UOL Notícias Internacional
 

14/06/2006

Míssil mortífero gera mais ira palestina

The New York Times
Steven Erlanger e Ian Fisher

Cidade de Gaza, na Faixa de Gaza
Oito civis palestinos morreram e mais de 40 ficaram feridos depois por mísseis israelenses lançados contra militantes islâmicos na terça-feira (13/6). O ataque inflamou ainda mais a ira palestina depois da morte de sexta-feira de uma família pelo que testemunhas chamaram de bomba errante israelense.

Enquanto isso, o ministro de defesa israelense anunciou que, segundo uma investigação sobre as mortes de sexta-feira, Israel não tinha sido o responsável.

"Temos conclusões suficientes para suspeitar que a intenção de descrever isso como um evento israelense simplesmente não está correta", disse o ministro, Amir Peretz, aos repórteres em uma conferência com a imprensa em Tel Aviv. "As evidências provam que este incidente não se deveu às forças israelenses."

Ele e outras autoridades disseram que a possibilidade foi eliminada por uma combinação de filmagens daquele dia associada a dados sobre onde e quando as bombas caíram e um pedaço de estilhaço extraído de uma vítima.

O grupo Human Rights Watch, que vem investigando os bombardeios israelenses em Gaza, disse sobre as mortes de sexta-feira, em uma praia de Gaza: "As evidências reunidas sugerem fortemente que a artilharia israelense foi culpada." O grupo pediu que Israel fizesse uma investigação independente, em vez de depender de seus próprios militares.

Marc Garlasco é um especialista americano que trabalha para o Human Rights Watch. Ex-funcionário do Pentágono, ele fez a avaliação de danos por bombas para os militares americanos em Kosovo, além de trabalhar para a Agência de Inteligência da Defesa. Ele disse que visitou a praia naquele dia após a explosão e que o tamanho da cratera, os estilhaços e a localização dos ferimentos nos corpos apontavam para uma "bomba vinda do céu, e não explosivos sob a areia".

Em entrevista em Gaza, Garlasco disse que encontrou estilhaços "consistentes com uma bomba de 155 mm israelense, lançada por um howitzer M109", inclusive um pedaço estampado com os números "155 mm".

No ataque de terça-feira, um míssil atingiu um carro, matou dois membros da Jihad Islâmica e aparentemente feriu um terceiro. No entanto, um segundo míssil atingiu a calçada na frente de uma casa cujos ocupantes tinham saído para ver o que acontecia, e a família Mughrabi e seus vizinhos foram devastados.

Duas crianças e três assistentes médicos morreram na segunda explosão, depois que a primeira destruiu uma van amarela Volkswagen de um famoso produtor de foguetes da Jihad Islâmica, Hamoud Wadiya, que morreu. Israel disse que Wadiya estava transportando foguetes Katyusha, encontrados na carcaça da van.

Os foguetes Katyusha, produzidos em fábricas, têm amplo alcance, além de precisão muito mais alta que os grosseiros Qassam, que militantes palestinos constroem em lojas com explosivos misturados em panelas de cozinha. Os Katyushas, diz Israel, foram contrabandeados do Egito para a Faixa de Gaza e representam um perigo maior às cidades israelenses, como Asheklon.

Desde que Israel retirou-se de Gaza, há 10 meses, centenas de foguetes Qassam foram lançados na fronteira israelense contra a cidade de Sederot. Apesar de os danos terem sido mínimos, a ameaça constante tem alto custo.Israel disse que foi forçado a eliminar os pontos de lançamento de foguetes pois as autoridades palestinas nada fizeram a respeito.

Militantes palestinos dizem que lançam os foguetes em resposta à campanha israelense de capturar ou matar militantes dentro de áreas palestinas de grupos como Jihad Islâmica e Brigadas de Mártires Al Aksa.

Depois do ataque de terça-feira, Hekmat Mughrabi, chorando, disse que seu filho de 30 anos, Ashraf, morrera em seus braços. Ashraf correu para a porta depois da primeira explosão, tentando acalmar as crianças que brincavam no telhado. "Ele estava gritando para as crianças: 'Não tenham medo, não tenham medo'". O segundo míssil caiu antes que acabasse a frase, disse ela à Associated Press.

