UOL Notícias Internacional
 

14/06/2006

Comentário: Falhas na defesa dos gastadores de gasolina

The New York Times
Thomas L. Friedman
No dia 31 de maio, escrevi uma coluna acusando a General Motors de agir irresponsavelmente quando ofereceu gasolina ilimitada a US$ 1,99 por galão (cerca de R$ 1,15 por litro) por um ano a qualquer um que comprasse seus sedãs de tamanho médio, grandes utilitários esportivos ou os bebedores de gasolina Hummers, na Califórnia ou na Flórida.

Em uma época de guerra no oriente Médio, com um inimigo que é indiretamente financiado por nossas compras de energia, parece-me que todo americano e toda empresa americana tem a obrigação de reduzir o consumo de petróleo. Ninguém deve produzir um enorme Hummer, ninguém deve conduzir um e ninguém -certamente não a GM- deve subsidiar seu uso.

Depois de publicada a coluna, o vice-presidente de comunicações da GM, Steven J. Harris, e seus colegas criticaram meu argumento em declaração formal e em um blog da empresa. Esta é uma questão importante, então gostaria de responder.

Para começar, eu preferiria ver a GM prosperando e gerando empregos -e não se vendendo, parte por parte. Mas serei um duro crítico enquanto a GM estiver dando gasolina a US$ 1,99 para quem comprar seus carros que mais consomem gasolina.

Atualmente, a China está impondo padrões de eficiência no consumo de combustível maiores que os EUA. Assim, perdoe-me se eu não quiser unir-me a muitos congressistas e beber Kool-Aid da GM e não exigir que se torne o fabricante de automóveis mais econômicos do mundo. Se mais pessoas em Washington insistissem que a GM se concentrasse em montar carros que pudessem competir em um mundo de gasolina a US$ 3,99 por galão (cerca de R$ 2,30 por litro), em vez de criar um universo artificial de gasolina a US$ 1,99, a GM não estaria hoje se preocupando com a falência.

A GM diz que os carros escolhidos para receberem a gasolina a US$ 1,99 foram selecionados por sua "economia de combustível extraordinária e grande apelo ao consumidor". Também diz que a GM produz mais carros econômicos -que fazem 12,6 km/l na estrada- do que qualquer outra empresa.

Fato: a GM também vende mais carros de 3,8 a 4,6 km/l -o Hummer- do que qualquer outra empresa. E apesar de a GM alegar que o programa de gasolina a US$ 1,99 é uma oportunidade dos consumidores comprarem seus carros mais eficientes, não incluiu no programa seu modelo mais vendido, o econômico Chevy Aveo (14,7 km/l na estrada), mas incluiu sete caminhonetes beberronas.

A GM ainda não tem um sedã híbrido no mercado (deve lançar um neste
verão) -nove anos depois da Toyota introduzir o híbrido Prius, que faz 18,9 km/l, que a GM ridicularizou na época.

Stephanie Salter, colunista do Terre Huate Tribune-Star, fez uma brincadeira sobre a promoção de gasolina a US$ 1,99 da GM, imaginando outras promoções de empresas pouco saudáveis: "Hoje a R.J. Reynolds Corp anunciou um novo programa de desconto 'fume mais e pague menos' para a maior parte de seus cigarros. Cupons datados serão incluídos em cada maço. Os consumidores que colecionarem 10 cupons da mesma marca em cinco dias ganharão um maço de US$ 1. As únicas marcas não cobertas pelo programa são as de baixo alcatrão e nicotina."

Depois, Harris da GM perguntou: "Em que ponto oferecer um cartão de gasolina de um valor de até US$ 1.000 é diferente ou mais sinistro do que os descontos de US$ 2.000 que a Toyota está dando atualmente em todo o país para sua grande SUV Sequóia?"

Fato: ao ler essa pergunta talvez você pense que a GM estava dando gasolina barata no lugar de descontos para as SUVs. A verdade: nós ligamos para os revendedores GM na Califórnia que disseram que, sob o novo programa, estavam autorizados a oferecer descontos de até US$ 5.000 (em torno de R$ 11.000) para os modelos de SUV Suburban 2006 e Tahoe -que são como a Sequóia- além do programa de gasolina ilimitada a US$ 1,99 durante um ano. Acho que Harris esqueceu-se disso.

Sim, a Toyota produz caminhonetes e SUVs, assim como a GM. Não sou contra nenhum dos dois. Algumas pessoas precisam desses veículos, outras gostam deles. Mas não acho que devemos subsidiar a gasolina para as pessoas que não precisam desses veículos comprarem automóveis pouco econômicos. A GM diz que suas SUVs grandes fazem mais quilômetros por litro que as da Toyota. Só o que sei são os índices dos Relatórios do Consumidor, que classificam as SUVs por economia de combustível, segurança e desempenho. Toyota e Honda são as melhores escolhas em toda a categoria.

Ah, o Harris diz que oferece nove veículos que podem usar misturas de gasolina com álcool e que a GM produziu 1,9 milhão desses carros e caminhonetes. A Toyota não fabrica nenhum. A verdade: as Três Grandes fabricantes americanas começaram a fabricar carros de combustível flexível no meio da década de 90, depois que conseguiram um vergonhoso furo federal.

Como explicou o Des Moines Register, em um artigo de 26 de maio: "O furo funciona assim: um veículo bicombustível -que pode rodar com gasolina ou 85% álcool E85- entra em uma categoria de quilometragem por litro muito maior do que realmente faz. Assim, o consumo total dos carros e caminhonetes produzidos pela Ford ou General Motors por ano fica dentro dos limites estabelecidos pelo governo."

Ao concordar em montar veículos de motor de combustível flexível com dados de consumo enganosos, Detroit pode produzir muito mais veículos pesados e desperdiçadores, explicou o jornal, "sem ter que pagar multas por exceder aos padrões de consumo federais". Por exemplo, a Yukon 1500 da GMC de 2006 de fato faz 6,3 km/l na cidade e 8,4 km/l na estrada. Mas sob este furo ela é classificada como se fizesse 14 km/l e cumpre os padrões de economia de combustível da frota. "O grupo Union of Concerned Scientists calcula que o furo tenha aumentado o consumo de gasolina nos EUA em 80.000 barris por dia, só em 2005", disse o jornal.

Se a GM, Ford e Chrysler realmente se preocupam em economizar gasolina e com o meio ambiente, por que exploram esse furo? E falando nisso, apesar de a GM ter produzido 1,9 milhão de carros flex-fuel, ela e outros fabricantes fizeram pouco para informar aos consumidores que seus carros podiam rodar com álcool -porque seu verdadeiro interesse era o furo na classificação de consumo para produzir mais carros grandes. A maior parte das pessoas não sabia que estava dirigindo um carro flexível. "Até recentemente, a única forma de saber era vendo o número de identificação do veículo", observou o jornal. Recentemente, a General Motors colocou tampas de gasolina amarelas em seus veículos flexíveis para alertar os consumidores.

Não sou especialista em automóveis, então pego a última palavra do Automotive News, maior revista do ramo. Seu editorial do dia 5 de junho
disse: "A promoção da General Motors que reembolsa os clientes na compra de gasolina é má estratégia para um fabricante que está tentando passar uma imagem verde. O programa deve ser abandonado, não expandido. É simplesmente um subsídio para carros que queimam muita gasolina. E é mais um exemplo da surdez da GM em questões ambientais. Sim, a GM pode produzir veículos tão eficientes quanto os de qualquer outra. Mas age como se seu futuro dependesse dos grandes consumidores de gasolina." Deborah Weinberg

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