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15/06/2006

Genes e comportamento: libertação ou destino?

The New York Times
Amy Harmon
Jason Dallas costumava pensar em seu gosto por coisas arriscadas -um amor por esqui, mountain bikes e veículos rápidos- como "um lance de personalidade".

Então ele soube que cientistas do Centro Fred Hutchinson de Pesquisa do Câncer associaram comportamento de risco em camundongos a um gene. Aqueles sem ele se empinavam desprotegidos ao longo de uma barra de aço em vez de cruzarem rapidamente para segurança como outros camundongos.

Agora Dallas, um chef em Seattle, está convencido de que tem uma predisposição genética a correr risco, uma conclusão que os pesquisadores de camundongos dizem não ser injustificada, já que acreditam que variações semelhantes nos genes humanos podem explicar por que as pessoas percebem o risco de forma diferente.

"Está no seu sangue", disse Dallas. "Você escuta pessoas dizerem este tipo de coisa, mas agora você sabe que realmente está."

Um crescente entendimento da genética humana está levando a novas
considerações sobre quanto controle temos sobre quem somos e como agimos.

Entre as mais recentes descobertas: genes que parecem influenciar se um
indivíduo é gordo, tem talento para dança ou é viciado em cigarro.
Pronunciamentos sobre o poder dos genes parecem estar quase diariamente nos noticiários e estão mudando a forma como os americanos se sentem a respeito de si mesmos, suas falhas e seus talentos, assim como das decisões que tomam.

Para algumas pessoas, a idéia de que podem não ser totalmente responsáveis por algumas de suas qualidades menos desejáveis é libertadora, conferindo um alívio apoiado cientificamente da culpa e dúvida. Outros se sentem condenados por seu próprio DNA, que parece mais difícil de mudar do que os culpados mais tradicionais por falhas pessoais, como uma infância difícil. E muitos consideram simplesmente deprimente pensar que seus feitos podem não
ser resultado de seus próprios esforços.

Os pais também estão repensando sua contribuição. Talvez não tenham errado na educação de seus filhos teimosos, mas apenas lhes dado genes ruins. Talvez não tenham sido seus talentos paternos superiores que produziram um premiado com o Nobel. Se a nova ênfase nos genes gerará tolerância ou preconceito por diferenças inatas continua sendo uma pergunta em aberto. Se uma característica como excesso de peso passar a ser vista como resultado de uma influência genética em vez de simples falta de disciplina, o estigma social ligado a ele poderá dissipar, por exemplo. Ou, gordos poderão passar a ser vistos como geneticamente inferiores.

Como ainda hão há testes para genes que influenciam características de
personalidade e comportamento no mercado, não há como a maioria das pessoas saber quais elas têm. E mesmo se pudessem, os genes recém-descobertos são considerados como apenas uma influência, não determinadores da personalidade. Os biólogos também enfatizam o papel que o ambiente exerce em ativar predisposições genéticas que caso contrário nunca se manifestariam, ou na atenuação daquelas que se manifestam.

A adoção da genética pelo público pode ser motivada por um desejo ilusório tanto quanto pela verdade científica. Em uma era de incerteza, a biologia pode parecer fornecer uma resposta concreta para comportamentos difíceis de explicar. E a fé de que a genética pode iluminar os aspectos metafísicos do ser humano é para alguns uma extensão lógica da crescente esperança de que pode curar doenças.

"Mais e mais histórias sobre quem somos e como vivemos estão se tornando moleculares", disse Paul Rabinow, um antropólogo da Universidade da Califórnia, em Berkeley, que estuda a inter-relação entre ciência e cultura. "A antiga visão de mundo liberal de que tudo é uma questão de vontade ainda está muito presente na América, mas a genética está se transformando em uma forte contracorrente."

Isto pode se dever em parte à ciência ter se tornado mais crível. Armados com a seqüência do genoma humano, que é um catálogo da variação genética na população humana, e ferramentas que pode medir de forma barata qualquer composição genética do indivíduo, os cientistas agora podem apontar genes associados a características herdadas.

Desenvolvidos para dissecar a base genética para males complexos como
doenças cardíacas e câncer, os métodos agora estão sendo aplicados a áreas menos urgentes como a forma como os genes podem influenciar o desejo sexual ou a desordem de déficit de atenção. Apesar dos cientistas ainda não terem demonstrado qualquer causa genética que afete diretamente tal comportamento, eles descobriram associações plausíveis. E para muitas pessoas, isto basta.

