UOL Notícias Internacional
 

16/06/2006

Embora enriquecida pelo petróleo, Angola ainda sofre com a epidemia de cólera

The New York Times
Sharon LaFraniere

Em Luanda, Angola
Em um país onde o boom multibilionário do petróleo deveria tornar sua população próspera o bastante para beber Evian, a água da qual dependem muitos nesta cidade de 4,5 milhões de habitantes tem um nome menos chique: Bengo. O rio Bengo passa ao norte daqui, com suas águas escuras de terra, suas margens repletas de lixo.

Vanessa Vick/The New York Times - 6.jun.06 
Maria leva filha de dois anos, Amelia, aos Médicos Sem Fronteiras para tratar cólera
Duas dúzias de estações de bombeamento extraem 4,9 milhões de litros do rio todo dia, enchendo 450 caminhões-tanque que, por sua vez, abastecem 10 mil vendedores nos inúmeros bairros pobres de Luanda. Os vendedores então enchem galões e tinas dos moradores das favelas da cidade, que compram a água para beber e tomar banho.

Este é um motivo, disseram especialistas de saúde daqui, para as favelas de Luanda serem atualmente o centro de uma das piores epidemias de cólera a atingir a África em quase uma década, um surto que adoeceu 43 mil angolanos e matou mais de 1.600 desde seu início, em fevereiro.

Mas é apenas um dos motivos. O cólera normalmente se espalha por contato com água ou esgoto contaminado, e nas favelas de Luanda ambos estão em toda parte. Os bairros aqui são cercados por montanhas de lixo, freqüentemente embebidos em córregos de dejetos humanos. Apenas metade dos moradores da favela tem uma latrina externa.

Crianças seminuas dançam pelos riachos cheios de esgoto e deslizam pelas pilhas de lixo em placas de metal até poças fedendo excremento.

Grande parte da cidade não tem sistema de drenagem; durante chuvas fortes, a água imunda sobe até a altura da cintura em algumas das moradias mais pobres.

Um grupo de desenvolvimento estimou que seriam necessários 22 mil caminhões para a remoção do lixo. Isto foi em 1994, quando Luanda tinha metade da população que tem atualmente.

"Eu nunca vi nada parecido", disse David Weatherill, um especialista em água e saneamento da Médicos Sem Fronteiras, que está liderando a resposta à epidemia. "Você vê condições semelhantes em menor escala. Mas nunca vi em tamanha escala. É chocante."

Angola está no meio de uma fartura de receita do petróleo, com seus hotéis lotados de executivos do petróleo e seu porto cheio de petroleiros que levam daqui 1,4 milhão de barris de óleo cru extraídos diariamente. A economia cresceu 18% no ano passado. O governo obteve um superávit orçamentário de mais de US$ 2 bilhões.

Espera-se que neste ano ele consiga uma receita de US$ 16,8 bilhões, bem acima dos US$ 7,5 bilhões que conseguiu em 2004. No próximo ano a expectativa é de que aumentará novamente em um terço, quase tudo devido ao petróleo.

Os economistas dizem que o governo literalmente tem mais dinheiro do que pode gastar. Mas parece impotente para tratar mesmo de questões básicas como água limpa e esgotos, que tornariam tais epidemias totalmente evitáveis --um paradoxo que os críticos atribuem à corrupção, incompetência, ressaca dos 27 anos de guerra civil que encheram a cidade de refugiados ou todas as três.

"Nós estamos falando de um governo que dispõe dos meios", disse Stephan Goetghebuer, coordenador do Leste da África para a Médicos Sem Fronteiras. "Há muitas coisas que poderiam fazer. As condições de vida são realmente terríveis, terríveis mesmo se você as comparar a outros locais na África."

