UOL Notícias Internacional
 

13/06/2006

Enquanto a polícia labuta em Nova Orleans, as ansiedades fermentam

The New York Times
Christopher Drew

em Nova Orleans
No departamento de polícia aqui, a equipe da Swat é chamada de "A Última Opção". Antes do furacão Katrina, era dedicada aos piores crimes da cidade. Agora, com a volta dos moradores, novamente está derrubando portas em esconderijos de drogas e envolvendo-se em tiroteios com criminosos violentos.

A equipe, porém, está com seu poder de fogo perigosamente reduzido. A enchente arruinou 300 de suas armas, escudos blindados e a maior parte de sua munição. Nada disso foi reposto, nove meses depois do furacão. O time de 40 homens teve que pegar material à prova de balas emprestado de forças do subúrbio, e o departamento de polícia está pedindo a empresas que contribuam mais.

"Vou dizer uma coisa: estamos sofrendo", disse o comandante da equipe, capitão Jeffrey Winn.

As dificuldades da unidade Swat refletem como muitas operações da polícia estão longe do normal, nessa fase em que os moradores estão voltando à cidade e outra temporada de furacões se inicia. Como o resto da cidade, a força policial ainda está lutando para se recuperar da calamidade do furacão Katrina, que derrubou sua sede, venceu sua capacidade de manter controle e provocou deserções que mancharam a reputação da força.

Agora, enquanto o departamento tenta voltar à ativa, cortes no orçamento -e um recente pico em assassinatos relacionados a drogas na cidade- estão acrescentando temores de que anos de reforma e modernização podem ter sido perdidos e que Nova Orleans possa voltar a ser uma das capitais do crime do país.

Há também preocupação com o retorno da má reputação do próprio departamento de polícia. Para alguns habitantes, o futuro incerto do departamento e seus limites trouxeram de volta ecos do passado, quando a polícia era considerada a menos competente e a mais racista e brutal do país.

"No estado emocional e mental que estão, temos mais reclamações dos cidadãos sobre como os policiais estão tratando as pessoas do que tivemos em um longo tempo", disse Oliver M. Thomas Jr., presidente do Conselho da Cidade. "Nos últimos dois anos, eles estavam melhorando, se tornando mais profissionais. Mas tenho ouvido muitas reclamações de violência verbal."

O novo superintendente da polícia, Warren J. Riley, insiste que não vai deixar os traficantes de drogas e "punks da sarjeta" dominarem novamente. Riley diz que muitos policiais não receberam o crédito merecido por resistirem à tempestade e está determinado a restaurar a disciplina e uma noção de profissionalismo entre os outros.

Ele também formou uma unidade de inteligência para caçar os suspeitos de crimes mais violentos e forjou fortes laços com autoridades federais para pegá-los. Mas em outras áreas, os problemas abundam.

Mais de 200 policiais deixaram seus postos durante a tempestade e foram demitidos ou suspensos. Muitos dos mais velhos aposentaram-se e alguns dos mais jovens deixaram o emprego e saíram da cidade. Como resultado, o tamanho da força policial caiu de quase 1.700, antes do furacão, para cerca de 1.400 nas ruas hoje. O recrutamento de substitutos é difícil, em parte porque os candidatos não encontram moradias acessíveis, disse Riley.

Devido à deterioração das finanças da cidade, disse ele, o orçamento do departamento foi cortado em 19%, de US$ 124 milhões (em torno de R$ 270
milhões) em 2005 para US$ 100 milhões neste ano (aproximadamente R$ 220 milhões). Ele recebeu ajuda federal ou estadual para substituir muitos dos 300 carros perdidos na enchente, comprar novos uniformes e restaurar o sistema de comunicações que desmoronou durante a tempestade. No entanto, está esperando assistência federal para substituir outros equipamentos, como as armas da Swat.

Com a sede da polícia ainda fechada, Riley e seus comandantes estão trabalhando em trailers. Enquanto especialistas forenses restauram muitos dos itens do depósito de evidências da polícia alagado, novas evidências recém coletadas estão sendo guardadas em caminhões alugados, estacionados no que antes era uma estação de inspeção de veículos.

