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17/06/2006

Pentágono admite que americanos usaram técnicas de interrogatório abusivas no Iraque

The New York Times
Eric Schmitt

Em Washington
Soldados americanos das Forças de Operações Especiais aplicaram um conjunto de técnicas de interrogatório duras e não autorizadas contra detentos no Iraque durante um período de quatro meses no início de 2004, bem depois que a aprovação dessas técnicas foi rescindida, segundo os resultados de uma investigação, divulgados pelo Pentágono nesta sexta-feira (16/06).

Esta foi a mais recente das 12 grandes investigações reveladas ao público que examinaram alegações de abusos cometidos contra detentos por militares norte-americanos em Cuba, Afeganistão e Iraque. E foi a primeira a se concentrar nas Forças de Operações Especiais, que operam com mais liberdade de ação do que outras unidades militares. Ela detalhou o tratamento brutal que continuou sendo aplicado aos prisioneiros em bases de operações isoladas, mesmo depois que informações sobre os abusos vieram à tona pela primeira vez na prisão Abu Ghraib.

Os interrogadores das Forças de Operações Especiais forneciam aos detentos apenas pão ou biscoitos crackers e água, caso eles se recusassem a cooperar, segundo a investigação conduzida pelo general Richard P. Formica, do exército dos Estados Unidos. Um prisioneiro recebeu apenas pão e água durante 17 dias. Outros detentos ficaram encarcerados por até sete dias em celas tão pequenas que não possibilitava que ficassem de pé ou que se deitassem, enquanto os interrogadores reproduziam músicas em alto volume, que os impedia de dormir.

A investigação também determinou que alguns dos detentos fossem despidos, molhados com água e, a seguir, interrogados em salas com ar-condicionado, ou ao relento, no ar frio. O general Formica informou que essa técnica parece ter sido aplicada no caso de um detento que mais tarde morreu durante um interrogatório feito pelo grupo de elite da marinha Seals, em Mosul, em 2004. Mas ele relatou que não tomou conhecimento de nenhuma alegação especificamente relacionada àquela morte.

No entanto, o general Formica recomendou que nenhum dos soldados por ele investigados sofresse sanções disciplinares. Ele atribuiu os maus tratos às "diretrizes inadequadas" dos superiores, e não a "falhas pessoais", e disse que nenhum dos detentos iraquianos entrevistados pareceu mais tarde estar em pior estado devido ao tratamento a que foi submetido.

"Um período de 17 dias a pão e água é muito extenso", concluiu o general. Mas ele acrescentou que o comandante do corpo médico lhe disse o seguinte: "São necessários mais do que 17 dias para que se desenvolva uma deficiência de proteínas ou de vitaminas devido a uma dieta de pão e água".

A investigação do general Formica se focalizou na conduta do Quinto e do Décimo Grupos de Forças Especiais, que são unidades do exército. Ela não abrangeu as ações realizadas no Iraque pelas unidades de operações especiais que atual de forma altamente clandestina, incluindo a Força Delta e os Seals da marinha, ou outras unidades secretas e especializadas, incluindo a Força-Tarefa 6-26, alvo de extensas acusações de má conduta publicadas por The New York Times em março.

No âmbito dessa investigação, o general Formica recomendou oito modificações em grande parte administrativas, incluindo mais treinamento para os interrogadores das Forças de Operações Especiais, padrões mínimos para as condições de detenção, e novas políticas regulamentando o uso de forças nativas que trabalharam com os soldados de operações especiais. Funcionários do Pentágono informaram nesta sexta-feira que todas as oito modificações foram implementadas.

O general Formica concluiu que o cerne do problema foi o fato de os interrogadores das Forças de Operações Especiais terem utilizado por engano, entre fevereiro e maio de 2004, cinco de um conjunto de 12 técnicas de interrogatório que o general Ricardo S. Sanchez, à época o principal comandante no Iraque, havia proscrito em outubro de 2003 porque advogados militares determinaram que elas eram excessivamente brutais.