Sebastião Veloso, o ministro da Saúde de Angola, disse que a amplitude do problema desafia uma solução rápida. "Nós apenas fazemos o melhor que podemos", ele disse. "A falta de infra-estrutura é um problema administrativo muito complicado. Nós estamos fazendo nossa parte no Ministério da Saúde, e o restante do governo deve fazer sua parte. Nós estamos pressionando o governo, porque caso contrário estas epidemias continuarão."

Apenas um em cada seis lares de Luanda dispõe de água potável, e para muitos deles, ela vem de poços comunitários, segundo a Development Workshop, um grupo sem fins lucrativos em Angola. A água do rio freqüentemente contaminada distribuída pelos caminhões que circulam pelas favelas custa até 12 centavos de dólar o galão (3,785 litros) --um preço caro para um país onde dois terços vivem com menos de US$ 2 por dia, e até 160 vezes o preço pago em bairros melhores com água encanada.

Assim, os pobres racionam a água que usam, se limitando a cerca de dois galões por dia por pessoa para beber, tomar banho, lavar roupa e limpeza. Isto está bem abaixo do mínimo recomendado pela ONU de 20 litros por dia --e 1/26 do uso médio nos países ocidentais, segundo a Médicos Sem Fronteiras.

Em uma tentativa de combater a epidemia, o governo, com a ajuda da ONU, está distribuindo uma quantidade limitada de água limpa gratuitamente. Os poucos pontos de distribuição são fáceis de avistar. Centenas de pessoas acordam antes do amanhecer para entrar com seus baldes de plástico em filas que se estendem por quadras. A multidão permanece até muito tempo depois da água ter acabado.

Boa Vista
Em uma tarde recente, dezenas de pessoas se amontoaram em torno de um tanque de água de plástico vazio a cerca de 13 quilômetros do centro. "Elas estão esperando pela última gota", disse José Mateus, um coordenador do bairro.

Ninguém sabe precisamente por que o cólera surgiu nas favelas neste ano após uma década sem cólera em Angola. Os epidemiologistas dizem que a longa ausência da doença agravou a epidemia, porque a população não tem imunidade desenvolvida.

Assim que começou, nem mesmo o lar mais bem cuidado da favela foi capaz de detê-la.

Ela primeiro atingiu Boa Vista, uma favela a poucos minutos do centro. Ombrina Cabanga, uma mãe de 20 anos de uma menina de dois anos, fez de tudo para se proteger, disse sua cunhada, Oriana Gabriel. Ela lavava as verduras, os pratos e a latrina que a família divide com três outras. Como o Ministério da Saúde recomendou, ela usou água sanitária para desinfetar a água para beber que comprou no vendedor do bairro.

Mas sua casa fica a poucos metros de uma vala gigante cheia de lixo. Sua latrina, como as dos outros, despeja diretamente nela. Ela vendia sabão todo dia na esquálida feira da cidade, um trabalho que ela esperava deixar fazendo um curso de alfabetização para adultos.

Certa terça-feira no final de março, ela chegou em casa e vomitou em um balde. Duas noites depois, ela estava morta.

"Eu sou só um trabalhador, eu não sei por que o governo não nos ajuda", disse o marido dela, Vieira Muieba, 27 anos, um operário de construção. "Eu não sei para onde vai o dinheiro. Nós ficamos furiosos mas não sabemos o que fazer."

De Boa Vista, a epidemia seguiu pelas grandes estradas para quase todas as 18 províncias do país. Maria André perdeu sua filha de 15 anos, sobrinha de 13 anos e um sobrinho de quatro anos em um espaço de dois dias. Cinco outras crianças na casa também adoeceram, mas se recuperaram.

Maria está tomada pela culpa quase três semanas após as mortes. "Eu não sei o que aconteceu", ela disse. "Eu ouvi sobre a doença no rádio e, de repente, ela estava aqui. Elas estavam saudáveis e agora estão mortas."

"Não é fácil perder três crianças de uma só vez."