A tempestade também teve um custo emocional. Mais de 80% dos policiais perderam suas casas, e alguns tiveram que se juntar com outros ou se mudar para subúrbios distantes para encontrar casas acessíveis a seus salários entre US$ 35.000 e US$ 50.000 (entre R$ 77.000 e R$ 125.000). Muitos dos que foram heróis na tempestade, retirando vítimas das águas, também se ressentem que suas ações foram encobertas pelos que abandonaram seus postos.

E com muitos residentes estressados, a polícia diz que está sofrendo maior reação de pessoas detidas até por violações menores.

"Desde a tempestade, vemos muita raiva entre muitas pessoas, e parece que a polícia sempre recebe essa raiva", disse o capital Kevin B. Anderson, comandante da polícia no bairro francês.

Mas no final, quase todos compreendem que o que define o departamento de polícia é como ele lida com o crime, particularmente em termos do índice de assassinatos. Antes da tempestade, a cidade tinha entre 250 e 300 assassinatos por ano, o que a colocava perto do primeiro lugar no país em índice per capita. Até agora, neste ano, houve 45 assassinatos -a maior parte nos dois últimos meses- comparados com 114 nesta altura em 2005, quando a população da cidade era ao menos o dobro do que é hoje.

Riley, que foi promovido quando seu predecessor mais exuberante, Edwin P. Compass III, renunciou depois de críticas com a resposta da força policial ao furacão -apareceu em programas de rádio para descrever seus planos para combater o crime. Eles incluem batidas repetidas em bairros pobres, para onde os traficantes que moravam em diferentes partes da cidade estão convergindo e se matando pelo território, segundo ele.

O superintendente também instou os moradores a se unirem para exigir um endurecimento do sistema de justiça criminal da cidade. Os julgamentos com júri voltaram a acontecer apenas recentemente. Os traficantes que fugiram para Houston estão voltando para casa porque é muito mais fácil evitar a prisão aqui, disse Riley, pela "porta giratória" da justiça de Nova Orleans.

O sistema há muito é criticado por negociar com os réus e emitir fianças flexíveis. Desde o furacão, a defensoria pública ficou tão sem dinheiro e pessoal que um juiz, Arthur L. Hunter Jr., recentemente liberou algumas pessoas em custódia de volta às ruas.

Riley disse, por exemplo, que a polícia trocou tiros no mês passado com um homem que estava vagando em um bairro deserto com uma tornozeleira da prisão. Ele deveria estar preso em casa enquanto esperava julgamento por roubo, mas as autoridades aparentemente não reagiram ao sistema de monitoramento de tornozeleira.

"Obviamente, os fatores de risco de assassinatos estão voltando, e isso cria desafios incríveis", disse Peter Scharf, criminologista da Universidade de Nova Orleans. Se a ansiedade crescente com os índices de crimes tornar-se ampla, poderá impedir que muitas pessoas voltem a morar na cidade ou turistas a visitar.

Anderson, comandante do bairro francês, disse que houve apenas dois assassinatos neste ano, além de muitos incidentes com facas entre operários de construção bebendo em Bourbon Street. Ele também disse que a equipe da Swat tinha sido chamada para fazer patrulhas à paisana depois de três episódios em que grupos de jovens tinham interpelado pessoas.

James F. Scott, vice-superintendente de polícia, disse que o escritório de inteligência do departamento vinha buscando 112 traficantes e suspeitos de assassinatos e 30 tinham sido capturados. Scott disse que alguns traficantes de Nova Orleans que fugiram para Houston foram mortos em guerras por território, enquanto outros estão viajando entre as duas cidades.

Ele acrescentou que promotores federais agora estavam levando à justiça casos menores de venda de drogas e posse de armas para ajudar a tirar os criminosos das ruas. "Desde a tempestade, essa é uma das coisas mais positivas que aconteceram ao departamento de polícia", disse Scott.

O departamento também trabalhou em planos com a Guarda Nacional de Louisiana para evitar repetir a resposta desastrosa à tempestade no ano passado. Riley disse que 3.000 soldados podem estar na cidade antes de uma tempestade, com caminhões próprios para andar em locais alagados e comunicações via satélite para ajudar cada distrito policia. Também haverá muito mais barcos à mão para operações de busca e resgate.

"O Katrina nos deu uma oportunidade de voltar nosso foco ao sistema educacional, ao sistema financeiro e a nossos esforços de fiscalização da lei, e mudar a cultura desta cidade."

"Se formos capazes de mudá-la", disse ele, "isso nos dará uma esperança." Deborah Weinberg

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