Não há nada de novo na idéia de que o temperamento e o comportamento são moldados pela herança genética. As famílias há muito apontam para
características da família presentes na nova geração ou se gabam de
habilidades criativas herdadas. Mas à medida que a ciência começa a
corroborar a intuição, o público está reavaliando o crédito e
responsabilidade para características que podem ser em parte geneticamente predeterminadas.

"Os fatos científicos mudaram", disse Steven Pinker, um psicólogo de Harvard que documentou a resistência cultural à influência da genética no comportamento em seu livro de 2002, "Tábula Rasa".

"Nós agora temos evidência real de que alguma variação na personalidade é herdada", disse Pinker, "e acho que pode estar afetando as escolhas diárias das pessoas".

Algumas pessoas persistem em acreditar no poder do espírito humano, mas um número cada vez maior prefere se submeter ao teste de DNA. Após a recente descoberta de uma variação genética que torna milhões de pessoas significativamente mais predispostas a ganhar peso, Mike DeWolfe, um programador de computador que se considera acima do peso, não pôde deixar de se perguntar se era uma delas.

"Eu realmente gostaria de passar por um exame, porque isto ajudaria a
reduzir minha culpa a respeito", disse DeWolfe, 38 anos, de Victoria,
Colúmbia Britânica, notando que também apreciaria um tratamento genético como uma alternativa às constantes dietas. "Isto faria uma grande diferença."

"Resumindo", recentemente escreveu Joe Pickrell, um estudante de genética de 23 anos em seu blog, "você quer viver até uma idade avançada? Têm pais que viveram muito? Acha que é um sujeito pacato e amistoso porque sua mãe educou você direito? Pense de novo. Capaz de experimentar drogas algumas vezes e nunca se viciar porque tem vontade forte? Não". (Pickrell, de Chicago, pontuou cada sentença com um link para um recente artigo de revista científica descrevendo o componente genético para expectativa de vida, agressão e susceptibilidade a vício em drogas.)

Jacki Thorpe se perguntou por ano por que sua irmã mais velha conseguiu
deixar de fumar tão facilmente, enquanto suas várias tentativas fracassaram. Afinal, elas foram criadas de forma virtualmente idêntica e começaram a fumar juntas, quando tinham 12 e 14 anos. Então ela soube da variação genética que predispõe algumas pessoas ao vício em nicotina.

"Eu tenho", disse Thorpe, 42 anos, uma assistente de administração em
Whidbey Island, Washington. "Minha irmã não tem." Determinada a combater seu suposto destino genético, Thorpe jurou que tentará deixar de fumar mais uma vez neste ano.

Um estudante da Universidade de Stanford que participou de um grupo para estudo sobre fumo e genética estava mais resignado: "Vamos dizer que eu ainda esteja viciado em cigarros daqui 10 anos", disse o estudante em uma entrevista por telefone, pedindo para que seu nome não fosse citado porque esconde seu hábito de fumar de sua família. "Pode parecer que não é um fracasso total da pessoa, apenas que certas coisas tornam isto mais difícil para mim do que para outras pessoas. Isto meio que tira o peso."

Mas amigos e parentes que se preocupam com comportamento autodestrutivo ou que não parece saudável às vezes suspeitam que culpar os genes é uma
desculpa fácil. Quando o deputado Patrick J. Kennedy citou o histórico de vício de sua família ao reconhecer um problema com comprimidos prescritos após ter batido o carro perto do Capitólio, no mês passado, por exemplo, alguns zombaram. "Kennedy culpa batida a 'gene de acidente de carro'", dizia a manchete no Antimatternews, um blog humorístico, em uma alusão ao acidente de carro, em 1969, no qual o pai de Kennedy, o senador Edward Kennedy, estava dirigindo e a passageira morreu.

Bioeticistas alertam que a adoção da genética como explicação para
comportamento problemático ameaça deixar a sociedade livre de obrigação. É mais provável que tributar cigarros, proibir o fumo em bares e não glamourizá-lo em filmes ajude a reduzir o número de fumantes do que drogas específicas para certos genótipos, dizem estes críticos.

Ainda assim, na Hazelden, um centro de tratamento de câncer em Minnesota, o ensino de genética se tornou padrão. Saber que aproximadamente metade do risco de alcoolismo está associado aos genes pode remover o fardo da culpa que atua como um obstáculo para a recuperação, disse Marvin Seppala, o diretor médico chefe do centro.