Corrupção
Autoridades do governo angolano disseram que não há solução do dia para a noite para a falta de água encanada e saneamento básico. No final de maio, o presidente José Eduardo dos Santos prometeu novas medidas para melhorar as condições, incluindo a remoção dos moradores das favelas mais estarrecedoras de Luanda.

Mas os planos do governo estão apenas em sua infância e, apesar da alta receita do petróleo, carentes de recursos.

Considere o plano do governo para assumir parte do abastecimento de água às favelas de Luanda: quatro meses depois do início da epidemia de cólera de Angola, 20 caminhões foram encomendados --um número minúsculo em comparação à frota de mais de 300 caminhões privados que atualmente abastecem os pobres. No início de junho, Veloso, o ministro da Saúde, ainda estava aguardando pela primeira entrega.

Os mais duros críticos do governo atribuem as condições abjetas de vida à corrupção. A Transparency International, que promove o bom governo em todo o mundo, classifica Angola como o sétimo país mais corrupto do mundo. O Departamento de Estado dos Estados Unidos disse, em um relatório de 2002, que a riqueza de Angola estava concentrada nas mãos de uma elite minúscula, composta em parte por autoridades do governo que se enriqueceram em grande escala.

Outros diplomatas e analistas dizem que o partido do governo de Angola ainda está tentando se aprumar depois da guerra civil que transcorreu quase que ininterruptamente de 1975, quando Angola conquistou a independência de Portugal, até meados de 2002. Dauda Wurie, um diretor de projeto do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), disse que a guerra eviscerou as fileiras de administradores competentes do governo, o deixando em desarranjo.

"Eu não os estou defendendo", ele disse sobre as autoridades do governo. "Eles compram carros grandes. Vivem em casas grandes. Mas seria errado esperar que tudo se endireitaria apenas com o fim da guerra."

Até a próxima epidemia
Representantes da Médicos Sem Fronteiras disseram que a resposta do governo à epidemia tem sido terrivelmente lenta e carente de recursos. Um comitê para crise começou a trabalhar apenas dois meses e meio depois do início da epidemia, e o governo destinou meros US$ 5 milhões em dinheiro de emergência para combater a doença.

O exame da água do Bengo transportada pelos caminhões privados coube à Médicos Sem Fronteiras. No mês passado ela divulgou seu relatório: testes laboratoriais realizados em abril mostraram que a água não tratada do rio era imprópria para beber.

Mas apenas um em cada 10 caminhoneiros colocaram cloro em seus tanques; os demais continuaram entregando água não tratada à cidade.

Diante destas conclusões, o governo não fez nada, declarou o relatório.

Assim a Médicos Sem Fronteira organizou a distribuição gratuita de cloro. Ela agora planeja insistir para que os caminhoneiros coloquem os cristais em seus tanques enquanto os inspetores observam, para que não os vendam.

Quanto estes caminhoneiros --e os vendedores de bairro aos quais fornecem-- ganham é incerto. Mas o quarto de Janetta Jamela, no leste de Luanda, é um indício. Quinze sacos de concreto estão empilhados contra a parede --material para três novos quartos, uma cozinha e um banheiro.

Desde que ela e seu marido conseguiram levantar US$ 200 para a construção de um tanque de água subterrâneo há três anos, ela estimou, ela ganha cerca de US$ 235 por mês vendendo água --US$ 75 por mês a mais do que seu marido ganha como agente de segurança do governo.

"Mas é preciso ter os US$ 200 para começar", ela disse.

A epidemia de cólera agora está cedendo, após ter seguido seu curso natural e devastador, segundo os epidemiologistas. Mas sem uma melhoria nas condições das favelas, disse Weatherill, o especialista em água e saneamento do grupo, a pausa pode durar apenas até a próxima temporada de chuvas.

"A menos que as coisas mudem, nós provavelmente estaremos de volta no próximo ano", ele disse em uma entrevista por telefone, "e no ano seguinte". País tem superávit de mais de US$ 2 bi, mas não há saneamento George El Khouri Andolfato

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