UOL Notícias Internacional
 

16/06/2006

EUA identificam suposto sucessor de Al Zarqawi

The New York Times
Dexter Filkins*

Em Bagdá, Iraque
Oficiais militares americanos apresentaram nesta quinta-feira (15/06) um rosto para o novo chefe da Al Qaeda na Mesopotâmia, divulgando uma foto e detalhes sobre o homem que eles dizem que sucedeu Abu Musab Al Zarqawi, após sua morte em um ataque aéreo na semana passada.

U.S. Military via The New York Times - 16.jun.06 
Foto de Abu Ayyub al-Masri, o novo líder da Al Qaeda no Iraque, divulgada por oficiais americanos
Em uma coletiva de imprensa, o general de divisão William B. Caldwell, o porta-voz das forças armadas americanas aqui, identificou o provável sucessor de Al Zarqawi como sendo Abu Ayyub Al Masri, um egípcio que ele disse que foi treinado em um dos campos terroristas dirigidos pela Al Qaeda no Afeganistão, em 1999.

Al Masri, ele disse, foi um "membro fundador" da Al Qaeda da Mesopotâmia e era um dos "associados remanescentes mais próximos" de Al Zarqawi. Acredita-se que o grupo seja responsável por dezenas de atentados suicidas e carros-bomba em todo o Iraque, que mataram milhares de civis iraquianos.

Caldwell disse que Al Masri --o nome significa "o egípcio" em árabe-- é a mesma pessoa que Abu Hamza Al Muhajir, que a Al Qaeda na Mesopotâmia declarou na segunda-feira ser seu novo líder em uma mensagem postada na Internet. Ambos os nomes são considerados pseudônimos. Logo após a morte de Al Zarqawi, funcionários americanos previram que Al Masri seria o provável sucessor.

Em uma foto divulgada na quinta-feira, o homem que os americanos alegam ser Al Masri está vestindo uma kafiya, o tradicional turbante árabe, e exibindo um pequeno bigode e cavanhaque. Ele parece jovem, talvez próximo dos 30 anos, e não está sorrindo. Ele está olhando diretamente para a câmera, como se estivesse posando para uma foto de passaporte. Funcionários americanos disseram acreditar que Al Masri esteja próximo dos 40 anos, sugerindo que a foto é velha.

Os americanos disseram que Al Masri ingressou no grupo militante egípcio Jihad Islâmica em 1982, indo para o Afeganistão em 1999 para treinar no campo militante Farouq, onde aprendeu sobre explosivos.

A Jihad Islâmica era liderada por Ayman Al Zawahiri, um médico egípcio que posteriormente se tornou o vice de Osama Bin Laden na Al Qaeda. O campo Farouq, criado por Al Zawahiri e Bin Laden, era um dos principais campos de treinamento da Al Qaeda antes de ser bombardeado pelos americanos em outubro de 2001.

Caldwell disse não estar certo se Al Masri desenvolveu um relacionamento com Al Zawahiri ou Bin Laden.

Mas, disse o general, foi no Afeganistão que Al Masri desenvolveu um relacionamento com Al Zarqawi.

Al Masri, ele disse, veio ao Iraque no início de 2003 e ajudou a estabelecer a célula original em Bagdá que posteriormente se transformou na Al Qaeda na Mesopotâmia. Mais recentemente, Al Masri era um alto comandante operacional do grupo, fornecendo homens-bomba e carros-bomba. Ele foi responsável por todas as operações no sul do Iraque, disse Caldwell.

Acredita-se que Al Masri esteja operando em Bagdá, ele disse.

O elo entre Al Masri e Al Zawahiri é intrigante, em parte por causa de uma carta que oficiais americanos capturaram no ano passado, que acreditam ter sido escrita por Al Zawahiri para Al Zarqawi. Na carta, Al Zawahiri, que acredita-se estar escondido na fronteira montanhosa entre o Paquistão e o Afeganistão, questionou a ênfase de Al Zarqawi em matar civis xiitas, sugerindo que cada morte alienava os iraquianos e se afastava da meta maior de expulsar os americanos.

Isto levanta a possibilidade da liderança da Al Qaeda na Mesopotâmia estar contemplando uma mudança de tática.

No início desta semana, um homem que se identificou como Abu Hamza Al Muhajir --que os americanos acreditam ser Al Masri-- divulgou uma declaração por meio de um site jihadista na Internet prometendo continuar os ataques contra "cruzados e xiitas".

Ainda assim, funcionários americanos disseram acreditar que a morte de Al Zarqawi afetou a liderança da Al Qaeda na Mesopotâmia e que uma luta pelo controle da organização pode estar em andamento.

Caldwell sugeriu que outros na organização podem estar desafiando Al Masri, incluindo Abdullah Al Rashid Al Iraqi, o líder do Mujahedeen Shura, ou Conselho dos Guerreiros Sagrados, uma organização que alega supervisionar a Al Qaeda na Mesopotâmia e vários outros grupos militantes.

