al Rahman no último mês mostrou que havia um padrão no que ele fazia quando se preparava para os encontros com Al Zarqawi. "Nós sabíamos que ele fazia certas coisas" quando se preparava para um encontro, disse o general, "e todas estas coisas aconteceram de fato quando ele chegou à casa e entrou".

O general não deu detalhes, mas relatos circulando nos últimos dias em Bagdá, citando autoridades iraquianas não mencionadas nominalmente, diziam que Al Rahman, aparentemente preocupado em usar celular devido à vigilância americana, usava um telefone móvel por satélite Thuraya quando telefonava para Al Zarqawi. Uma das características dos telefones por satélite é que o usuário geralmente precisa estar fora do carro ou prédio quando telefona, para que o aparelho não tenha nenhum obstáculo entre ele e o satélite.

O avião robô parece ter fornecido as coordenadas geográficas que foram cruciais para o bombardeio e possivelmente o raio laser que guiou a primeira bomba. Caldwell disse que a primeira bomba lançada pelo piloto do F-16 foi uma GBU-12 guiada por laser, e que foi guiada ao alvo por um raio laser direcionado à casa de forma independente.

A segunda bomba, que o general identificou como uma GBU-38, foi guiada ao alvo pelas coordenadas indicadas que o piloto teve que programar no seu sistema de armas, e os generais disseram que estas coordenadas vieram do "ativo aéreo", aparentemente a aeronave robô.

O general disse que o intervalo entre a primeira e segunda bomba foi de 96 segundos, o tempo que o piloto levou para inserir as coordenadas, e que a ordem ao piloto era para lançar ambas as bombas. Quando lhe foi perguntado sobre quem deu a ordem final para o ataque, e se foi dada pelo general George W. Casey Jr., o alto comandante americano no Iraque, Caldwell fez uma pausa. "Pouco antes da bomba ser lançada, Casey foi informado", ele disse.

A opção por um ataque aéreo em vez de um ataque por terra ocorreu em grande parte porque os oficiais americanos que assistiam às imagens do local estavam preocupados com a possibilidade de Al Zarqawi poder escapar. Da casa no bosque de palmeiras, disse Caldwell, Al Zarqawi "tinha 360 graus de opções" para fugir.

No final, ele disse, as forças armadas americanas obtiveram "uma história fantástica para contar" sobre a operação, uma que envolveu semanas de montagem do quebra-cabeça de inteligência, parte dele obtido com o rastreamento de alta tecnologia a Al Rahman, parte dele "a boa e velha inteligência humana", obtida junto a iraquianos e outras fontes, que ele não quis citar.

Ao ser questionado se era verdade que as autoridades de inteligência jordanianas tinham sido cruciais na identificação de Al Rahman como chave para encontrar Al Zarqawi, como alegaram algumas autoridades jordanianas, o general foi evasivo. "Nós não teríamos conseguido isto sem nossos parceiros da coalizão e o apoio de todos nossos parceiros na guerra global contra o terrorismo", ele disse.

Al Zarqawi dificilmente poderia ter escolhido um esconderijo mais isolado. A casa nos arredores de Hibhib ficava a cerca de 350 metros da estrada principal e só tinha acesso por uma estrada de terra. A casa ficava em um bosque de palmeiras, com a casa mais próxima a cerca de 250 metros de distância. Um canal de irrigação cortava a propriedade.

Soldados americanos e iraquianos que estavam protegendo o local no sábado disseram que não ficaram surpresos por Al Zarqawi ter escolhido a área. Soldados americanos e iraquianos raramente patrulham o local, em grande parte por ser remoto demais. Os moradores locais, ao menos os adultos, não sorriem nem acenam, disseram os soldados americanos.

"As pessoas daqui gostam de Zarqawi", disse Adil Abid Hussein, 33 anos, um soldado iraquiano que protegia a casa. A principal delas era como Al Zarqawi, o líder terrorista morto no ataque aéreo de quarta-feira, poderia ter sobrevivido mesmo alguns poucos minutos após o ataque, como oficiais americanos disseram, quando tudo ao redor dele foi destruído George El Khouri Andolfato

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