O presidente palestino, Mahmoud Abbas, irritado, chamou as ações israelenses de "terrorismo de Estado" e acusou Israel de tentar "erradicar o povo palestino". Abbas, disse: "Todo dia temos mártires, temos pessoas feridas, todas transeuntes inocentes". Seus assessores acreditam que o apoio que poderia ter para negociar com Israel vem sendo minado pelo total de mortes civis.

As mortes devem tornar mais difícil para Abbas e os EUA persuadirem o Hamas a negar a violência e aceitar acordos prévios entre israelenses e palestinos que se baseiam em uma solução permanente de dois Estados. Abbas também terá maior dificuldade de fazer o Hamas aceitar a proposta de referendo que reconhece Israel ao menos implicitamente.

Houve um pandemônio na terça-feira no Hospital Al Shifa, para onde os mortos e feridos foram levados. Surgiram atiradores no pátio, que soltaram tiros para o alto e bateram na porta do necrotério para pegar os corpos de seus camaradas ou parentes. Com macas, caminharam com os corpos em marchas espontâneas em torno do hospital e nas ruas, carregando as bandeiras pretas da Jihad Islâmica e amarelas da Fatah e da Brigada de Mártires Al Aqsa, à qual Ashraf Mughrabi pertencia.

Em uma cena grotesca, um militante da Jihad espalhou o sangue de um camarada morto em seu rifle e ergueu-o no ar.

No meio da fumaça ácida de pneus queimando, as mulheres gritavam: "Morte a Israel, morte à ocupação."

Depois da explosão de sexta-feira, o Hamas disse que estava abandonando seu cessar fogo de 16 meses com Israel, apesar de autoridades israelenses insistirem que o Hamas tinha começado a atirar Qassams contra Israel na semana anterior.

Peretz e outras altas autoridades alegaram que a explosão de sexta-feira ocorreu entre 16h57 e 17h10. Eles se basearam em uma série de filmes, não especificamente identificados mas apresentados na conferência com a imprensa. Um deles, gravado do mar, mostrava o que chamaram de atividade "normal" naquele trecho da praia, até o horário de 16h57. Um filme posterior, de 17h15 mostrava a chegada de uma ambulância de um hospital a cinco minutos de distância.

O general Hezi Levy, ministro da saúde e um dos investigadores, disse que o inquérito tinha contabilizado todas as bombas daquele dia, menos uma, e nenhuma delas explodira naquela hora. Ele disse que a única bomba não contabilizada tinha sido lançada "muito" antes de 16h57. Mais tarde, outro oficial especificou que ela fora lançada às 16h30.

"Não há chance de essa bomba ter causado tanto dano", disse o general.

A conferência com a imprensa, entretanto, deixou claro que sua explosão foi perto do local e do horário do incidente. De acordo com uma fotografia com os pontos atingidos, a última bomba caiu às 16h48 a centenas de metros ao norte do local da explosão fatal.

Levy disse que quatro dos feridos foram levados para hospitais israelenses e que o estilhaço extraído de um deles não era do tipo de munição usado naquele dia.

As autoridades disseram que também revisaram outros bombardeios recentes na área e descartaram a possibilidade de uma bomba israelense ter caído anteriormente e ter sido ativada pela família palestina.

Na conferência com a imprensa, Peretz e outros se recusaram a especular sobre o que poderia ter causado a explosão. No entanto, alguns oficiais sugeriram que o Hamas poderia ter plantado minas terrestres contra unidades israelenses.

Peretz não negou a possibilidade de especialistas estrangeiros avaliarem as evidências israelenses, como pediu o Human Rights Watch. Mas o comandante das forças armadas, general Dan Halutz, disse que não havia necessidade.

"O que estamos fazendo é muito, muito, muito profissional", disse aos repórteres. "Não precisamos da assistência de ninguém." Deborah Weinberg

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