UOL Notícias Internacional
 

13/06/2006

Política violenta, de 'máfia', arruína o sul xiita

The New York Times
Sabrina Tavernise e Qais Mizher

em Basra, Iraque
A política, antes vista como uma solução para os problemas de uma sociedade arruinada por anos de governo brutal de um único partido, está paralisando o coração do sul do Iraque.

Esta cidade de passeios às margens do rio foi uma das mais receptivas à invasão americana. Três anos depois, ela está sendo despedaçada por partidos políticos xiitas que querem controlar a região e seu maior prêmio, o petróleo.

Mas no Iraque atual, a política e poder vêm das armas das milícias e a negociação tem sido um processo sangrento.

"Nós estamos em um mingau político, foi isto o que mudou", disse o
brigadeiro James Everard, comandante das forças britânicas em Basra. "É uma política do tipo máfia que há aqui."

Os boletins policiais dos últimos cinco meses parecem crônicas de guerra: oito funcionários da companhia de petróleo foram assassinados; vinte depósitos de foguetes russos foram descobertos, incluindo uma pilha na traseira de uma ambulância; um tanque de petróleo roubado foi encontrado em uma falsa mesquita; trocas de tiros entre uma milícia de um político e a polícia e entre policiais.

Após dois anos de relativa calma, Basra apresenta um aumento no número de homicídios (os 85 em maio quase triplicam o número de janeiro), uma
indústria petrolífera em pedaços e uma população assustada.

"Eu não posso falar com você", disse Sajid Saad Hassan, um professor da
faculdade de agricultura da Universidade de Basra. "Eu não me filiei a um partido e nenhuma milícia está me protegendo."

A história do degradação de Basra lembra o curso da própria guerra. As
pessoas daqui, a maioria xiitas que sofreram a opressão de Saddam Hussein, apoiaram a invasão. Mas, nos três anos seguintes, Bagdá empregou seus recursos no combate aos rebeldes nas regiões central e oeste do Iraque, deixando o tranqüilo sul xiita por conta própria.

Mas as regras desapareceram juntamente com o fim do governo de Saddam,
deixando uma paisagem falida de instituições de governo vazias.

"Grande parte do Estado ruiu após a queda de Saddam", disse um funcionário americano. Uma sopa primordial de partidos políticos, suas milícias e tribos preencheram o vácuo. Eles formaram patrulhas de moral na universidade, passaram a comandar unidades inteiras da frágil força policial e ocuparam as posições de poder na empresa que controla a vasta rede de processamento de petróleo e transporte.

Ainda restando meses para as eleições provinciais, uma disputa sangrenta de poder está sendo travada de dentro das instituições de Basra e será particularmente difícil para o primeiro-ministro do Iraque, Nuri Kamal Al Maliki, detê-la. Três dias depois dele ter prometido agir com "punho de ferro" e imposto um estado de emergência, uma bomba matou 27 pessoas em um mercado daqui.

No mundo obscuro da política xiita, a disputa é pelo poder. Um partido, o Fadhila, está atualmente no topo. Entre seus membros estão o governador e o presidente do Conselho Provincial. O Fadhila tem laços estreitos com Muqtada Al Sadr, o clérigo antiamericano cuja milícia está entre as mais poderosas daqui.

Aqeel Talib, um alto membro do partido, concorda que o desacordo em torno do federalismo é uma das questões que estão dividindo os partidos. O partido e seus dois principais concorrentes -o Conselho Supremo para a Revolução Islâmica no Iraque e o Partido Dawa- têm visões diferentes para a região xiita no sul.

No modelo do Fadhila, a província de Basra, a única que ele controla, teria autonomia. "Nós do Fadhila queremos tornar nossa província nossa própria região", disse Talib. "Nós temos 2 milhões de pessoas, um aeroporto, um porto e petróleo -tudo o que precisamos para ser um Estado."

Qadim Al Muqdadi, um professor da faculdade de mídia da Universidade de
Bagdá, explicou: "Cada partido político acredita que é melhor do que os
demais para dirigir o país. Eles não recorrem ao poder da idéia; eles
recorrem ao poder das armas e da tribo".

No coração de grande parte da disputa está o petróleo. Os campos nesta
província são os mais ricos no Iraque e o óleo cru que extraem corresponde a toda a atual exportação do Iraque, que por sua vez paga os salários dos funcionários públicos. As autoridades em Bagdá dizem que os partidos e suas milícias têm um grande papel em um roubo desenfreado.

"Se você não entende o que está acontecendo lá, basta seguir o dólar", disse Mowaffak Al Rubaie, o conselheiro de segurança nacional do Iraque. "Há uma diferença de 6 mil barris por dia entre o nível de produção para exportação e o que realmente exportamos. Isto vai para os bolsos destes senhores da guerra, milícias, crime organizado, partidos políticos."

O Fadhila, o partido dominante, controla a guarda que protege a vasta rede administrada pela estatal Southern Oil Company.

O partido diz que ajuda a manter o fluxo do petróleo em tempos difíceis; seus adversários políticos dizem que está posicionado de forma perfeita para lucrar. Um alto membro do partido em Bagdá nega qualquer lucro.

Os guardas têm armas, disse Hassan Al Rashid, o ex-governador e um oponente do Fadhila, e "estas armas não estão em mãos honestas".