"Eles dirigem bêbados, têm filhos e dizem: 'Eu não acredito que fiz isto'", disse Seppala. "Saber que têm uma doença com componente genético como outras doenças realmente os ajuda a entender este tipo de comportamento insano."

À medida que a genética passa a rivalizar a experiência na infância como método favorito para interpretar desvios de comportamento, os pais que se culpam pelas desordens de seus filhos também estão encontrando algum alívio. Pesquisa recente revelou que condições como anorexia ou autismo, antes consideradas principalmente psicológicas, são ao menos em parte genéticas.

"Você se pergunta: 'O que fizemos de errado, o que não demos?'" disse Kathy Ramsey, 55 anos, uma secretária em Sacramento, que teve três filhas diagnosticadas com anorexia. Mas a nova idéia de DNA pode vir com uma nova armadilha de culpa.

"Eu o transmiti para elas", acrescentou Ramsey, cuja filha, Heather, foi voluntária de um estudo genético sobre anorexia na Universidade da Carolina do Norte após ler sobre a pesquisa no jornal local, no início deste ano. "Estava em mim."

Algumas pessoas se mostram mais dispostas a perdoar pecados dos pais que agora consideram motivados em grande parte pelo DNA. Mas outras ficam furiosas, irracionalmente, por terem recebido genes inferiores. Tim McGrath, 45 anos, disse que tomar conhecimento do componente genético do alcoolismo o deixou mais determinado a não seguir o caminho de seu pai. Ainda assim, ele é assombrado pelo medo de que viu seu próprio destino.

"É como se este demônio estivesse lá fora, à espreita", disse McGrath, um professor em Chicago. "E sem a vigilância apropriada, ou outra coisa, ele poderá atacar."

Ao sugerirem uma base genética para comportamento antes considerado
resultado de falhas de caráter, os cientistas e outros dizem que as
descobertas poderão contribuir para um maior entendimento das diferenças humanas. Algumas pessoas obesas, por exemplo, esperam que isto reduzirá o estigma associado a ser gordo.

"Talvez ajude o resto do mundo a perceber que não se trata de falta de força de vontade, não é teimosia, não é preguiça", disse Jane Perrotta, 52 anos, uma escritora de medicina e colaboradora do blog para perda de peso "The Skinny Daily Post". "É aquilo que você recebeu."

Outros temem que quando certos comportamentos antes considerados como de escolha pessoal passarem a ser vistos como genéticos, o próximo passo não será tolerância à diferença, mas apoio a uma intervenção. Na lista de e-mail "aceitação do peso", vários membros sugeriram que a pesquisa recente só levará a novas formas de perda de peso por alteração genética, em vez da aceitação de como são. E quando os cientistas fizeram as moscas de fruta procurarem moscas do mesmo sexo alterando um gene, no ano passado, alguns defensores dos direitos dos gays se preocuparam que isto poderia apoiar a noção de que a homossexualidade pode ser "curada".

As pessoas também poderiam ver seus genes sendo usados ainda mais
abertamente contra elas. Alguns cientistas já suspeitam que um gene
específico tenha um papel no comportamento violento, por exemplo, e já
começou uma discussão sobre como as pessoas que possuem este ou genes
semelhantes deveriam ser tratadas.

"Se encontrarmos uma mutação de homicídio, nós passaremos a ser mais
tolerantes com assassinos, ou vamos trancá-los ainda mais severamente?"
perguntou Jeffrey M. Friedman, diretor do Centro Starr para Genética Humana, na Universidade Rockefeller. "Quanto mais descobrimos que genes exercem um papel na determinação de todo tipo de atributos, mais nos veremos diante destes tipos de questões éticas."

É claro, para as características que são socialmente desejáveis, as pessoas poderão não ser tão rápidas em aceitar explicações genéticas que trivializem seu talento ou realizações. Quando, no início deste ano, cientistas encontraram duas variações de genes presentes em taxas maiores em dançarinos profissionais do que na população em geral, muitos dançarinos se irritaram com a notícia. Nos murais de mensagem online da "Pointe Magazine", vários disseram que o sucesso na dança foi resultado de trabalho árduo, paixão e bons professores.

"Ser um dançarino exige mais do que o que há em seu corpo, uma força
emocional que os genes não podem fornecer", disse Virginia Johnson, editora da "Pointe" e ex-dançarina principal do Dance Theater Harlem. Ela prosseguiu: "Bem, talvez isto também seja genético, não é?" George El Khouri Andolfato

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