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12/06/2006

Apaixonada e em tratamento

The New York Times
Por Rachel Yoder
Para descrever o estilo confessional das reuniões de 12 passos dos alcoólatras anônimos, foi isso que o vício no amor fez com minha vida: deixei a faculdade, deixei meu emprego, parei de falar com amigos e familiares. Não podia nem culpar a bebida por meus desmaios, vômitos e por urinar na cama. Não havia pílulas para explicar as 15 horas de sono por dia. Não havia agulhas como desculpa por meu emagrecimento alarmante.

Cheguei ao fundo do poço em uma noite insone no chão do quarto, contemplando o suicídio. E depois gastei quatro meses --e uma boa parte do dinheiro da minha família-- em tratamento pelo vício no amor.

Eu sei o que você está pensando: 'Vício em amor? Dá um tempo!' Acredite, eu também pensava assim. Ainda hoje, anos depois, tenho sentimentos conflitantes com o termo. Mas os fatos da minha experiência --um relacionamento que consumiu totalmente minha vida, a profundidade na qual mergulhei antes de buscar ajuda-- são indiscutíveis.

No início nossa "excitação com o novo romance" foi diferente de tudo que eu tinha passado. Matt era meu cavaleiro em uma Mercedes brilhante, corajosamente empunhando seu cartão de crédito enquanto enfrentávamos as lojas do Norte da Virgínia. Dançamos descalços na grama em um show de Harry Connick Jr., e ele me surpreendeu com presentes da Tiffany perspicazmente escondidos no porta-luvas. Em Atlantic City, ficamos na suíte de lua-de-mel no Hilton e, na Flórida, ficamos com a vista para a praia do Ritz. Dia após dia deitamos nessa cama com "Fields of Gold", de Sting, tocando ao fundo.

Mas depois de apenas semanas de relacionamento, nossa trilha idílica de campos dourados, de cabelos longos e promessas de amor foi substituída por "Every Breath You Take", a um volume ensurdecedor em repetição eterna.

Tínhamos ultrapassado algum limite entre a paixão e a obsessão e simplesmente não agüentávamos ficar longe um do outro. Amigos, familiares, a faculdade e meu emprego tornaram-se ameaças, então os deixei. Logo, nosso túnel do amor tornou-se tão escuro e isolador que eu não mais concebia uma vida fora dele.

Nosso relacionamento, apesar dos danos que provocava, era minha vida, e se terminasse, não via como eu poderia continuar existindo. As coisas chegaram a um ponto de crise numa noite quando, depois de Matt interrogar-me por horas sobre uma velha foto minha nos braços de um amigo que ele encontrara, fiquei com medo que ele fosse me deixar. Passei a noite alternando entre fantasias com facas de cozinha e pensamentos de que algo não estava certo, que o amor não deveria me fazer querer morrer.

Logo depois disso, Matt, para seu crédito, decidiu que precisava de ajuda profissional e anunciou que ia entrar em um centro de tratamento para viciados do outro lado do país, no Arizona. Como já conhecia esse mundo de tratamentos, sabia que o que estava acontecendo entre nós era medonho. Ele até me deu um livro sobre o vício no amor para me informar.

Diante da perspectiva de ficar abandonada em seu apartamento durante aquele março cinzento, sem ele ou mais ninguém, decidi que também ia procurar ajuda profissional. Entrei na Internet e encontrei um centro que era, nada surpreendentemente, no Arizona. Eu queria provar a Matt que eu era uma boa namorada, merecedora de seu amor. A maior evidência disso, pensei, seria fazer o tratamento.

Mas buscar ajuda para tentar fazer nossa relação funcionar era como um alcoólatra se internar para poder aprender a beber. Eu não conseguia ver que a solução não era aprender a viver com Matt e sim aprender a viver sem ele. Cheguei ao centro carregando minha enorme mala, exausta e 8 kg abaixo do peso, com olheiras profundas. Quatro mulheres, minhas colegas de apartamento, estavam vendo televisão na sala; uma delas olhou para mim e perguntou: "Então, por que você está aqui?"
"Hum, estou deprimida", eu disse. "Sabe, coisas de família. Talvez álcool, vício em amor?" disse timidamente. "E vocês?"

"Álcool", disse ela. "Drogas. Questões de abuso. Distúrbios alimentares. Co-dependência. Depressão. Ansiedade. Estresse pós-traumático. Distúrbio obsessivo compulsivo. Tudo."

E ela não era nada comparada com minha colega de quarto, cuja mãe tinha sido assassinada e o pai tinha morrido quando a menina tinha 18 anos e que, antes dos 20, vivia de streap-tease e era viciada em metanfetamina. E ali estava eu, no mesmo lugar que essas pessoas e só o que podia dizer era: "Eu realmente sinto falta do meu namorado".

Verdade, eu não tinha furos nos braços ou o fígado inchado. Mas isso não significava que eu não estava no lugar certo.

Além da terapia de grupo, tínhamos que participar de um encontro diário de 12 passos. Eu tentei Alcoólatras Anônimos e Narcóticos Anônimos, mas não conseguia me identificar com as pessoas que falavam de bebida e drogas quando tudo que eu queria era falar de Matt, Matt, Matt. Então fiquei nos encontros dos Viciados em Sexo e Amor Anônimos.