Poucos em Basra aceitam falar abertamente sobre petróleo e a indústria está impenetrável para as autoridades ocidentais em Basra, que dizem que não conseguem nem mesmo identificar os principais responsáveis.

"Não se trata de apenas um partido, de forma que todos ficam em silêncio", disse um membro do conselho provincial, que pediu por anonimato por temer por sua segurança. "Se você falar a meu respeito, eu falo a seu respeito."

Seja qual for o caso, a violência tomou a indústria. De 5 a 9 de maio, dois funcionários da companhia de petróleo e um funcionário portuário foram mortos, segundo boletins da polícia. No início de março, uma bomba explodiu no escritório de Aqil Abdel Samad, um alto diretor da companhia de petróleo, o ferindo.

"A violência que estamos vendo nas ruas é uma grande disputa territorial", disse um funcionário ocidental, que pediu para não ser identificado por não estar autorizado a falar aos repórteres. "A polícia de Basra tem sido incapaz de separar as partes beligerantes ou impedir o suborno porque a força, composta de membros filiados aos partidos, faz parte do problema."

O atual caos na cidade pode ser rastreado em parte à formação da nova força policial. Os oficiais militares britânicos reconhecem que as análises de antecedentes que supervisionaram foram ruins ou inexistentes, e que os grandes partidos políticos aproveitaram a oportunidade para inserir seu pessoal na força. Um chefe de polícia fraco se deixou pressionar para a aceitação de pessoas leais aos partidos, disse o atual chefe.

"Os partidos o envolveram", disse o atual chefe, o general de divisão Hassan Swadi Al Saad. "Todos chegavam com nomes e ele os contratava."

Uma conseqüência é uma força com 37 mil membros, 50% a mais do que o
autorizado, espalhados pelas quatro províncias patrulhadas pelos britânicos no sudeste do Iraque, segundo o coronel Sundey Sunderland, que está encarregado do planejamento de logística para as forças armadas britânicas. (Além disso, o Serviço de Proteção a Instalações, que protege escolas, poços de petróleo e mesquitas e possui alta infiltração das milícias, chega a 25 mil homens.)

Há choques entre unidades policiais corruptas, particularmente aquelas que lidam com grandes crimes, corregedoria e investigações criminais.

Algumas destas forças capturaram e mantiveram detidos dois oficiais
britânicos no ano passado, o que levou as forças armadas britânicas a
começarem a purgá-las. "Eram assassinos à solta matando pessoas", disse Laszlo Szomoru, um alto consultor de polícia britânico em Basra.

Os boletins policiais são ilustrativos. Em 22 de maio, os policiais da
unidade de inteligência, uma das divisões mais políticas, realizaram uma batida em um prédio da Southern Oil Company, e em 25 de abril dois policiais da força de proteção ao petróleo foram acusados de invadir uma concessionária, matar um guarda de lá e roubar dois carros.

A polícia aparentemente também não tem feito nada diante dos assassinatos sectários de árabes sunitas, cuja porção da população encolheu rapidamente no último ano. Alguns sunitas suspeitam que a polícia é responsável pela maioria das mortes.

O poder dos partidos dentro da polícia complica a manutenção da lei pelos britânicos. Em janeiro, por exemplo, eles identificaram vários suspeitos de comandar esquadrões da morte, desviar petróleo e atirar contra soldados britânicos. Os soldados os prenderam e, nos três meses seguintes, o governo local se recusou a falar com os britânicos.

"Você prende alguém e, no dia seguinte, você está ao telefone com o
governador, com o chefe de polícia", disse o brigadeiro Everard. "Nós
dizemos: 'Nós sabemos que ele é seu, mas nós o fizemos por causa disso'."

A província também mergulhou em paralisia política quando o governador,
Muhammad Al Waeli, tentou sem sucesso demitir Saad, o chefe de polícia. O conselho provincial tentou sem sucesso remover Waeli, mas não conseguiu reunir a maioria de dois terços que precisava. A única coisa em que conseguiram concordar, ao que parece, foi em recusar todo contato com os britânicos.

Bagdá também está impotente para remover as autoridades provinciais, que são protegidas do governo central segundo a lei iraquiana.

Apesar do ceticismo dos militares britânicos, Saad disse que muitos dos
partidos tiram sua força do Irã. Os próprios partidos acusam uns aos outros de serem fantoches iranianos.

"Diariamente eu tenho relatórios de 190 peregrinos oriundos do Irã", ele disse. "São peregrinos ou agentes de inteligência?"

As travessias ilegais parecem ser comuns. Em 1º de fevereiro, a polícia de fronteira de Basra prendeu 23 iranianos que disseram ser peregrinos que cruzaram ilegalmente em Chlat, segundo um boletim policial. Cinco dias depois, ela prendeu um homem identificado como Hadi Dalqi Bukhtyar, um coronel do Corpo da Guarda Revolucionária Iraniana.

Há uma abundância de armas que não eram vistas desde a guerra Irã-Iraque, nos anos 80, e policiais locais acreditam que muitas estão vindo do Irã. A polícia encontrou 106 foguetes Katyusha de fabricação russa e 35 mísseis antitanque, também russos, em um período de cinco meses a partir de janeiro.

"A maioria das pessoas aqui se pergunta: 'Isto é Basra?'", disse
impotentemente Hassan, o professor universitário. George El Khouri Andolfato

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h16

    -0,05
    3,173
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h23

    1,12
    65.403,25
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host