"É lamentável", afirmou o general Formica em uma entrevista concedida na sexta-feira a três repórteres no Pentágono. "Mas eles receberam equivocadamente uma política errada".

O general Sanchez aprovou as técnicas em setembro de 2003, incluindo o uso de gritos, de música a uma altura insuportável e de cães militares para apavorar os cativos iraquianos. Mas a confusão quanto ao uso dessas técnicas se alastrou pelo Iraque, mesmo após elas terem sido suspensas um mês depois. Vários dos carcereiros norte-americanos na prisão Abu Ghraib também disseram acreditar que as técnicas foram autorizadas sem a aprovação prévia do general Sanchez.

O relatório divulgado pelo Pentágono na sexta-feira foi uma cópia altamente editada do documento sigiloso de 75 páginas completado pelo general Formica 20 meses atrás. Membros do Congresso receberam resumos do seu conteúdo há mais de um ano. O Pentágono e o Comando Central se recusaram desde então a responder a repetidos pedidos por parte do NYT e outras organizações de notícias para que fornecessem uma versão não censurada do relatório.

O secretário de Defesa, Donald H. Rumsfeld, prometeu que tal versão de todas as investigações de vulto seria revelada à imprensa. Mas o Pentágono finalmente tornou pública uma versão sem censura segundo a Lei de Liberdade de Informações, por exigência da União Americana de Liberdades Civis.

Na sexta-feira, no Pentágono, o general Formica e outros funcionários graduados do Departamento de Defesa ressaltaram que o documento não consiste em uma análise ampla das práticas de detenção e de interrogatório conduzidas pelas Forças de Operações Especiais.

No seu relatório, o general Formica realizou entrevistas relativas a três incidentes separados relativos a alegados abusos cometidos contra detentos, envolvendo as Forças de Operações Especiais, alguns dos quais foram citados por uma outra investigação do exército conduzida pelo general George R. Fay, cujo trabalho se concentrou em integrantes da inteligência militar. O general Formica também analisou as conclusões a respeito de sete outros incidentes que foram previamente investigados.

No primeiro incidente que investigou, o general Formica disse que as alegações feitas por vários membros de uma família iraquiana de que interrogadores norte-americanos na prisão Abu Ghraib, em dezembro de 2003, os espancaram, os sodomizaram com uma garrafa d'água e os esbofetearam, não foram confirmadas por qualquer evidência física ou médica. Além disso, ele afirmou que os membros dessa família eram conhecidos simpatizantes da resistência.

No segundo caso, o general Formica admitiu que dois detentos iraquianos em uma prisão não identificada receberam apenas pão e água durante 13 e 17 dias, respectivamente. Mas as alegações de que um ex-policial iraquiano e um intérprete libanês nascido no Iraque, ambos trabalhando em conjunto com os norte-americanos, os socaram e chutaram não foram confirmadas.

O general Formica descobriu que no terceiro caso, ocorrido em uma unidade das Forças de Operações Especiais próxima a Tikrit, três detentos foram de fato mantidos em celas de 1,2 metro de altura, 1,2 de comprimento e 50 centímetros de largura, só saindo para irem ao banheiro, serem lavados ou interrogados. Ele conclui que dois dias em tais condições de confinamento "seria razoável, mas cinco a sete dias não". O general Formica concluiu que dois dos detentos foram mantidos nestas solitárias durante sete dias, e o outro durante dois dias.

Dos sete outros casos previamente investigados pelo general Formica, as alegações referentes a dois foram consideradas infundadas, e um deles não envolveu as Forças de Operações Especiais, concluiu o relatório.

Com relação a dois outros casos, as investigações ainda estavam pendentes quando o general Formica concluiu o seu relatório em novembro de 2004. Um porta-voz do Pentágono, o coronel Mark Ballesteros, disse na sexta-feira que aquelas investigações foram concluídas, mas ele não quis fazer comentários sobre os seus resultados. Prisioneiros foram torturados e alimentados a pão e água por dias Danilo Fonseca

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