Esses encontros eram mistos. Sei, também não fazia sentido para mim. Se eu estivesse em outro estado mental, sem dúvida teria trilhado o caminho de muitas das minhas companheiras, jogando olhares para os homens do outro lado da sala e eventualmente começando um romance clandestino, que por fim me expulsaria do tratamento. Em vez disso, sentei e ouvi.

Ouvi diversas histórias absurdas de outros viciados em romances sarcásticos e de tendências suicidas. Loucos, eu pensava, até ver como suas histórias eram parecidas com a minha.

Como Matt de fato era minha droga, fui proibida de falar com ele durante meu primeiro mês de tratamento. Então você pode imaginar meu deleite psicótico quando voltei para meu apartamento em uma tarde no final daquele mês e encontrei sua voz na secretária eletrônica: "Sou eu, seu namorado, Matt."

Essas palavras poderiam ser heroína pura. Eu não ficaria surpresa se minhas pupilas tivessem dilatado. Repeti a mensagem, uma, duas, 10 vezes, em transe eufórico.

Matt estava me convidando ao seu centro de tratamento para a semana dedicada à família. Seu amor eterno por mim foi confirmado quando descobri que eu tinha conseguido uma semana sozinha com ele, sem outros familiares, só nós. Imaginei nossa reunião em lágrimas, a admissão dos erros de coração aberto, declarações não acusatórias. Mas em uma tarde de abril, no meio do deserto do Arizona, com os dois terapeutas presentes, Matt finalmente me deixou.

Eu nunca tinha pensado que de fato poderíamos romper para sempre. Nosso tratamento, pensava, era para recuperar nosso romance. Entrei em crise histérica e olhei para Matt, desesperada por algum sinal de que isso era um grande engano. Ele meramente olhou para suas mãos, depois para mim, sem dizer nada. "Essas são as dolorosas conseqüências de suas ações", seu terapeuta disse para mim duramente. "Você deveria estar agradecida por Matt ajudar você a chegar aqui."

Agradecida? Não. Eu gritei pelos corredores batendo portas e cuspindo profanações, depois desmoronei em surtos de desespero malevolente até ser levada para espreguiçadeiras espalhadas pelo centro. Insultei a todos que me imploraram para me "acalmar".

Depois da partida de Matt, senti-me abandonada no deserto sem nada além de um monte de cactos de braços levantados como se dissessem: "O que houve?"

De volta ao motel, vomitei e depois agüentei uma noite de suores gelados e interminável delírio na luz azul da televisão noturna. Acordei com uma terrível dor de cabeça e logo desenvolvi um tique embaraçoso.

Como eu não tinha mais a aprovação de Matt ou nossa reunião como motivo para minha recuperação, fui forçada a pensar em melhorar sozinha. E comecei a fazer todas aquelas coisas charmosamente neuróticas que se vê em filmes sobre reabilitação: comecei a praticar kickboxing, bordei um tapete do tamanho de Rhode Island e comi muitos, muitos biscoitos. Via "Blind Date" religiosamente, arrumei um emprego de garçonete, encontrei um paquera e fiz planos para acabar a faculdade.

Talvez o mais importante tenha sido que me livrei do último resíduo da minha droga: a mensagem de Matt. Ouvi-a sem parar --"Sou eu, seu namorado, Matt, seu namorado, Matt, seu namorado"-- até que, um dia, finalmente apaguei-a sem cerimônia.

Seis anos e três relacionamentos depois, ainda estou digerindo a experiência. Por um longo tempo me ressenti de Matt, culpei-o por arruinar minha vida e considerei-me vítima.

Mas agora me sinto verdadeiramente agradecida por ele ter terminado nosso relacionamento quando eu não poderia; por fazer as escolhas difíceis que ele sabia que, no longo prazo, iam ajudar a ele e a mim. Um ano atrás, em uma obra estranha do destino, mudei de volta para o deserto do Arizona para fazer pós-graduação e novamente me vi no meio dos cactos perplexos, desmaiando de solidão no calor de 46 graus. Aqueles primeiros meses foram os mais duros desde o tratamento, e me perguntei como, depois de seis anos, eu estava de volta no mesmo local desolado e com a mesma sensação.

Com a mudança, terminei um relacionamento. Consciente da minha tendência de anestesiar minha dor no coração com um nova paixão, decidi evitar namorados como nos meus tempos de tratamento. Mas, em um momento de fraqueza, preenchi e enviei um formulário para um site de namoro on-line e logo minha caixa de entrada estava cheia de mensagens de homens, cada um a um clique da minha compulsão. Mas a excitação não era tão satisfatória quando antes, ou talvez eu tivesse muita consciência das conseqüências potenciais.

Então, apaguei o perfil e voltei ao meu plano de abstinência por tempo indefinido. Não quero que meu próximo relacionamento seja um ato de vício. Não quero encontrar um par por uma necessidade compulsiva. Quero fazer direito. Então, por enquanto, isso significa não fazer nada. "Nosso amor tornou-se tão escuro e isolador que eu não mais concebia uma vida fora dele" Deborah Weinberg

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