"À medida que continuamos olhando para a rede da Al Qaeda, não há dúvida de que há algum tipo de desarranjo e desorganização a esta altura", disse Caldwell.

O governo iraquiano divulgou o que disse ser um documento da Al Qaeda na Mesopotâmia, que mostra as dificuldades que os rebeldes estão enfrentando no Iraque. O documento pede por esforços para sabotar o relacionamento dos Estados Unidos com os xiitas iraquianos --e para iniciar uma guerra entre os Estados Unidos e o Irã-- para salvar as perspectivas da insurreição.

O documento diz que a insurreição está sendo enfraquecida pelo programa americano de treinamento de forças de segurança iraquianas, assim como pelos "grandes ataques e prisões", o bloqueio das redes de financiamento dos rebeldes e pelo lançamento de uma campanha de propaganda que estava levando os iraquianos a acreditar que os rebeldes estão agindo contra o interesse público.

"O tempo agora está começando a ser favorável às forças americanas e prejudicial à resistência", diz o documento.

"Nós falamos especificamente em promover a escalada da tensão entre a América e o Irã, e entre a América e os xiitas no Iraque", diz o documento.

Não há como verificar a autenticidade do documento. Caldwell disse que ele veio de um "dispositivo de armazenagem" descoberto em uma batida realizada antes do ataque aéreo contra Al Zarqawi.

Em Washington, funcionários da Casa Branca atenuaram os relatos saídos do Iraque de que, como forma de promover a unidade, o novo governo está considerando conceder anistia àqueles que atacaram soldados americanos.

Durante uma coletiva de imprensa na quinta-feira, Stephen J. Hadley, o porta-voz da Casa Branca, pediu paciência, notando que os iraquianos ainda estão trabalhando em seu plano de unificação.

"Eles falaram em dar passos para tentar convencer as pessoas a baixarem suas armas e ingressarem no processo político."

Ele prosseguiu: "Eles falaram sobre lidar com a questão das milícias. Eles falaram sobre uma espécie de abordagem de comissão da verdade e reconciliação como na África do Sul, e falaram sobre anistia. Mas isto está apenas em discussão".

Espião na Al Qaeda
Pela primeira vez, oficiais americanos ofereceram uma cronologia detalhada do ataque aéreo que matou Al Zarqawi. Apesar de os americanos terem se recusado a discutir os detalhes, a seqüência de eventos sugeriu a presença de um espião infiltrado na Al Qaeda, que indicou aos americanos a localização de Zarqawi dentro da casa onde foi morto.

Segundo a cronologia, um momento crítico que antecedeu o ataque ocorreu às 16h18, cerca de duas horas antes do ataque aéreo. Foi quando um veículo contendo duas pessoas estacionou diante de uma casa iraquiana não identificada perto daquela em Hibhib onde Al Zarqawi aguardava. Uma das pessoas no veículo era o xeque Abd Al Rahman, o conselheiro espiritual de Al Zarqawi, que os americanos estavam seguindo. Al Rahman entrou.

Cinco minutos depois, outro veículo chegou à mesma casa. As identidades daqueles que estavam no segundo carro não foram reveladas. Mas, segundo a cronologia dos eventos, Al Rahman partiu 23 minutos depois para se encontrar com Al Zarqawi.

A primeira reunião na localização não revelada, disse Caldwell, foi o principal indício de que Al Rahman logo se encontraria com Al Zarqawi, o alvo dos americanos.

O propósito deste primeiro encontro, ao que parece, era para Al Rahman ser informado da exata localização de Al Zarqawi e que era seguro ir para lá. Até aquele momento, era improvável que Al Rahman soubesse onde Al Zarqawi se encontrava.

"Esta foi a primeira vez que vimos Rahman seguir para um local de encontro, deixando seu veículo para entrar em outro lugar", disse Caldwell. "Foi uma movimentação que no final o levou ao esconderijo."

Quatorze minutos depois de deixar a primeira casa, Al Rahman chegou à casa em Hibhib, onde Al Zarqawi o esperava. Ele saiu de seu veículo e entrou na casa.

A reunião prosseguiu por cerca de 45 minutos, disseram os oficiais, quando um veículo não identificado deixou a casa com dois passageiros. Al Zarqawi e Al Rahman ainda estavam lá dentro.

Logo depois, os americanos ordenaram que um piloto de F-16 lançasse duas bombas de 450 quilos sobre a casa, matando Al Zarqawi, Rahman e quatro outras pessoas, incluindo uma menina.

Ao ser questionado se o veículo que deixou a casa antes do ataque aéreo levava o espião americano, Caldwell ofereceu uma resposta intrigante: "Nos foi pedido para que não falássemos sobre os indivíduos que deixaram o local, para onde foram ou onde estão agora".

*John F. Burns, em Bagdá e Scott Shane e Jim Rutenberg, em Washington, contribuíram com reportagem.

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